Entrevista a Juliana Maar, por Alex Gamela, a nossa autoridade local no centro do país. 

Começaste na fotografia como modelo?

Sim… quer dizer, não. [Depois de uma longa relação] meti uns anúncios para modelo artístico, porque não conhecia ninguém, mas, ao mesmo tempo, comecei com o telemóvel a fazer uns autorretratos. Tinha um Tumblr, e tive um feedback muito engraçado. Depois houve um fotógrafo de Los Angeles que me pediu para fazer umas fotos e eu disse que não tinha medidas para modelo. Ele explicou que para ser modelo fotográfico não tinha nada a ver com as medidas de modelo de moda. Correu muito bem, foi superprofissional, e pensei “Olha, pronto, vamos fazer isto”. Comecei a fazer trabalhos de modelo mas nunca deixei de fazer fotografia. Em determinado ponto passei a ter muitos mais trabalhos de modelo, mas continuei a ter a parte do autorretrato mais conceptual. Achei que deveria ter uma direcção mais específica, uma preocupação estética maior.

As duas partes complementam-se uma à outra. Mas o lado de modelo foi diminuindo muito, já não tem tanto interesse a não ser que seja para interpretar uma personagem. Aquele trabalho de registo clássico, de fazer poses, já me dá seca.

Toda a gente publica fotos todos os dias, existe a síndrome do selfie.

… mas eu não faço o selfie, faço o self shot, que é uma diferença que eu tento explicar às pessoas. Faço um autorretrato que não é centrado na minha cara, sinto-me muito desconfortável com uma câmara apontada. Se calhar é uma reacção a isso. A diferença entre a selfie e o autorretrato é que se calhar a selfie é uma necessidade de validação perante os outros e o autorretrato é uma necessidade de expressão que é mais do que mostrar a tua cara.

As pessoas não usam o corpo nu para se expressar de uma forma que não seja sexual. Também o faço, mas mais por provocação. E eu gosto disso. Porque não usar o corpo de uma forma não sexualizante? Eu gosto de usar o meu corpo como uma espécie de base e os adereços como o resto da história. Muitas vezes perguntam-me se as fotos que faço não são para chocar. Não, nem sempre é, por vezes é por uma questão prática.

Há um limite na minha intimidade que eu não quero partilhar. Por mais livre que eu seja com o meu corpo e as minhas ideias, eu gosto da ideia de ter algo meu, que é só meu e partilho com quem quero.

Como é que achas que a nossa sociedade encara o corpo?

Uma das coisas que me irrita ainda às vezes é quando dizem que o meu trabalho é quase pornográfico. Sinceramente, pornográfico para mim é um conceito completamente diferente. Como modelo, o meu trabalho era completamente anódino, era simplesmente estares numa fotografia, de pé, de corpo inteiro, nu. Que sexualidade é que isso tem? Uma fotografia um bocado sexual é uma pose, uma sugestão e faço isso por vezes porque gosto muito do poder da sugestão. Eu não tenho coisas muito explícitas, mas gosto disso.

Mas as pessoas têm muito aquela coisa de “Eh, pá, tens muita coragem em fazer isso” e eu digo “É só uma mama! O que é que se passa com vocês?”

Não acho que isto seja algo fora do vulgar mas a nossa sociedade é ainda um bocado fechada relativamente a estas coisas do corpo e da exposição. Há quem se refira ao meu trabalho… como é que as pessoas dizem… “arrojado”, “muito no limite”, ou “puxado”. Existe muito pudor com o nu.

O que é que já publicaste?

Publiquei um livro com uma microeditora de Coimbra, Do Lado Esquerdo, que publica poesia e foi o primeiro livro que eles fizeram com fotografia. Foi com a Bénédicte Houart, que escreveu uma espécie de haikus, e eu vi o manuscrito e trabalhei as fotografias a partir dali. Foi um trabalho que ainda me demorou sete meses a conseguir fazer. Sinto-me mesmo muito feliz com esse trabalho. E é um trabalho muito de metáfora, o que num trabalho de 32 ou 35 fotografias foi muito complicado. Tenho feito muitas fotos em colaboração com zines, particularmente com a Flanzine, e mais uma colaboração para a Bíblia.

Eu gosto muito – e cada vez gosto mais − que me dêem um tema. Se me dessem dois livros por ano para eu fazer imagens eu era muito feliz. Isso dava-me tempo para os meus próprios projectos e gosto muito da ideia de não serem só as minhas ideias e de alguém me dar algo para eu trabalhar.

Por qual manifesto dás a cara?

O meu manifesto é o corpo nu. É fazer com as pessoas deixem de ter certos tabus. O meu manifesto é esse, tu podes transmitir determinadas mensagens, sejam sexuais ou não, que eu às vezes faço coisas que podem ser provocatórias, ou mesmo mais poéticas, e eu gosto que as pessoas tenham esse confronto, e percebam que o que faço é normal. Só não preciso de fazer isso com a minha cara, o meu rosto, porque isso não é importante, o importante é a mensagem que quero transmitir.

Eu encaro aquilo que eu faço de uma maneira artística, que é coisa que detesto dizer. Detesto dizer que sou fotógrafa, mas como é uma coisa que faço de forma consistente há já algum tempo é uma distinção que faz sentido. Tenho uma necessidade de expressão tão grande que quando quero fazer uma fotografia nada se mete à minha frente. A criação artística é a única coisa que deixamos no mundo, quando te vês como pessoa criadora, o que deixas para as outras pessoas é aquilo que tu criaste. Tu não pensas nisso quando estás a criar, não estou a pensar que a foto que eu vou fazer vai existir daqui a 100 anos.

Entrevista por Alex Gamela

Ilustração por Nuno Saraiva