A Ana Isabel Fernandes é a nossa autoridade local em Trás-os-Montes. Na edição de Março da Revista Gerador, falou com o artista plástico Miguel Moreira e Silva.

Como é que posso identificar a pronúncia do norte, mais especificamente a Transmontana, nas tuas máscaras?

O que envolve a máscara são os ritos de passagem. A adolescência é uma coisa que apareceu na América pós-Segunda Guerra Mundial com ícones como James Dean e assim. Antes disso, ou se era criança ou adulto e, entre esses dois polos, havia os ritos de passagem. Isso ainda acontece na Amazónia, nas tribos americanas e africanas. Basicamente, é quando se passa de criança a homem e tens de provar à sociedade que consegues suportar uma família. Se formos a ver, os caretos transmontanos também fazem parte desses ritos de passagem até porque só podiam participar rapazes solteiros. Também se podem associar aos ciclos de fertilidade da terra e, de alguma forma, relacionam-se com o culto de Hades e Perséfone: na parte do ano em que Perséfone está com Hades é Inverno e quando regressa é Primavera e Verão. Não é por acaso que Cristo morre e ressuscita na Páscoa, no equinócio da Primavera, quando tudo renasce. Isso está presente em quase todas as culturas.

Como é que se explica a necessidade humana em criar todo esse fantástico associado à máscara?

A máscara existe em todo o mundo. Onde há homem há máscara. Aliás, a palavra máscara vem do latim Persona que tem a ver com personalidade e pessoa. Este fenómeno aqui dos caretos transmontanos, por exemplo, existe em toda a parte: na Itália e na Bulgária. Na Alemanha também há o mesmo fenómeno, assim como em outros países da Europa. Agora, em relação à tua pergunta, por que razão é que existe o Carnaval? Tudo isso tem a ver com os bacanais, com o culto a Dionísio. A questão dos Caretos, por exemplo, trata-se de uma tradição pré-cristã que tem a ver com a fertilidade. Repara que os Deuses cornudos também têm a ver com a fertilidade. Claro que, depois, tudo isso foi cristianizado.

E como é lidar com a dualidade do cristianismo e do paganismo no teu trabalho? Pelo facto do cristianismo ter incluído algumas tradições pagãs, como aconteceu em Trás-os-Montes, essas duas vias partilham muita coisa.

É bastante grato lidar com esses dois pólos. São temas bastante recorrentes no meu trabalho, não só na máscara. O cristianismo está associado a toda uma iconografia do sofrimento que podemos relacionar a várias vertentes. Esse lado simbólico atrai-me. Já no paganismo há os deuses cornudos, que acabam por ser iguais à representação do Diabo. Curiosamente, há um deus celta com chifres de veado, o Cernuno, e parece que encontraram, em Vila Real, vestígios antigos da realização do seu culto. Mas essa é, sim, uma dualidade muito rica e interessante.

Há pouco disseste uma coisa muito interessante, “onde há homem há máscara”.

Como é que o teu trabalho conjuga esse lado transmontano e, ao mesmo tempo, essa abertura para o que parece ser uma necessidade universal e íntima do homem?

O meu trabalho, ao nível da máscara, tem como temas o diabo, a morte, o velho e a censura. Esses são temas de cariz tradicional transmontano, sim, mas a abordagem plástica que utilizo é que foge um bocado ao tradicional. Aliás, fiz uma exposição em Paris e para levar um bocado a nossa identidade levei três máscaras: o “Diabo”, a “Morte” e o “Velho”. Achei piada porque um jovem chegou-se ao pé de mim e disse-me que aquelas máscaras pareciam asiáticas, do “teatro nô japonês”. Fiquei positivamente admirado porque foi, exactamente, o que me inspirou imenso no início. Quer eu queira, quer não, de uma forma inconsciente introduzo elementos da máscara asiática, algo que eu admiro, no meu trabalho. A máscara existe onde há homem e eu sou influenciado por outras culturas, é verdade, mas sempre fiz máscaras. Comecei em 92 e, na altura, era uma coisa bem mais pesada no estilo. Quando voltei para Trás-os-Montes, definitivamente, é que me deparei com esse fenómeno e me envolvi mais pessoalmente com a máscara transmontana e os caretos. O meu trabalho, no entanto, tem a ver com o tradicional transmontano, sim, mas a abordagem plástica é muito variada.

O teu trabalho parte do fantástico; como encaras o realismo?

Curiosamente, agora, quero fazer uma série de retratos. Umas coisas realistas, a dar para o bem feito, mesmo. Mas, ao mesmo tempo, sinto que é uma coisa complicada porque tens de apelar ao ego. Quando te vês ao espelho, o que tu vês não é o que as outras pessoas vêem. A imagem que tens de ti não tem nada a ver com a imagem que os outros percepcionam. Quando te olhas ao espelho não és tu, estás ao contrário. O mesmo acontece quando as pessoas ouvem, pela primeira vez, a sua voz gravada. Geralmente, quando isso acontece, ninguém gosta de se ouvir.

Por Ana Isabel Fernandes, a nossa autoridade local em Trás-os-Montes

Ilustração por Júlio Dolberth