Entre os dias 27 de outubro e 5 de fevereiro podes visitar a exposição Secrets to Tell, da artista Grada Kilomba, na Project Room do MAAT. Para além de ser a primeira vez que a artista expõe em Portugal, é quem inaugura o espaço do Project Room e marca a primeira parceria entre a EGEAC e o MAAT.

Esta exposição tem a curadoria de Inês Grosso e foi construída a partir da videoinstalação intitulada The Desire Project, uma obra especialmente concebida para a 32ª Bienal de São Paulo (2016) e, mais recentemente, uma aquisição da Coleção de Arte da Fundação EDP. A curadora da exposição sublinha a importância de trazer a temática da colonização a Portugal: “Para mim, que vivi alguns anos no Brasil e que conheci de tão perto a sociedade brasileira, que ainda hoje luta para digerir as consequências do processo de colonização e pós-colonização, mostrar The Desire Project em Portugal – e pela primeira vez no continente europeu – tão profundamente marcado pelo legado do colonialismo, representa um movimento muito especial a nível pessoal e profissional. Este trabalho, que vi pela primeira vez na Bienal de São Paulo de 2016, fez-me pensar no quão curta é a distância temporal e histórica entre nós e o nosso passado colonial. E de como ainda estamos tão agarrados ao que sobra do edifício do colonialismo e do imperialismo ocidental. Daí a urgência e importância de se debater estas temáticas”.

The Desire Project ocupa praticamente a totalidade do espaço expositivo do Project Room, sendo a peça principal da exposição. Dividida em três atos, como uma peça de teatro – “While I Walk, While I Speak and While I     Write” – a obra mostra uma sequência cadenciada de frases e palavras, num discurso que aborda as questões pós-coloniais. Antes de se ver o vídeo, somos apresentados à escrava Anastácia, introduzida à artista pela sua avó. Esta contava-lhe como Anastácia tinha sido encarcerada numa máscara que era dada a quem tinha o poder da palavra e incentivava a mudança e emancipação. Portanto, ao invés de escolher a história sexual desta escrava, opta por focar a sua atenção na história política, refletindo nos nomes de artistas e intelectuais que foram calados, mas não é por isso que deixam de ter contributos para nos oferecer. Por isso, diz que “a teoria da memória é, na realidade, uma teoria do esquecimento. Nós lembramos porque não podemos esquecer”. Quanto ao vídeo dividido em três atos, a artista optou por perverter as normas, tal como a máscara era uma perversão, e fazer um vídeo sem imagem, apenas com texto. Para além disso, não tem voz. A história é-nos contada pela precursão de Moses Leo, como se as palavras fossem faladas pela música. Porquê a música? Esta tem uma metafísica que não pode ser quebrada e uma força de entrar em espaços que se prende muito com a diáspora africana. Se pensarmos em países como o Brasil, Cuba ou África do Sul vemos a forte relação que, ainda hoje, têm com a música.

Para além de The Desire Project, a exposição conta com uma versão de leitura encenada do seu livro Plantation Memories, publicado por Unrast Verlag, Munster em 2008. Este foi um livro feito com a ajuda de uma bolsa do governo alemão e que nos apresenta conversas com mulheres da diáspora africana. Grada revela que o momento em que produziu este livro foi muito marcante, pois coincidiu com a procura pela sua família em S. Tomé e Príncipe. “Fala da intemporalidade – o passado que interrompe o presente e não me deixa chegar onde quero”. Já na 4ª edição, o livro está esgotado e só agora chega à língua portuguesa. Foi ainda incorporada na exposição, sob a forma de vídeo, Komos2, Labor #10, na qual Kilomba conversa com a rádio-ativista Diana McCarty. Esta é apenas uma das muitas conversas que Kilomba teve com artistas refugiados em Berlim e que mostra a necessidade de subverter fronteiras.

Esta exposição dialoga com The Most Beautiful Language, na Galeria da índia, da EGEAC, em exibição entre os dias 27 de outubro e 4 de março.  Com curadoria de Gabi Ngcobo apresenta sete obras: The Simple ACt of Listening, The Printed Room, The Dictionary, The Chorus, Plantation Memories Illusions e Mesa de Livros. É uma exposição que levanta questões fundamentais sobre “falar, silenciar e ouvir” numa sociedade pós-colonial. Grada revela que escolheu este título para a exposição – The Most Beautiful Language – pela ironia da fantasia de termos a língua mais bonita do mundo, que é uma fantasia colonial e de superioridade, quando na realidade a língua portuguesa é “falada de muitas formas diferentes, em países diferentes”. Alerta para a necessidade de se criarem novas linguagens e narrativas que se demarquem de um passado que é colonial, patriarcal e homofóbico. Destaca ainda a urgência de aprendermos a ouvir, pois “só podemos falar se a nossa voz for escutada”. Em The Dictionary apresenta-nos cinco definições das etapas que considera serem o percurso que temos de fazer após um passado de colonização: da negação passamos à culpa (onde a inocência não nos permite ver e o ego não quer ver), convertendo-se em vergonha para depois dar lugar ao reconhecimento e, finalmente, chegarmos à fase de reparação. Refere ainda que muitos artistas e intelectuais não têm os seus nomes documentados e, por isso, em Mesa de Livros concretiza o enterro digno daqueles que nunca foram documentados, mas têm obra para tal.

Kilomba é uma escritora, teórica e artista interdisciplinar com um percurso ativo na cena artística berlinense, cidade onde vive e trabalha. Tendo nascido em Lisboa e com raízes em São Tomé e Príncipe e Angola, a sua obra aborda questões relacionadas com as temáticas de género, raça, trauma e memória, quer no âmbito das problemáticas atuais sobre o colonialismo e pós-colonialismo no início do século XXI, quer para investigar as relações ambíguas entre memória e esquecimento, o imaginário coletivo e a identidade das culturas africanas, da diáspora e dos povos indígenas.

Outras participações da artista:

– Conversa com a artista e Carla Fernandes: Teatro Maria Matos, 28 de outubro, 18h30;

– Conversa com a artista moderada por Manuela Ribeiro Sanches: Hangar, 3 de novembro, 19h.