Porque decidiram falar sobre o Bons Sons?

O Gerador já andava cheio de vontade de ir conhecer o festival Bons Sons e este ano, entre os dias 11 e 14 de agosto, deu finalmente um salto a Cem Soldos. De facto, há poucos lugares no mundo onde chegamos e somos tão bem recebidos que nos sentimos logo em casa. Esta aldeia é um lugar assim. Nas palavras de Luís Ferreira, director artístico do festival, Cem Soldos “tem a escala de uma pevide. E os espaços pequenos têm essa vantagem, conseguem criar encontros. E cultura é promover encontros”.

As janelas e varandas das casas de Cem Soldos são locais ideias para assistir aos concertos no Palco Giacometti

Recheado de boa música portuguesa, misturando nomes emergentes com artistas já conhecidos da praça, o Bons Sons continua a apresentar o que de melhor se faz em solo nacional. No entanto, este festival é muito mais do que isso. É um epicentro da cultura portuguesa, que de púcaro na mão e chinelo no dedo se apresenta aqui, pronta para agradar a todos os gostos. Com uma receita tão apetitosa, era impossível o Gerador ir laurear a pevide ao festival e não voltar cheio de coisas para contar.

O que é o Bons Sons?

O festival Bons Sons nasceu há 11 anos em Cem Soldos, freguesia de Madalena, Tomar, pelas mãos dos habitantes da aldeia, e vai na sua 8ª edição. Ao longo dos anos foi sofrendo mudanças e crescendo, mas hoje existem oito palcos – Lopes-Graça, Giacometti, Eira, Aguardela, Música Portuguesa A Gostar Dela Própria (MPAGDP), Tarde ao Sol, Garagem e Armazém – com uma programação variada, que, para além da música, passa por actividades para crianças, cinema e artes performativas. A aldeia é um espaço acolhedor que nos envolve num sentimento de comunidade que é a base de todo o evento. E esse sentimento está sempre presente, tanto no miúdo que é voluntário e vai acampar no parque de campismo do festival com os amigos, como na senhora Ofélia, que é vizinha da equipa de filmagens do Bons Sons, ou na senhora Maria Rosa que assiste da sua janela a todos os concertos do palco Giacometti.

É comum ver Maria Rosa, residente na aldeia, a assistir aos concertos da janela de sua casa

Todos eles são uma peça fundamental para que o festival possa continuar a existir ano após ano. A comunidade está envolvida na criação do merchandising mas não só, também as equipas técnicas, a produção e a comunicação são constituídas pelos habitantes de Cem Soldos. “É um projecto de capacitação que envolve as pessoas, e, ao envolvê-las, elas percebem-no de forma a também crescerem com ele”, afirma Luís Ferreira. “O Bons Sons trabalha a questão da imagem da aldeia, o orgulho, o sentimento de pertença, e estamos a ter vários casais a regressar a Cem Soldos e a colocar as suas crianças na nossa escola”, acrescenta Luís, também ligado a outros projectos de inovação social que surgiram no Sport Club Operário de Cem Soldos (SCOCS), a associação cultural local, como o “Lar Aldeia” e o “Casa Aqui Ao Lado“.

O que é que mais se destacou no Bons Sons?

Não conhecemos outro festival que tenha um palco dentro de uma Igreja. Tiago Pereira, do projecto Música Portuguesa A Gostar Dela Própria, é o programador deste espaço e contou-nos que no sábado à noite este palco tem sempre de ser desmontado, “porque no domingo de manhã há missa, então no sábado à noite aquilo volta a ser um altar, para depois da missa voltar a ser um palco”. Foi neste cantinho bonito que é a Igreja de S. Sebastião que nos deixámos embalar pelas vozes suaves e jovens de João Raposo e depois de Lucía Vives, no segundo dia do festival. Este é sem dúvida o espaço certo para estas vozes, onde há o silêncio necessário para se ouvirem sem distrações. Não é possível ficar indiferente às bonitas letras das canções de Raposo. São canções curtas e que sabem a nostalgia. Lucía e João vieram viver a aldeia e elogiam o envolvimento da comunidade na organização do festival. “Aqui estamos nas festas da aldeia que por acaso têm concertos brutais”, comentou Lucía em conversa com o Gerador.

Foi também aqui que o cante alentejano dos Moços da Vila nos arrepiou e nos deixou de lagrimita no olho. Estes moços pequenos tomaram conta da igreja com as suas vozes já tão poderosas e foram aplaudidos de pé. Mas a vontade de cantar era tanta e a de ouvir maior ainda, por isso a Igreja não lhes chegou e lá foram eles cantando pela aldeia fora.

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Os Moços da Vila cantam uma das várias modas que encheram a Igreja de S. Sebastião

Também o concerto dos Mão Morta foi marcante por nos ter surpreendido com intensas explosões, tanto visuais como musicais. “Mutantes S. 21”, um disco com 25 anos, é o mote para um espectáculo em que as ilustrações que acompanham as canções são impressionantes e obscuras, contribuindo na perfeição para nos deixar num estado de imersão. Adolfo Luxúria Canibal também é um dos culpados dessa imersão, pela capacidade que tem de interacção com o público. Luxúria Canibal contou-nos que há 25 anos, quando “Mutantes S. 21” foi lançado, fizeram uma edição especial com banda desenhada, por acreditarem “que era o adeus ao vinil”. “Era com alguma pena que deixávamos um formato […] que tanto gostávamos. […] Era uma despedida”, recordou.

Aproveitaram o espaço gráfico possível desse formato em vinil para a banda desenhada, e agora, para celebrar os 25 anos e “fugir à nostalgia”, exploraram novas relações com a imagem e a tecnologia. “Pensámos num espectáculo com 15 temas. Os nove de “Mutantes S. 21”, seis que estávamos habituados a tocar […], três que nunca tínhamos tocado ao vivo e depois mais alguns temas para fazer o tamanho de um concerto normal”. A verdade é que não havia ninguém no palco Eira que não estivesse a abanar a cabeça ao ritmo da música.

Mantendo a onda da nostalgia, também José Cid se apresentou com o seu álbum “10 000 Anos entre Vénus e Marte”, obra icónica do rock progressivo, lançado em 1978. Os sintetizadores guiaram-nos na viagem espacial que é este disco, um álbum de ficção científica que nos fala de um futuro em que a Terra foi destruída e está totalmente desabitada.

Começamos num cenário apocalíptico que nos angustia, mas no final o que não nos falta é esperança. E assim terminamos com vontade de abraçar toda a gente enquanto cantamos em coro, sem perder fôlego, o refrão principal do álbum e o repetimos com a mesma força vezes sem conta. José Cid despede-se dizendo “Boa viagem para onde quer que vão na galáxia. Até lá, sejam felizes!”. Estamos de coração cheio quando as luzes se apagam e as ilustrações do álbum original desaparecem do nosso campo de visão. Cid já não está em palco, mas todos continuamos a cantar em sintonia, numa comunhão que é difícil de encontrar. Sabemos com toda a certeza que a única viagem que não queremos fazer é para casa.

Há quem arrisque “surfar” pelo público

Mas também há concertos que nos deixam mais emocionados

Outra das coisas que se destaca são as preocupações ecológicas do festival. Não há copos espalhados no chão, porque os copos de plástico descartáveis foram abolidos quase na totalidade. Assim, bebe-se a cerveja – e as bebidas típicas da zona – Mouchão e Charolinha – em copos amigos do ambiente, ou então nos púcaros de alumínio. Para além do ambiente limpo, da boa disposição e da música que inunda a aldeia, este é um festival onde é possível andar sem nos sentirmos completamente sufocados pela multidão e esbarramos constantemente uns com os outros. Aqui respira-se!

Deixamo-vos também uma curiosidade: como não poderia deixar de ser, até a recepção aos artistas é especial. O kit de boas vindas que é entregue a cada um é constituído por louro, orégãos, amêndoas, e uma tixa, o famoso símbolo do festival fabricado pelas avós da aldeia.

Há sempre uma história lateral que merece ser contada. Qual é essa história?

No terceiro dia do festival, pelas 16h15 caminhamos para o palco Giacometti para um dos concertos que mais gosto nos deu ver. Joana Barra Vaz sobe ao palco do coreto acompanhada da sua banda (ou “bandão” como ela lhes chama), com quem já não tocava desde março. Percebemos que tinham saudades de tocar juntos e sentimos uma energia genuína que nos envolve: o calor não importa porque a Joana está em casa aqui em Cem Soldos e o coreto é o alpendre onde ela toca para nós um concerto inteiro em bicos de pés.

O álbum “Mergulho em Loba” tem o mar no centro de muitos dos seus temas. Pela voz doce de Joana, as ondas chegam facilmente perto da aldeia. “Marinheiro, esta água é tão doce que transborda”. É nessa altura que Carlos Godinho surge ao nosso lado na primeira fila. “Ela está a chamar por mim, fui marinheiro durante 36 anos e dei duas voltas ao mundo”, diz-nos. Também ele acompanha o ritmo e os saltos da banda, e a sua voz junta-se à nossa quando o concerto termina e todos gritamos um agradecimento a plenos pulmões.

Joana Barra Vaz subiu ao coreto acompanhada pela sua banda e coro

“Isto é um festival que só se podia fazer aqui, porque nós somos uma aldeia muito carinhosa. A comunidade é muito unida e junta-se toda aos sábados e domingos para fazer muitas coisas aqui na aldeia”. Carlos Marinheiro, como é conhecido em Cem Soldos, está na equipa de montagens e começou a trabalhar 15 dias antes do festival. “Hoje estou de folga. Montei os palcos, os mastros, as bandeiras…Mas há pessoas a trabalhar há quase um ano”. Entretanto o palco já está vazio, mas nós deixamo-nos ficar para escutar mais sobre as voltas que este marinheiro deu ao mundo. Ficamos a saber que deu aulas em Timor, onde Xanana Gusmão o tratava por mano Carlos, e que, em Cem Soldos, a mulher estava grávida de uma filha que também viria a inscrever-se na marinha. Em que outro festival se contam histórias destas? :-)

Se eu quiser saber mais sobre o Bons Sons onde vou?

Visitem o site do Bons Sons ou a página do festival no Facebook para descobrirem mais sobre esta e outras edições. Ou, para um conhecimento realmente aprofundado, tirem férias em Agosto de 2018! ;-)

Texto e fotografias por Clara Amante e Filipa de Sousa