O que é?
A Ilustrada é um encontro de ilustração na Universidade da Beira Interior, que se realizou pela primeira vez em 2016 e terminou agora a sua segunda edição. Este ano, aliou-se à Maria Zimbro e decidiu dar o salto para fora das paredes da universidade, levando a ilustração também a Belmonte, ao Fundão e ao Paul. Esta última foi a vila escolhida para acolher uma residência artística de ilustração, orientada pelo tema “Mitos Rurais: do lobisomem à bruxa”, que culminou, depois, numa exposição.

Porque é que decidiram falar sobre este tema?
O Gerador ficou desde cedo encantado (ou será enfeitiçado?) com a ideia e chamou para a residência cinco ilustradores que sabíamos terem tanto de talentosos como de aventureiros. Foi assim que, no dia 15 de fevereiro, partimos num comboio rumo à Covilhã com o Hugo Henriques, a Andreia Café e a Mariana Casanova Ferreira. Guardámos lugar para o Elias Gato, mas ele ficou a ver o comboio partir enquanto fazia da plataforma pista de corrida e só se conseguiu juntar a nós horas mais tarde. Antes dele, juntou-se a Amalteia, que partiu do Porto. Com os nossos cinco elementos vindos de várias partes do país, tínhamos, finalmente, a equipa completa e pronta a conhecer os mitos do Paul!
Fomos desde logo bem recebidos pela Ilustrada e pela Maria Zimbro, com direito a um copinho do típico adamado e a uma visita guiada por parte do Wool Festival, onde ficámos a saber tudo sobre as obras de arte urbana que dão mais cor às paredes da Covilhã.
No entanto, não poderíamos prever a receção que nos esperava no Paul, que afinal não é apenas rico em histórias de bruxas e lobisomens, mas também numa magia muito própria que está em cada uma das pessoas que se cruzaram connosco. Contaram-nos histórias suas, dos seus irmãos e dos seus vizinhos, enquanto faziam nascer uma nova história da qual todos fazíamos parte. Decidimos falar sobre isto porque esta vila é um exemplo que toda a gente devia conhecer e porque gostamos de histórias que saltam para fora da gaveta: escritas, contadas, ilustradas.

Da esquerda para a direita: Amalteia, Hugo Henriques, Andreia Café, Mariana Casanova e Elias Gato

O que mais se destaca?
É difícil escolher os melhores momentos de um fim-de-semana tão preenchido de coisas tão boas. Não faltou música e boa comida (já temos saudades do bacalhau com natas da Ti Adelaide e da feijoada de javali da prima Fátinha!), nem longos passeios à hora de almoço. Mas conseguimos fazer uma seleção que vos vai deixar com água na boca e muita vontade de ir conhecer o Paul:
Chegámos de noite. De dia tinha estado sol, mas àquela hora o frio já não se acanha. Em compensação, tínhamos à nossa espera os sorrisos calorosos do JP, da Ana, da São e de vários outros elementos da Casa do Povo do Paul, todos juntinhos à lareira que tinham acendido para nós na Casa da Lameira.
Dão-nos pouco tempo para pousar as coisas e voltarmos a sair, a noite é uma criança e no Paul todos são jovens e a noite é deles. No fim da Rua do Quebra-Costas, uma rua muito íngreme e com a calçada original feita de pedras do rio, deparamo-nos com a Casa Típica. Entramos e, no quentinho, esperam-nos uma série de rostos sorridentes sentados em torno das típicas mesas de madeira. Estamos numa taberna, como aquelas antigas. Sabemos mais tarde que este local costumava ser a “loja” dos burros, mas agora é local de convívio (e do bom!). Quem nos recebe é Leonor, antiga presidente da Casa do Povo, mas isso ainda não sabíamos nós quando, de xaile aos ombros, ela nos dá as boas vindas com a história de uma bruxaria. Sentamo-nos e quando damos por isso já há Jeropiga para toda a gente. Porque, para quem não sabe, o Paul é a capital da Jeropiga!
Temos direito a um visionamento de parte do arquivo audiovisual do Paul: desde o Concurso da Aldeia mais Portuguesa (que a Leonor reprova veemente) às imagens do Rancho Folclórico do Paul em concursos internacionais. É nessa altura que a nossa anfitriã nos chama a atenção para um adufe pousado em cima da lareira. “Sabem o que é isto?” Conta-nos que a tradição do adufe no Paul se foi perdendo, mas que as raízes são fortes e estão agora a ser resgatadas pelas Adufeiras do Paul. De repente, os adufes tomam conta da sala. Todas as mulheres têm um na mão (de onde apareceram estes quadrados gigantes, sem que dessemos conta?), a música inunda a taberna, as batidas dos dedos suaves mas determinadas marcam o ritmo. Começam a cantar e distribuem folhas com a letra para que trauteemos com elas: “Eu hei-de morrer cantando, já que chorando nasci”.
Passam-nos os adufes para as mãos e incentivam-nos a experimentar. “Só as mulheres é que tocam adufe, os homens têm mãos muito pesadas!” Dão-nos a conhecer músicas tradicionais mas também combinações de lenga-lengas musicadas por elas. São um grupo heterogéneo, com mulheres de todas as idades. As mais novas são a Catarina e a Neuza, com 15 e 16 anos respetivamente. Começaram a tocar porque as mães também tocam e agora não querem que esta tradição se volte a perder de maneira nenhuma.
Já é tarde quando voltamos à Casa da Lameira, onde a lareira acesa ainda espreita enquanto nos deitamos, enrolados em muitos cobertores, sabendo que no dia a seguir o pequeno-almoço será pão acabadinho de sair do forno.
O programa da manhã é promissor: temos um encontro marcado com a Ti Prazeres e a Ti Teresa no Café Central Ti Glória. Sentamo-nos todos à volta de uma mesa enquanto o JP e a Ana lançam o mote: “Então, havia cá bruxas no Paul ou não havia?”

Hugo Henriques e Elias Gato

Ti Prazeres (84 anos) e Ti Teresa (94 anos)

A Ti Prazeres não é de meias palavras: “Ainda hoje as há, quanto mais nessa altura!” Ficamos a saber que as bruxas dançavam nas encruzilhadas e que tinham o dom de se transformarem em galinhas, como aquela que uma vez bloqueou a água do moinho e pregou um susto ao moleiro. Mas nem todas as histórias são sobre bruxas e lobisomens, há outras bem mais difíceis de explicar, como a da senhora que onde quer que entrasse fazia cair bolos e farinheiras, ou a do vestido de seda que apareceu todo cortado sem nunca ninguém lhe ter tocado. “Isto eram coisitas que se passavam. Há muitas histórias que são só histórias, mas estas são autênticas”, dizem-nos as nossas interlocutoras.

À tarde, ficamos a conhecer os recantos mais bonitos do Paul e até visitamos o único moinho que ainda está em funcionamento (e lembramo-nos logo da história da galinha que nos contaram de manhã).

Depois, a Ti Céu leva-nos a um sítio muito especial. A casa do Professor Luís da Fonseca, fundador do Rancho Folclórico do Paul, onde a sua mãe cresceu e trabalhou. Tendo passado grande parte da sua vida aqui, a Céu conhece os cantos à casa como ninguém. Agora desabitada, a casa e as suas amplas divisões distribuídas ao longo do comprido corredor de madeira exibem ainda mobília de época. Nos quartos, diversos padrões de papel forram as paredes e as cortinas brancas deixam passar uma luz difusa criando um cenário que nos remete para outros tempos e outros quotidianos.

Há teias de aranha e fotografias antigas espalhadas… Céu queria ter arrumado tudo, o JP não deixou. Nesta casa não morou nenhum lobisomem mas as paredes estão carregadas de histórias que também irão servir de inspiração para as ilustrações.

No Poço do Zé Azinho

Casa do Professor Luís da Fonseca

Ao jantar, deixamos os sustos e as lendas de parte. É o primeiro dia das comemorações dos 80 anos do Rancho Folclórico do Paul, e, como tal, a noite é de festa. Chegamos à cantina da escola e, a princípio, não conseguimos deixar de nos sentir como estrangeiros e meros observadores. A certa altura, o JP pega no microfone e anuncia a presença dos nossos ilustres ilustradores e ilustradoras. As dezenas de olhos em redor da mesa voltam-se para o grupo, curiosos com isto da primeira residência artística do Paul. Sorriem-nos e as perguntas e os comentários não irão tardar a chegar: “Então fazem parte do fantasminha?”, em referência ao cartaz da Ilustrada. “O que é uma residência artística?” “O meu pai tinha tantas histórias para vos contar, mas ficou doente hoje de manhã. Talvez da próxima vez. Voltem, está bem?”

À mesa, a distância que nos separa vai diminuindo, mas é quando a São distribui rolos de lã que tudo muda. Uma cor diferente para cada um, que devemos enrolar em novelos. Não sabemos porquê, nem para quê, mas à medida que vamos enrolando a expectativa aumenta e a descontração também. A Mariana e a Andreia são rápidas e meticulosas, já eu e o Elias, perdemos constantemente o fio à meada e vemos o novelo fugir-nos por baixo da mesa. A perícia e a aselhice replicam-se pela cantina fora e, a certa altura, parece que não importa se realmente existe uma segunda fase desta atividade ou se o fim é mesmo este, pôr toda a gente a rir. Quando terminamos, percebemos que a melhor parte ainda estava para vir, já que o objetivo é mesmo fazer a lã voar pela sala fora. Uma guerra de bolas de neve com novelos que entrelaçam toda a gente. Num espaço de poucos minutos, a agitação toma conta da sala, à medida que a lã vai sendo arremessada de todos os lados. A energia dos nossos anfitriões é contagiante e atinge-nos com o primeiro novelo :-)

Andreia Café

Quando acaba, já não somos estrangeiros. Hoje, somos daqui, pertencemos a esta teia de cores que salta e grita a plenos pulmões “Viva a Casa do Povo do Paul”. E se assim é, mal ou bem, também nós dançamos com o rancho.

A Leonor agarra na mão do Hugo Henriques e juntos exemplificam as coreografias que nos esforçamos por seguir (com pouco sucesso, diga-se). Rodopiamos pela sala a um ritmo que a nós nos parece alucinante, mas que acompanhamos porque, afinal, a energia deles agora é a nossa também e a senhora Maria José Costa tem 103 anos e não pára, por isso não somos nós que vamos parar.

Depois da festa na escola, ainda temos tempo de explorar alguns bares do Paul antes de terminarmos novamente a noite na Casa Típica, de onde só saímos porque a GNR insiste que é hora de fechar.

Há sempre uma história lateral que merece ser contada. Qual é essa história?

Ainda não era meio dia quando, durante a sessão das histórias, o sino começou a tocar ininterruptamente. A Ti Prazeres e a Ti Teresa deixaram a meio o que estavam a contar, olharam uma para a outra e disseram “Então e agora o que fazemos? Olha, rezamos”. E, assim, sem mais nem menos, começaram a entoar uma oração e depois outra, e mais outra, num coro muito rápido e assertivo.

Ao nosso lado, a Catarina explica-nos: “Pois é, estes toques são para relembrar as pessoas que têm um momentinho para rezar. As pessoas mais velhas param tudo o que estão a fazer e rezam. Acontece duas vezes ao dia.”

Ora aqui está uma coisa que nunca tínhamos visto :-)

Se eu quiser saber mais sobre este tema onde posso ir?

No dia 2 março, no edifício da antiga PT, na Praça do Município da Covilhã, foi inaugurada uma exposição com os trabalhos dos ilustradores e ilustradoras que deram vida às histórias que esta vila guarda.
Andreia Café, Mariana Ferreira, Elias Gato, Hugo Henriques e Amalteia apresentaram as ilustrações decorrentes da residência artística, que estarão, até dia 29 de março na Biblioteca Municipal da Covilhã.  Depois, em abril, as ilustrações seguem para o Fundão, em maio para o Paul, em julho para Lisboa e em setembro para Belmonte. E outros locais se seguirão, porque estas histórias não vão ficar quietas tão cedo :-)

Para saber mais sobre a Ilustrada é aqui e para conhecer tudo o que se faz na Casa do Povo do Paul é aqui. Para espreitar o trabalho de cada um dos nossos ilustradores, é segui-los no Instagram:

Amalteia
Andreia Café
Elias Gato
Hugo Henriques
Mariana Casanova Ferreira

Mas, para ficar a conhecer verdadeiramente os mitos do lobisomem à bruxa, só mesmo tomando o pequeno almoço no Café Central Ti Glória.

Cartaz oficial da Ilustrada 2018

 

Texto por Clara Amante

Fotografias por Carla Rosado