Ao entrar numa ponte na Sala Suggia, deparamo-nos com um grupo de sete instagramers de câmaras empunhadas. Uns apontam para o palco, outros para as janelas onduladas e outros para o dourado que ornamenta as paredes. Por entre flashes, ouvem-se algumas curiosidades acerca da Casa da Música. A Sala Suggia, que é a maior sala de concertos com 1238 lugares, contém duas réplicas de órgãos muito afinados no silêncio e é revestida a madeira enfeitada com folha de ouro, numa técnica idêntica à usada com a talha dourada. Essa conjugação revela a mistura de materiais nobres com comuns, algo que é transversal a todo o edifício. Este é só o início, uma vez que mais novidades e descobertas estão por vir.

Este foi um dos primeiros espaços a ser visitado no dia 30 de junho quando a Casa da Música recebeu o primeiro Instameet em Casa. Neste dia, seis instagramers foram convidados pela Casa da Música e duas foram selecionadas mediante um concurso organizado pela mesma entidade, porém apenas uma das vencedoras compareceu. Juntos, estes sete instagramers passaram o passado sábado a explorar os sítios mais improváveis da Casa da Música e aqueles que, no dia-a-dia, estão reservados às equipas da casa.

Alexandre Coelho Lima (@alexcoelholima) é um arquiteto que recheia a sua página de instagram com fotografias que primam pela composição de um olhar atento aos detalhes e onde a palete vai do preto e branco às mais variadas cores. Em conversa com o Gerador confessa que já teve uma relação mais importante com a música e que agora se dedica mais à fotografia. “A minha relação com a fotografia é muito antiga, mas só começou a fazer parte da minha vida de uma forma regular quando me registei no Instagram, em 2012”. O Alexandre já conhecia a Casa da Música, mas confessa que “hoje visitamos espaços que eu nunca tinha visitado e nem sabia da existência deles. Foi bom por isso”.

Página de Instagram do Alexandre Coelho Lima, ©Alexandre Coelho Lima

Rita Cordeiro (@ritacordeiro) partilha fotografias que formam um livro de memórias em que a sua presença muitas vezes se revela em sombras. “Gosto que a minha galeria seja um diário fotográfico daquilo que eu me quero recordar mais tarde”. Conta-nos que tem uma grande relação com a música, “aliás, eu comecei a ouvir música ao mesmo tempo que comecei a fotografar. Eu vivo com banda sonora”. Para a Rita é mais importante o que ela observa do que o que a lente vê. Já conhecia a Casa da Música, um edifício que lhe é especial há vários anos, pois o seu marido é arquiteto. “Vim cá quando estava em construção e fui tendo uma explicação detalhada do que estava a acontecer. Depois um dia fui a Roterdão e acabei a jantar no mesmo restaurante que o arquiteto. Acho que o edifício por fora é muito mais robusto e físico do que depois os espaços interiores”.

Página de Instagram da Rita Cordeiro, ©Rita Cordeiro

Gabriela Mateus (@gmateus) é uma contadora das histórias que vai vivendo a cores vibrantes e com um sentido de humor delicioso, “Portugal não é só sardinhas grelhadas e pastéis de nata!”, escreve na legenda da fotografia da Casa da Música que publicou na sua página de Instagram. Admite não ter uma relação especial com a música e não sabe datar o início da sua relação com a fotografia. As suas fotografias operam como um álbum de memórias. “Tento captar as coisas que eu vi, vivi e coisas que eu quero guardar com medo que um dia a memória se apague e quero relembrar aquelas coisas. As fotos que eu publico no Instagram é só uma parte do que eu faço. Gosto de fazer outro tipo de fotografia também, mas sempre na perspetiva de construir um álbum de memórias”. Embora já conhecesse a Casa da Música, nunca tinha feito a visita ao seu interior.

Página de Instagram da Gabriela Mateus, ©Gabriela Mateus

Sofia Calvet (@calvet_scenesfromamemory) é a mais nova do grupo e foi selecionada pelo concurso da Casa da Música para participar neste encontro. A sua página de Instagram é uma lufada de ar fresco com um tom poético. De todos os instagramers aqui presentes é a que mais tem relação com a música. “Estudei música, tenho o curso básico de música. Depois fiz mais outras coisas fora da academia, fiz outras escolas e tenho projetos. Já fiz algumas coisas em grupo. Nada fixo, vou experimentado várias coisas. Já toquei em alguns sítios, coisas mais pequenas também. Vou escrevendo músicas para mim para depois um dia produzi-las e ver no que vai dar”. Já a fotografia surgiu na sua vida por influência de uma amiga que tinha uma camara e a deixou com vontade de experimentar. Já conhecia a Casa da Música e inclusive passou lá uma semana com a Universidade Júnior a propósito do Ópera Jazz, embora nunca tivesse visto a Sala Suggia.

Página de Instagram da Sofia Calvet, ©Sofia Calvet

Gonçalo Saraiva (@goncalo_saraiva27) recheia a sua página com vistas urbanas que nos deixam com um sentimento de conforto. Gosta de “explorar as cidades, tirar fotografias às ruas, street photography. Também gosto de fotos a preto e branco, apesar de não fotografar assim muito, mas também é interessante”. Confessa que a música tem um papel importante na sua vida, pois ajuda-o a relaxar. A relação com a fotografia nasceu cedo, com apenas 6 ou 7 anos. “Os meus pais sempre me deram livros de fotografia, levavam-me a exposições de fotografia e nasceu o bichinho até aos dias de hoje”. Embora já conhecesse a Casa da Música, admite que agora a vê de forma diferente, “com um olhar fotográfico”.

Página de Instagram do Gonçalo Saraiva, ©Gonçalo Saraiva

O José Pinheiro (@o_pinheirojose) é um designer gráfico que aposta no surrealismo fotográfico recorrendo a montagens. A música tem um papel fundamental na sua vida. “Faço tudo com música e é das coisas que mais faz mexer com as minhas emoções. É uma companheira do meu dia-a-dia”. Já a fotografia foi uma paixão que surgiu antes da faculdade, mas apenas nessa altura teve uma máquina a sério que aumentou o seu interesse por esta arte. “Houve uma altura em que morreu um bocadinho, mas depois com o Instagram voltou a acordar a paixão que eu já tinha pela fotografia. Se bem que de uma forma diferente, porque é um bocado ligado à ilustração e à montagem”. Embora conhecesse a Casa da Música por ir a concertos ou tomar café, não a conhecia a fundo. As expetativas para este dia eram altas, esperava “descobrir estes pequenos segredos, coisas que não estão abertas ao público, ou seja o que está por trás dos espetáculos e da organização de uma Casa como a Casa da Música”.

Página de Instagram do José Pinheiro, ©José Pinheiro

A Lígia Claro (@ligiaclaroo) é uma fotógrafa freelancer que é apaixonada pela grandiosidade da simplicidade, uma vez que “os pequenos detalhes às vezes dão grandes coisas”. Para si a música também é essencial, “eu sem música não funciono”. O gosto pela fotografia surgiu por influência do seu pai, “ele começou a ensinar-me e desde ai começou a minha paixão, desde muito pequenininha. Fui gastando rolos atrás de rolos, aprendendo por tentativa erro e pronto, nasceu a minha paixão”. Também já tinha vindo à Casa da Música, mas nunca tinha tido a oportunidade de a explorar a fundo. Talvez por isso a suas expetativas fossem elevadíssimas, “estava super ansiosa, nem dormi muito bem!”.

Página de Instagram da Lígia Claro, ©Lígia Claro

A Casa da Música é um edifício emblemático do Porto, com nove andares, que nos surpreende pela sua dimensão e recantos labirínticos, devido à sua forma. Este trabalho arquitetónico foi desenvolvido pelo arquiteto Rem Koolhaas e está aberto ao público desde 2005, acolhendo vários géneros musicais e músicos desde então.

Ao longo desta descoberta pelos segredos da Casa da Música, os instagramers passaram por vários corredores cinzentos que eram surpreendidos por salas coloridas e convidativas. A sala roxa cumpre a missão de serviço educativo com uma forte componente musical. Para além de um teto roxo almofadado, podemos ver uma janela com vidros ondulados com vista para a Sala Suggia. A forma deste vidro é o que permite criar difusão da reflexão das ondas sonoras, ou seja, permite que a sala tenha janelas sem que tal prejudique a sua acústica. Reza a lenda que esta sala era conhecida como a sala dos namorados II, porque parece que os namorados tinham o hábito de aproveitarem aquele espaço confortável e escuro para namorarem.

Sala Roxa, ©Andreia Monteiro

Durante a visita foram muitas as histórias partilhadas e os espaços por onde os instagramers passaram, desde a sala laranja, ao bar suspenso com vista para a Sala Suggia, ou até a Sala 2 sem palco fixo. Porém, houve três espaços visitados, aos quais pessoas do exterior raramente têm acesso. O piso -3 acolhe as maquinarias que permitem que a Casa da Música funcione e acolha concertos com a qualidade com que o faz. Neste piso temos salas com o data center, armazéns, energia elétrica, condutas especiais que permitem a existência de música com uma acústica natural, máquinas para controlar a humidade, temperatura, pressão entre espaços adjacentes (o que permite eliminar sons como o ranger das portas), ou até uma sala de manutenção que acolhe as plantas do edifício para controlo das infraestruturas. Esta foi uma das características que mais surpreendeu Rita, “fiquei espantada com a diversidade de espaços, com a preocupação da insonorização e da temperatura, que é muito importante. Com toda a tecnologia e esforço humano que envolve a manutenção da Casa da Música”.

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Outro dos espaços visitados foi a sala de arrumos que acolhia 2500 instrumentos, em que a cada um destes instrumentos é atribuído um documento que equivale ao nosso boletim de saúde e onde é registado tudo o que aconteceu no percurso de determinado instrumento, o que é fundamental para que os músicos possam sempre tocar com instrumentos de elevada qualidade. No piso -2, também se pôde visitar as maiores salas de ensaios e a Mediateca que acolhe uma coletânea de discos onde estão gravados os concertos que decorrem na Casa da Música, as pautas em formato digital e em formato papel para que os músicos possam estudar e encantar-nos nos seus concertos.

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Para o Alexandre as expetativas para este dia foram superadas. “Visitei sítios que nem sabia que existiam e ter a possibilidade de os fotografar é ótimo. A luz está boa, o ambiente é porreiro, muito bom”.

Rita ficou particularmente impressionada pela “quantidade de tecnologia envolvida para manter a Casa da Música e a quantidade de pessoas que trabalha aqui”. Como sítios preferidos refere as salas roxa e laranja, que já conhecia, mas destaca o restaurante, no piso 7, que nunca tinha visitado. “Acho que é um espaço muito luminoso e muito bom. Também gostei muito da varanda, é muito fotogénica”.

Gabriela “esperava uma coisa espetacular e não fiquei desiludida”. Os espaços que mais a marcaram foram a varanda do restaurante e a sala VIP revestida a azulejos portugueses e holandeses, mas acima de tudo a sala roxa que “foi assim um tipo de surreal, parecido com entrar num sonho. Uma coisa completamente diferente e não conhecia”.

A Sofia gostou de poder visitar “sítios que normalmente não são acessíveis ao público” e destaca como local preferido a ponte que fica por cima do palco da Sala Suggia, pois “tens direito a ver algo que normalmente só os técnicos veem”. Gonçalo ficou particularmente surpreendido pela dimensão da Casa e destaca como locais mais surpreendentes os bastidores, a varanda do restaurante e a sala VIP.

O José ficou particularmente inspirado por um “instrumento que eu pensei que era vários instrumentos, mas era um instrumento que era tocado por várias pessoas. A parte que está por trás dos espetáculos, o funcionamento e as dimensões que tem e tudo o que envolve um espetáculo, não só as pessoas que estão em palco, mas também a parte que ninguém viu. Acho que foi o que me surpreendeu mais e os espaços em si, a estética do edifício. O quão diferente pode ser cada um dos espaços”. A varanda do restaurante também o inspirou para criar uma ilustração, agora é esperar para ver se resulta!

Para além de estar num espaço que adora e reunida com artistas que admira, Lígia destaca a varanda do restaurante como sendo o seu lugar favorito. “Tanto de noite como de dia, quem me dera ter uma assim em casa!”.

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Num dia que aliou a música à fotografia e valorizou a vertente artística do Instagram por autores portugueses, os retratos da Casa da Música foram captados por sete lentes atentas e talentosas. Os resultados, que vão continuar a ser partilhados nos próximos dias nas páginas dos instagramers, não deixam dúvidas de que a Casa da Música, pela sua magnitude e mestria, pode facilmente ser vista como um templo da música.

O Gerador é parceiro da Casa da Música
Texto por Andreia Monteiro