Entrando pela porta metálica verde do Fórum Dança os olhos estão concentrados num bailarino que ensaia a sua performance com uma câmara que projeta a sua imagem num fundo branco, ao lado da porta. Ao fundo agitam-se pessoas por entre os preparativos para os próximos dias em que decorria o OPEN PACAP #1 e Cartografias #0, numa edição mais aberta ao público do que nunca. O Fórum Dança abriu as portas ao Gerador e, numa sala acolhedora forrada a livros, falou-se da programação dos dias 4 a 9 de novembro e as portas que estes dias viriam abrir.

O Fórum Dança é uma associação cultural sem fins lucrativos, criada em 1990, com o objetivo de promover a dança contemporânea através da formação profissional e artística, da investigação, edição e documentação. Já promoveu mais de quarenta cursos em Lisboa, Porto, Torres Vedras e Algarve. Mas foi no passado mês de novembro que nos brindaram com novidades e quiseram abrir as portas a todos os que os quisessem conhecer.

Dora Carvalho, da direção do Fórum Dança, explica que “já tivemos vários momentos de abertura, mas dois projetos do Fórum Dança abrirem-se ao público ao mesmo tempo é a primeira vez. Sempre tivemos mostras de trabalhos de alunos, mas são esporádicas e mais afastadas no tempo. Desta vez, decidimos concentrar dois projetos diferentes e abrir para podermos divulgar mais o nosso trabalho.”

“Desta vez, decidimos concentrar dois projetos diferentes e abrir para podermos divulgar mais o nosso trabalho”
Dora Carvalho

Desta oportunidade única para se conhecer em profundidade o trabalho desta associação faziam parte duas programações inéditas. A primeira, OPEN PACAP (Programa Avançado de Criação em Artes Performativas), marca o lançamento de um novo curso do Fórum Dança com conferências, tertúlias e masterclasses. A segunda, intitulada Cartografias, propõe uma mostra de criações na área da dança contemporânea.

Uma mudança interna no Fórum Dança levou a que se repensasse a sua ação, tendo em conta a missão da associação, chegando ao PACAP. “Este projeto é novo. O Fórum sempre fez formação para bailarinos, intérpretes e criadores ao longo de 27 anos de existência. Também faz formação para professores e produtores. Esta é a formação para um público mais especializado e profissional. Temos tido diferentes modelos de cursos e temos sempre trabalhado nesta área. Durante um período de cerca de 8 anos tínhamos um projeto que era diferente. Era de longa duração, entre o ano e meio e dois anos, e que tinha vários coreógrafos e bailarinos a trabalhar seis horas diárias e que também tinha momentos de abertura ao público. Chamava-se PEPCC. Entretanto começamos a pensar, uma vez que também houve uma mudança interna no Fórum Dança, e começamos a refletir sobre esse projeto, sobre a formação, sobre os tempos de hoje, sobre o Fórum Dança e a sua missão e na sequência de muitas discussões e pensamento sobre o que podia ser a formação para o futuro chegando a este projeto, o PACAP. São ciclos de formação para artistas, que têm a duração de quatro ou seis meses, em que convidamos um artista para fazer a curadoria de cada curso. Portanto, cada bloco de seis meses tem um artista que desenha o curso”.

A primeira artista convidada foi a Patrícia Portela, que desenhou um curso com momentos de abertura ao público através de conferências, masterclasses, sessões de feedback e ensaios abertos. “Começámos a organizar e foi a Patrícia que decidiu os temas das conferências, os conferencistas e desenhou toda esta semana que chamamos de OPEN PACAP.” Durante este ciclo foi possível conhecer alguns participantes e colaboradores do PACAP do Fórum Dança através do encontro com o público em geral, oradores especializados e um grupo de jovens artistas, quer nacionais, quer internacionais.

O tema geral desta primeira edição era A Voz dos sem Voz. Junto da Patrícia Portela o Gerador tentou perceber o que era isto da voz do artista. “Essa é a pergunta que procuramos responder nos próximos 200 anos. A ideia é reunir um grupo de pessoas, pensadores, artistas, intelectuais, cientistas e interessados que queiram discutir esta ideia de como se cria uma voz, que voz é essa, se esta voz tem de ser uma porta-voz de uma política governamental ou europeia, ou se a voz do artista é outra voz que tem algo a acrescentar ao discurso científico, político, artístico e filosófico e onde é que nós nos tocamos, mas também até onde é que nós aprendemos uns com os outros. Portanto, este projeto piloto tem como objetivo, através da produção de objetos artísticos e de objetos de reflexão, pensar no que é isso dessa voz e onde é que o artista de alguma forma pode ser uma espécie de escritor fantasma daqueles que não têm voz, ou seja, daqueles que não têm um espaço público, um espaço oficial. Se calhar a arte pode ser um espaço onde todas essas vozes, que não se ouvem, se podem ouvir. Nós achamos da máxima importância arranjar formas, processos e metodologias de torná-lo possível”.

“pensar no que é isso dessa voz e onde é que o artista de alguma forma pode ser uma espécie de escritor fantasma daqueles que não têm voz, ou seja, daqueles que não têm um espaço público, um espaço oficial”
Patrícia Portela

Para além de ocuparem o Espaço da Penha, sede do Fórum Dança, a programação dividiu-se por outros espaços como a Faculdade de Belas Artes de Lisboa e a Casa Fernando Pessoa. “Este OPEN PACAP é a oportunidade de extravasar e sair fora do Fórum Dança e ir para outros espaços conhecer, encontrar e partilhar com outras entidades, como por exemplo a faculdade de Belas Artes e os seus alunos, a Casa Fernando Pessoa e toda a comunidade de poetas e comunidade à volta da mesma. Criar com outros artistas e instituições um espaço de encontro onde todos podemos debater uma série de temas comuns, mas pensados de formas diferentes. A ideia é sair fora de um espaço especializado, só nosso, e ir para a rua em instituições que trabalham com o ensino, a reflexão e produção de arte. O importante é trazer o debate para vários sítios e sentir-se contaminado por ele e contaminar outros espaços com o nosso discurso. É uma lógica de diálogo entre os vários sítios”. Dora destaca ainda a importância desta multiplicidade de espaços numa “programação feita a pensar nos alunos com uma abertura ao público. Se temos estas pessoas tão especiais cá, porque não permitir que outras pessoas possam assistir às conferências?”.

Um dos destaques na programação, feitos pela Patrícia, são os momentos de apresentação do primeiro PACAP. “É uma espécie de batismo deste projeto, uma espécie de statment. Cada um dos 16 participantes deste PACAP vai pela primeira vez apresentar aquilo que é possivelmente o seu projeto futuro”. Porém, o seu principal destaque vai para as conferências e masterclasses. “Penso que são momentos da maior importância em termos públicos, porque os vários pensadores e artistas que participam neste projeto trazem as suas ideias e temas e discutem com quem quiser, porque é aberto ao público”.

No primeiro dia da programação foi possível, desde logo, debater com o investigador e professor de Filosofia Nicolas de Warren e o diretor do Teatro Académico de Gil Vicente, Fernando Matos de Oliveira. Segundo Patrícia Portela “Nicolas de Warren é um dos melhores fenomenologistas vivos e Fernando Matos de Oliveira é, para nós, o pioneiro na pesquisa, documentação, arquivo e divulgação sistemática da dramaturgia portuguesa contemporânea”, através do centro de estudos de dramaturgia da Universidade de Coimbra, do qual é criador.

Fernando Matos de Oliveira, Patrícia Portela e Nicolas de Warren, © Andreia Monteiro

Nicolas de Warren falou-nos de um filósofo francês, Deleuze, que escreveu um livro sobre as pinturas de Francis Bacon, um pintor britânico. “Vou tentar mostrar o que é interessante na sua forma de pensar e ler os seus quadros como uma forma de teatro. Estou interessado na forma como uma pintura pode ser uma forma de teatro e vice-versa. Os quadros de Francis Bacon são uma forma de perceber a ideia do teatro da crueldade”. Sobre a relação da dança com a filosofia, Nicolas fala-nos da origem da mesma, na Grécia, onde houve sempre uma forte relação entre a filosofia como uma forma de teatro e a ideia de teoria. “No teatro grego o coro dançava. Esta ideia de que dentro da filosofia há uma espécie de teatro, um espaço onde algo é revelado, requer a existência de um ritmo. A dança torna-se numa metáfora para o movimento do corpo, que se articula com a linguagem e expressa a ideia de vitalidade, algo que a filosofia também deveria capturar”.

Já Fernando Matos de Oliveira falou dos usos do texto no teatro contemporâneo. “Partindo de um programa clássico de escrita e literatura dramática vamos focar nas práticas mais recentes das últimas duas décadas, que fazem uso do texto diferente e que transformam os processos de escrita. Vamos ilustrar com casos internacionais e nacionais, percorrendo alguns desses usos e aparições do texto que continua a ser um elemento muito importante na construção do sentido nas práticas de teatro contemporâneas, mas isso acontece de um modo diferente. Vamos observar em registo de antologia algumas dessas diferenças”. Sendo autor de ensaios sobre teatro, performance, narrativa e poesia afirma que estas áreas se cruzam com a dança, pois “mais que nunca eu diria que se prefigura uma dramaturgia da dança. É uma dramaturgia da inscrição do corpo na cena, da inscrição do corpo no espaço. Estes processos de inscrição dos objetos, dos textos, dos corpos no espaço é transversal às práticas de criação das artes performativas hoje. De modo que eu diria que nunca houve um diálogo tão fluído entre a dança, o teatro e a performance como existe hoje. Isso também tem que ver com esta relação e diálogo entre as artes que estavam contidas em barreiras formais até um certo tempo e hoje é muito mais fluído. A dança é seguramente uma área muito interessante para pensar e colocar os pés quando olhamos para criação contemporânea no domínio das artes performativas”.

Foi possível, também, participar em masterclasses conduzidas pela filósofa Willow Verkerk e pelo historiador de Cinema e programador Olivier Hadouchi.

Willow Verkerk, © Kingston University

Willow Verkerk, filósofa feminista e acérrima ativista, veio até Portugal para nos falar das diferentes formas de ser ético participativo, político ou polémico na arte nos tempos de hoje. “Não diria que os artistas expressam um conflito político. Alguns artistas sentem que os seus corpos não se enquadram na ordem dominante das coisas. Não encontram um sítio para o que representam, porque a arte revela uma supremacia do Homem branco e da homofobia. A intenção dos seus trabalhos artísticos é romper com a ordem normativa das coisas. Esse é o tipo de ação política, a forma como usam os seus corpos nas performances”. Relativamente à relação entre a dança e a filosofia, Willow revela que algumas coreografias são inspiradas por ideias fundamentais da filosofia como os problemas da mortalidade, amor, amizade e sofrimento. “Existem imensos assuntos que a dança mostra e que a filosofia fala”.

Olivier Hadouchi, © Andreia Monteiro

Olivier Hadouchi faz-nos um levantamento do que é, do que foi e do que poder ser o cinema como instrumento de intervenção. “Vou falar do cinema político e militante e sobre os anos 60 e 70 e o que eles nos trouxeram nesse tempo e que ainda é útil nos dias de hoje”. Olivier acredita que os filmes são usados como armas que nos levam à ação. “Naquele tempo o cinema estava ligado à economia em Moçambique, Angola e América Latina. Agora podemos ver que, por exemplo, algumas pessoas usam os filmes contra a Troika, as guerras no Iraque ou o sistema de globalização. É um outro tipo de ação, uma ação sem violência”. Em relação ao papel da dança na indústria cinematográfica Olivier afirma que é algo difícil de filmar por ser uma arte especial, pelo que muitas vezes tem de ser filmada como uma performance. “Há uma questão dos corpos e da performance da dança. É sempre interessante porque o cinema é imperfeito”.

O programa encerrou com um ensaio aberto da nova peça de Clara Andermatt, com colaboração de Mickaela Dantas, uma ex-aluna do Fórum, e Patrícia Portela.

O segundo momento de abertura ao público foi o projeto Cartografias #0, que promove o pensamento sobre a arte da dança na atualidade e a sua articulação com a filosofia, a ligação ao mundo natural e afirmação da componente política do movimento. Dora afirma ter sido desenhado para ser aberto ao público e mostrar o trabalho que tem sido feito. “Esta edição é muito sobre o trabalho que fizemos, que estamos a fazer e que vamos fazer no futuro. Vamos apresentar trabalhos de ex-alunos nossos. Depois em fevereiro vamos apresentar trabalhos dos artistas que convidamos para fazer as curadorias do curso. É um Cartografias #0, que é uma espécie de ponto de situação. Estes trabalhos foram desenvolvidos com a tutoria da Patrícia Portela, portanto foi num módulo lecionado por ela. Os artistas seguintes que vêm para o PACAP são a Sofia Dias e o Vítor Rodrigues. Eles vão desenhar a próxima edição do PACAP e também já trabalharam em cursos anteriores. No fundo o Cartografias #0 é uma vontade de nos abrirmos ao público, porque o Fórum Dança sempre fez um trabalho importante na área da dança contemporânea, mas muito pouco visível. De acordo com a nossa missão – a divulgação da dança contemporânea – decidimos abrir ao público”.

Ezequiel Santos, à esquerda, e Dora Carvalho em frente, Fórum Dança, © Guilherme Afonso

Com curadoria de Ezequiel Santos, Cartografias #0 envolveu criadores emergentes e de maior maturidade, alguns dos quais antigos alunos do Fórum Dança, num trabalho conjunto, dos quais destacamos dois momentos da apresentação: Dupla Ameaça de Daniel Pizamiglio e Inês Cartaxo e Légende de Romain Teulle.

Ezequiel Santos destaca que este primeiro ciclo é especial. “Vai manter a mesma contextualização experimental e é especial no sentido em que é uma representação em movimento do que tem acontecido no Fórum Dança a nível de formação. Os criadores aqui presentes falaram da presença no PEPCC e a razão pela qual estão incluídos no Cartografias é terem participado nessa experiência, dos objetos que eles apresentaram coincidirem com os objetivos que eu tenho para o Cartografias e o facto de eles terem trabalho com os curadores que vão estar de novo no formato de formação que é o PACAP. De facto, aquilo que eu pretendo no Cartografias é dar visibilidade a algo que está a acontecer, que se move no território da dança. Daí usar o termo Cartografias, que infelizmente está muito na moda cartografar ou usar cartografias na arte contemporânea, mas o propósito de pensarmos em Cartografia é mais voltar um pouco ao tempo dos Descobrimentos, quando os marinheiros iam para o mar e depois começavam a representar o território em mapas com os elefantes, os tigres e indígenas. É um bocadinho deixar-se revelar o território que existe e ainda está um pouco na invisibilidade. Porquê? Porque é um território que, quer seja protagonizado por nomes mais conhecidos ou por nomes mais experimentais emergentes, se pauta por uma grande curiosidade em relação ao pensamento e ao modo como ele se articula com o movimento humano. Um questionamento estético sobre a raiz do movimento e o seu sentido, a relação do corpo humano com os objetos e outros espaços para além do palco. É um trabalho que eu penso merecer ser visto e posto num circuito de ordem experimental, mas que possa captar algo deste sentido porque é uma fração da produção de dança que existe. Talvez exista com mais visibilidade em Portugal, porque nós não temos uma casa da dança como em França. É isso que eu quero trazer para o Cartografias, a dança que continua a sê-lo, mas incorporando outras novidades que é importante que sejam conhecidas.”

“É um trabalho que eu penso merecer ser visto e posto num circuito de ordem experimental, mas que possa captar algo deste sentido porque é uma fração da produção de dança que existe”
Ezequiel Santos

Os três ex-alunos do Fórum Dança falaram da sua experiência no curso PEPCC, que os levou a fazer parte da programação do Cartografias.

Daniel Pizamiglio revela que o curso foi uma descoberta do seu trabalho. “Estive a trabalhar com os meus colegas e a receber muitos estímulos dos vários coreógrafos que passaram pela formação. Eles me perguntavam qual era o meu corpo, este meu trabalho do corpo com a dança e esta foi a pergunta que me motivou e me conduziu durante todo o curso. Foi uma espécie de experiência de um ano e meio, mesmo com algumas faltas (risos), de um corpo entrar na dança, que neste caso é o meu, enquanto bailarino e coreógrafo. O curso também permite muito a colaboração, seja com 5 meses, ou uma colaboração com uma outra pessoa – um duo – ou em grupo. Neste sentido, há muitas dinâmicas que favorecem cada um desses modos de trabalho. Para mim, também, o curso foi ao encontro com diferentes ferramentas, coreógrafos, criadores, bailarinos. Como é estar dentro de um estúdio, como é construir um trabalho de dança diariamente. Como é a prática e a vida de um bailarino ou de um coreógrafo. O curso é muito bom, porque é muito pesquisa, muito experimentação, mas também tem muita criação de objetos e coreografias. Não sei como vai ser o PACAP, mas no nosso era muito uma rotina de aulas, experiência e produção, o colocar para fora e materializar o pensamento”.

Romain Teulle veio das Belas-Artes e destaca como momento mais importante os três meses de criação de solos. “Foi uma base muito importante para o trabalho que eu estou a fazer até hoje. Estava a fazer uma peça, que era a Elizabeth, acompanhado pela Patrícia Portela e a peça que vou apresentar no domingo também é uma prolongação dessa pesquisa. O que eu percebi é que eu já estava a fazer o que queria fazer, só tinha de organizar o pensamento e traduzir enquanto peça. Lá (em França) eu não tinha conseguido ter uma peça e no PEPCC consegui começar e acabar uma coisa e que isto seja um trabalho em si. O meu PEPCC também foi diferente. O vosso (do Daniel e da Inês) foi mais em dinâmica de grupo e o meu mais enquanto indivíduos, foi muito mais sobre a pessoa. Uma coisa também muito importante é o facto de considerar a dança e a performance na sua grande complexidade. Trabalhando com pessoas de vários setores. A multidisciplinaridade que não se encontra, enquanto francês, em França, onde há uma certa restrição. Há uma necessidade de definição das várias áreas. Aqui é um espaço onde não se põe tanto essa questão. Voltei a viver em França durante alguns meses e percebi que Portugal é muito mais aberto, sem ter constrangimentos relativamente à interdisciplinaridade. Em França dizem-te, “Falas? Porquê?”. Havia outro apeto no curso que era existir pessoas de diferentes nacionalidades, o que permitia um intercâmbio, uma troca de ferramentas, questões e modos de trabalho que não pensavas, à partida, quando entravas no curso e depois vamo-nos contaminando e apropriando. O nosso grupo teve muito isso. Uma empatia e colaboração. Há pessoas que se encontram no grupo e ainda hoje continuam a trabalhar. Isso é um ponto muito forte do curso, a multidisciplinaridade, mas também a multiculturalidade”.

Inês Cartaxo destaca o curso pelo formato consistente no que diz respeito ao encontro com vários artistas ou pessoas do meio em cursos académicos, o que normalmente não acontece. “Seja esse contacto com artistas, até mais ao nível de aulas técnicas, seja depois ao nível de proposições a nível de improvisação ou criação. O curso também estava estruturado de forma a haver sempre um momento em dupla, ou um trabalho a solo ou em coletivo. Nesse sentido havia sempre uma lógica de autonomia e da tua pesquisa e trabalho, mas sempre com algum acompanhamento. Claro que existe sempre um cruzamento com os colegas. No nosso ano sinto que havia uma dinâmica muito focada, às vezes, no grupo. Acho que o curso se pode expandir muito. Não entra na lógica de aprofundar uma coisa só, mas sim dar-te o máximo de ferramentas e propostas muito diferentes, às vezes contraditórias até, o que é normal. Simplesmente depois acho que tem de haver um trabalho pessoal de filtração e de acumulação ou decisão daquilo que depois te interessa trabalhar. Mas sobretudo acho que esta disponibilidade de entrares em propostas que te são familiares e agradáveis, que te interessam e não, também. Ou seja, entrares em propostas diferentes da tua forma de trabalhar”.

Quanto aos espetáculos que vão apresentar, Ezequiel diz que “podem esperar uma característica que existe na dança contemporânea que é o inesperado. O público não conhece o objeto que vai ver, tem uma ideia do que é a dança, mas o que vai ver em qualquer um destes casos não viu ainda. É novo, é inesperado. Tal como o Fernando Pessoa fazia ao criar aquelas associações inesperadas, o que eles fazem são associações inesperadas. Gosto muito disso, porque quando vejo associações inesperadas estou a ver o espírito humano em ação e são momentos de partilha e contacto fundamentais. Esta é a minha perspetiva como espetador, do que eu vi”.

Dupla Ameaça de Daniel Pizamiglio e Inês Cartaxo, © Fórum Dança

Na Dupla Ameaça de Daniel Pizamiglio e Inês Cartaxo, Daniel diz que abordam o fenómeno do encontro como um lugar de ameaça. “Uma ameaça sobre algo que pode acontecer no encontro com o outro, na relação com o outro. De uma certa forma estamos numa fronteira em que não sabemos o que pode acontecer no encontro. Estamos à volta de uma mesa e acho que a mesa é um lugar de fronteira e os nossos dois corpos estão a avançar sobre esta fronteira e há ali a ameaça de acontecer alguma coisa”. Inês revela que até pode não acontecer nada, tudo fica em aberto. “Sempre enquanto possibilidade, não é nenhuma resposta ou afirmação concreta perante alguma coisa. É sempre o levantar dessa potência que fala. Não quer responder a nada”.

Légende de Romain Teulle, © Fórum Dança

Em Légende de Romain Teulle, este pensa no público enquanto um espaço. “É um trabalho sobre linguagem e tradução. Uma questão sobre o que há entre uma tradução e de onde ela vem. Para mim este espaço existe no lado do público. Antes eu estava atraído por formas participativas, mas nunca quis tocar. A minha vontade é criar no público um esforço para ver a peça e seguir as questões que nascem ali e as suas próprias perguntas que vão surgindo ao ver esta proposta”.

De todo este ciclo ficam duas perguntas que se propuseram a encontrar resposta, mas sendo o debate contínuo apenas se foram chegando a algumas ideias. A primeira pergunta liga-se ao maior obstáculo que a dança contemporânea enfrenta nos dias de hoje. Dora diz que “há diferentes tipos de artistas com diferentes trabalhos e áreas, por isso, os perfis e lugares que ocupam são diferentes. Não acho que haja um, acho que os artistas têm vários lugares para ocupar e é importante termos acesso ao trabalho e pensamento que for produzido pelos artistas, como público, como profissionais e como pessoas. O artista deve estar num espaço onde possa ser visto”. Fernando Matos de Oliveira resume que “o obstáculo fundamental é aquele que se coloca à arte hoje. Tem a ver com uma sociedade dominada por lógicas de circulação e produção que não são coincidentes com uma arte da experimentação e da criação. Portanto, isso afeta a dança contemporânea, mas também o cinema contemporâneo. Tudo aquilo que é uma produção menos comprometida com aquilo que são as condições de produção dominantes tem dificuldade. Isso supõe que há projetos como este que conseguem preencher um espaço que está entre os artistas, criadores e investigadores e gerar, desde logo, condições para debate. Isso é muito importante. Esta dificuldade não é estritamente relacionada com a dança. Também tem a ver com as outras áreas que estão mais sozinhas nesta sociedade contemporânea. Este esforço que os criadores fazem para reestabelecer um diálogo possível com aquilo que é a nossa paisagem”. Já Nicolas de Warren aponta que “muita da nossa cultura está obcecada com a dança através da música popular e dos clubes noturnos. Isso pode ser também um problema. Uma tamanha proliferação da dança, tanto na cultura popular como na artística, pode levantar a questão de uma multiplicidade excessiva. Por outro lado, é uma arte que exige uma literacia, que quem não possui deixa de ficar interessando, porque não lhes diz nada”. Olivier concorda com este ponto e destaca a necessidade de existir uma educação para trazer uma nova audiência. Willow confessa que não conhece a realidade portuguesa, mas que no Canadá “ainda existem problemas com os diferentes tipos de corpos que são representados na dança. Existe um discurso de género e de tipologia de corpos na dança. Penso que a dança ainda tem o desafio de aceitar diferentes tipos de corpos”.

A última pergunta que fica de todo este ciclo prende-se com o lugar que o artista ocupa na nossa sociedade. Willow diz que um dos papéis dos artistas é o de desafiar os limites para ajudar o público a pensar de forma diferente aquilo que se é e se pode vir a ser. “Precisamos de alargar o número e variedade de pessoas que podem fazer arte”. Olivier diz que este lugar vai mudando com a evolução dos tempos, mas que “a arte não pertence apenas às galerias ou museus. Também pode estar em espaços abertos e nas áreas suburbanas da cidade. A arte é sempre uma resistência contra o extremo e o tempo. Desenvolve-se em condições difíceis e traz uma nova visão da sociedade”. Nicolas fala-nos da multiplicidade de sítios com instituições artísticas como as escolas, os teatros, mas também a internet que permite a existência de uma arte pública. “Existem tantos espaços para os artistas, quantos espaços existirem e o grande objetivo é desabitar esses sítios e criar novos dentro dos que já existem”. Fernando vê o artista como um ruído na engrenagem, que é fundamental. “É o gerador de dissenso, de resistência, de entropia e tudo isso é fundamental porque a sociedade avança a grande velocidade para além das vontades individuais de cada um de nós. Ela tem lógicas muito possessivas e potentes que esmagam completamente os indivíduos. O artista é aquele que coloca ruído neste mecanismo, que o faz parar e sobressaltar, que o desacelera de algum modo. Isso é muito importante, caso contrário vivemos automatizamos no nosso quotidiano pessoal, público, político entre outros”. Por fim, Ezequiel Santos diz que esta é uma questão que se liga com a filosofia da arte. “A importância do bailarino no momento presente é extraordinariamente marcante porque, e isto é dito por um teórico, a arte contemporânea é a dança. A dança tem qualidades como a efemeridade, o precisar de partituras, ter técnicas de corpo, ser intangível que são cobiçadas por outras áreas. A dança é uma área de inspiração e contaminação que tem acolhido outros artistas. Indo à raiz e pensar no que é ser um artista, no que é usar o pensamento e deixar que ele saia sob a forma de um objeto, a contemporaneidade é a dança. A dança é a arte do momento. Continua a ser imprescindível existirem festivais de dança, porque temos cada vez mais tendência a esquecermo-nos do corpo. Observo nas gerações mais novas que a relação com o corpo e tempo é diferente da minha e isso faz-me muita impressão. Se por um lado há uma relação objetiva do tempo com as novas tecnologias, que nos acelera e facilita a vida, por outro há um tempo que é esquecido que é o da subjetividade e dos processos humanos que requerem tempo de incubação, ponderação, avançar e recuar, aceitar o erro. E nós precisamos de saber estar ai, senão deixamos de ser pessoas. Isso é muito inquietante, porque nós não estamos ainda preparados para sermos uma sociedade de cyborgs. Não é por acaso que mesmo nas artes plásticas existe muita presença do corpo. A arte e a vida precisam mesmo desta sensação de trabalhar com o sensível e viver com a carne. Não há pensamento sem corpo, nem corpo sem pensamento”.

O debate da voz dos artistas, do seu papel e lugar na sociedade não se encerra neste ciclo. O Fórum Dança abriu as suas portas pela importância de mais pessoas debaterem este tema, o pensarem e se consciencializarem da importância das artes e, neste caso, da dança. Mais do que isolar esta arte, o Fórum Dança veio mostrar-nos como há uma multidisciplinaridade nas artes e áreas do conhecimento e a forma como todos se cruzam e revelam o mundo que nos rodeia.

Texto por Andreia Monteiro