Leitor, viver no coração da confusão ou na tranquilidade do campo? Eu diria que se deve experimentar esses dois universos para depois escolher um.

Hoje escrevo-te sobre o livro “A vida no campo”, do escritor açoriano Joel Neto que, após viver durante vinte anos na cidade, decidiu voltar para a Ilha Terceira. Serão, o campo e a cidade, realidades assim tão diferentes? Não. Sim.

A leitura divide-se em quatro estações: Outono, Inverno, Primavera e Verão. Em cada texto, está identificado o lugar em que ele foi escrito, assim como a sua data. Viajamos pelo Lugar dos dois caminhos, por Lisboa e até por Praga.

Sei que, muitas vezes, se torna difícil percebermos a beleza das coisas que vivem à nossa volta. Ou porque estão demasiado perto, ou porque nos concentramos no lado mais negro de tudo. Há muita gente a viver no campo que imagina como será viver na cidade. E há muita gente da cidade que só quer encontrar o campo. Seja no continente ou nas ilhas, as palavras deste livro são reais e desviam-nos o olhar para o que realmente importa.

Nasci nos Açores. Inevitavelmente, lembrei-me dos dias em que acordava de madrugada para pescar com o meu avô em Rabo de Peixe, lembro-me de sentir aquele morder pela primeira vez e de puxar a cana com força, de olhar a paisagem verde pelos vidros da carrinha, de fumar o tabaco dos Açores, de beber a laranjada, de comer pão como se o mundo fosse acabar em minutos, de rir com as pessoas felizes.

“Esta semana, o meu vizinho Rogério, que é continental, descreveu-me assim os Açores: «Um lugar onde nunca se chega e de onde nunca se parte.» Quem me dera ter sido eu a escrevê-lo.”, pág.99.

Será que todos os criativos ambicionam, mais dia, menos dia, morar no campo? Alguns. É uma procura incansável pela paz que não encontram noutros sítios. No entanto, o campo tem as suas características próprias. É fundamental percebermos se vamos para o campo com o propósito de viver ou de morrer, de fugir de alguma coisa ou de encontrar outras.

“O campo também pode ser uma chinfrineira. E tem invejas. E tem mesquinhezes. E castigações, e ignorâncias atávicas, e convenções tontas. O que quer que haja na cidade, também há no campo, porque se pode fugir de tudo menos do Homem. Até no alto de uma montanha, sozinhos, ou mesmo no fundo do mar- até aí ele continuará dentro de nós.”

Nos lugares mais bonitos que já visitei, dei por mim a dizer ou a pensar que aqueles eram sítios pouco pisados pelo Homem. A cidade está repleta de alterações, de constantes aperfeiçoamentos, de corridas contra o tempo. O campo é diferente, é aquilo, que é tudo, e mais nada.

Ora, os livros também são lugares incríveis. Nestas páginas, encontrei a verdade, encontrei uma homenagem bonita à gente da cidade e à gente do campo, pessoas que não são piores nem melhores, mas que vivem de formas distintas. A realidade, quando não é tão feia assim, surpreende-nos muito e, de vez em quando, sabe bem.

«Quem falava das estrelas era o meu avô. Punha-se no jardim, a dobrar o lenço-da-mão, e fazia o seu ar pesaroso. Falava-me da Cassiopeia, das Ursas, de Andrómeda. Eu só gostava do Sete-Estrelo. Ele perguntava: “E aquela?” E eu: “Dragão”. “E aquela?” “Girafa.” De três em três, voltava ao início, com um risinho: “E aquela?” E eu: “O Sete-Estrelo!” – e prolongava a sílaba, com o meu ar suplicante.

Ainda hoje não há noite em que saia à rua e não procure o Sete-Estrelo. Em Lisboa era difícil ver as estrelas. Eu vinha à varanda com o gin na mão, para impressionar as raparigas, e não encontrava uma que fosse. Creio que foi aí que comecei a dividir as terras entre aquelas onde se pode ver as estrelas e aquelas onde não se pode.»