A poucas semanas de terminar mais um ano letivo, Lisboa recebeu a 19ª edição do Festival Anual de Teatro Académico de Lisboa (FATAL). Vindos de vários pontos do país, os jovens atores instalam-se na cidade, dedicam a maior parte do tempo aos ensaios, e aguardam a melhor sorte para o cerimónia da entrega de prémios.

“Isto é gratuito para toda a gente?” dizia alguém do público alguns minutos antes de começar “Não Khalo”, do grupo de teatro D. Mona, uma das peças incluídas na programação “Mais Fatal”. É verdade, sim, todas as peças do FATAL, que este ano aconteceu entre 10 e 19 de maio, são de entrada livre. Não fosse esta uma iniciativa feita de alunos para alunos que, de acordo com o Reitor da Universidade de Lisboa, António Cruz Serra, “promove e divulga o teatro universitário português enquanto espaço de formação, desenvolvimento pessoal, cultural e artístico.”. Independentemente do curso – vemos a participar neste Festival a Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova de Lisboa, a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, a Faculdade de Psicologia, entre outras – existe, em Portugal, uma certa tradição académica dos grupos de teatro como atividade paralela aos estudos. O exemplo mais ilustrativo disso mesmo será o Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC), considerado o Grupo de Teatro Académico em atividade contínua mais antigo da Europa. Também estivemos à conversa com eles, mas já lá vamos, mais à frente.

“Once upon a time”, dito com voz de narrador de contos de encantar, assim foi feita a introdução do espectáculo que nos trazia como protagonista esse vulto das artes que é Frida Khalo, sobre quem já tudo, ou quase tudo, foi dito – desde filmes, a livros e exposições. O que, só por si, já nos deixa com vontade de conhecer a história que a peça nos traz.

Sempre com um espelho na mão, a peça desenrola-se em torno da questão da identidade, do existencialismo “A questão é saber quem sou”. Mas sem assumir uma carga excessivamente pesada, um tom excessivamente cinzento, contrabalançando com alguns elementos cómicos como a insistência no bigode de Frida. Diego, o grande amor da pintora, a sua perna doente, as suas debilidades físicas, são os grandes assuntos dos vários diálogos. Fala-se, sobretudo, daquilo que é viver num corpo que aprisiona uma alma que busca sempre por mais.

Logo no início é feita uma referência ao episódio histórico das Rosas de D. Isabel. “São rosas, Senhor”, mas é Frida que o diz. O chão, escuro, podemos vê-lo coberto de pétalas de rosas vermelhas. E ainda haveria tempo para se falar de Ophelia, Blimunda e Inês de Castro. Frida é só mais outra – mulher -, mas ao mesmo tempo única. “Sou pintora, pinto-me a mim mesma porque eu sou o tema que melhor conheço.”, confessa-nos.

Ao longo da peça, Frida fala em castelhano, outra das personagens em francês, e outra ainda em inglês. Algo confuso, um tanto desconcertante até. Como uma das cenas em que uma luz muito forte encadeia e perturba toda a assistência.

“Não Khalo” porque “não quero saber das definições da arte” e “a minha pátria é a revolta”. É uma peça em que também se critica o mundo da arte, a despreocupação de quem só quer vender quadros sem olhar ao artista. É um misto entre delírio e estado de consciência. É feminista. Critica os homens e afirma sem pudor que “a Humanidade é a Mulher”. No final, Frida morre, é certo, mas a sua arte viverá para sempre, pois “na arte não existe despertar porque nela sonhamos e não dormimos”.

No final, acesas todas as luzes, as atrizes dirigem algumas palavras de agradecimento ao público sem o qual, dizem, a “cultura não existe”. Cá fora, à saída da Cantina Velha, entre um grupo de jovens estão também alguns professores. “O que é que achou da peça, senhor professor?”, ouve-se.

Um dos muitos aspetos que carateriza o FATAL é a variedade de palcos que a programação oferece. E o auditório da cantina da Cidade Universitária, também conhecido por “Cantina Velha”, foi apenas um deles. A Biblioteca de Marvila, o Auditório Carlos Paredes, e o Teatro Thalia foram outros. Foi, aliás, neste último, que fica nas Laranjeiras, que vimos “Horácio”, uma peça do grupo de teatro da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova de Lisboa, inspirada numa obra clássica. Em cena num auditório – arriscamos dizer – quase único na cidade, um anfiteatro de pedra, a lembrar um monumento histórico, “Horácio” começa por ser discutido à mesa, com um tabuleiro de jogo, e termina com uma coreografia desse jogo no “terreno”, acompanhado por uma projeção animada. O cenário, o guarda-roupa, e os adereços simples – camisas brancas, mesas de sala de aula, cadeiras e espadas de cartão – vão contrastando com a vontade de ousar na interpretação, o que a ver pelas gargalhadas do público, e assumindo a pretensão de fazer rir, foi conseguido com sucesso. “Não se esqueçam de dar a vossa pontuação!” pede-nos uma das atrizes, convidando-nos de seguida para nos juntarmos à sessão de conversa com o público.

No penúltimo dia do Festival, no auditório Carlos Paredes, em Benfica, conseguimos que, num dos intervalos dos ensaios da peça “A arquitetura dos Pássaros”, o TEUC falasse um bocadinho connosco sobre a peça que iam apresentar. Rita Morais, a encenadora, começa por contextualizar-nos dizendo que se trata, antes de mais, do exercício final do curso de formação do TEUC. “São, ao todo, 15 formandos que estão a trabalhar ao longo de um ano para serem atores, e trabalham durante esse ano em workshops de curta duração e depois comigo durante 2 meses para a apresentação desta criação artística que pretende colocar em prática as ferramentas adquiridas. É dar, no fundo, aquilo a que chamo o passo da criação, que é pensarem naquilo que querem como intérpretes.”. Este ano, o desafio foi o de trabalhar sobre o tema “Casas”, o mesmo da semana cultural de Coimbra. O ponto de partida, esse, foi “começar, de uma forma muito democrática, por discutir o conceito de ‘casa’ e partilhar as várias perspetivas. Foi tentar perceber quando é que nos sentimos em casa fora de casa e o contrário, ou o que é que a sociedade espera de nós para pertencermos a esta grande casa que é o mundo.”. No TEUC nem todos os elementos do grupo são estudantes universitários, se bem que a maioria já frequentou a Universidade. É o caso de David Coelho, um dos atores, ex-aluno da Universidade de Coimbra, que nos explica como é que funciona o processo de selecção para aquele grupo, que ocorre em meados de outubro. Tudo começa com uma audição a partir da qual, no caso de serem escolhidos, se chega a uma entrevista presencial. “Na audição estavam dezenas de pessoas, mas a maioria provavelmente fugiu quando soube a carga horária do curso, que exige uma grande entrega e disponibilidade. Nós chegámos a ensaiar 20 horas semanais, 4 horas todos os dias, em horário pós-laboral.”, recorda. Ao longo do curso, – que conta com o apoio financeiro da Universidade de Coimbra, com o apoio do FATAL durante a estadia em Lisboa, e ainda com a ajuda de várias companhia de teatro – os alunos têm a oportunidade de aprender várias técnicas, com destaque para a improvisação e a colocação de voz. “Para mim, que sou bio-químico, uma das mais-valias de fazer parte disto é poder treinar a voz porque a área que pretendo seguir é a comunicação de ciência, e fazendo teatro sei que ganho valências ímpares, portanto ao nível da oralidade é extremamente enriquecedor.” aponta David.

Na mesma sala, mas no dia seguinte, o último do festival, vindos mais do norte, o grupo de teatro da Universidade do Porto apresentou “Três Tristes Tigres”. Ao entrarmos na sala, logo os primeiros, percebemos que o espectáculo já começou . Os atores já andam em palco, num cenário feito de paredes de papel. Aquilo que vamos vendo, no fundo, é um exercício de expressão dramática, em que a peça se vai construindo no momento, in loco. As personagens, três amigos, desdobram-se e permitem-se experimentar outras tantas, desde lutadores de Karaté até animais, – os tigres do título –  experimentando o domínio sobre o próprio corpo. “O que é que vos chama a atenção nas pessoas? A forma como olham o mundo? Sim, acho que o olhar é a chave.” atira, a certo momento, a personagem feminina. “Mas o que são as pessoas?”, desconstrói um dos rapazes, “O que é estar vivo enquanto se está morto? O que é estar morto enquanto se está vivo? O que é isto?”,  é o grito que dá o mote para a destruição de todo o cenário.

Muitos espetáculos depois, no dia 26 de maio, aconteceu a cerimónia de entrega de prémios na Reitoria da Universidade de Lisboa. Este ano, o vencedor na categoria de “Melhor Espetáculo” foi “Os Sapatos”, do Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra (CITAC), e “Horácio”, do Novo Núcleo de Teatro, para “Espetáculo Mais Inovador”. Houve também direito a duas menções honrosas, que foram para “O Casaco” e “Espectros”. Por último, o tão aguardado Prémio do Público, cuja escolha foi também “Espectros”.

Fotografias: Guilherme Afonso.