:Papercutz é uma banda formada por Bruno Miguel na cidade do Porto. Confere abaixo as suas 10 sugestões nesta Mescla da Semana. Ouve ainda aqui o single “Trust/Surrender” dos :Papercutz para uma excelente dose de pop electrónico a antecipar o lançamento do novo álbum, “King Ruiner”, que sai este ano.

Mesclado por :Papercutz

Carlos Maria Trindade e Nuno Canavarro – “Blu Terra”

O convite para seleccionar 10 canções nacionais acaba por acontecer num altura em que tenho ouvido vários artistas Portugueses e por dois motivos, daí que esta lista inclua um passado e um presente. A primeira escolha, é um tema de uma obra que redescobri ao pesquisar artistas inseridos no conceito de “Fourth World”. Termo criado por Jon Hassell, um instrumentista e compositor, que descreve a sonoridade como música folk de um lugar imaginado. “Blu Terra” é um dos temas mais bem conseguidos desta edição por dois compositores de referência da música instrumental, e que melhor ilustra o género, numa fase em que músicos de várias partes do mundo partilhavam de um mesmo imaginário.

Nuno Canavarro – “Antica/Burun”

Descobri Canavarro através de uma loja de discos do Porto, a Matéria Prima, sobretudo pelo contacto que tive com o o dono, Paulo Vinhas. Uma pessoa de um enorme conhecimento musical e cujos concertos que produziu no Porto ainda hoje ressoam em mim. Muitos artistas que trabalham o formato canção procuram inspiração em géneros mais alternativos ou mesmo experimentais. “Plux Quba” de onde o tema é retirado, teve influência na escrita do meu primeiro álbum “Lylac”, pelas texturas e melodias naïf. Muito já foi escrito sobre este álbum logo sugiro uma audição e leitura alargada.

Nuno Rebelo – “Vê-se Das Nuvens”

Outro belo exemplo do género mencionado, retirado de “Sagração Do Mês De Maio” dos anos 80, é uma homenagem interessante do fundador dos Mler Ife Dada a personagens musicais do mundo oriental, com o qual Portugal partilha uma história em conjunto, como (o grande) Ryuichi Sakamoto e os Yellow Magic Orchestra.

José Afonso – “Galinhas do Mato”

O próprio Zeca Afonso lança em 1985 um álbum onde explora as suas influências externas à musica Portuguesa mas com pontos em comum, sendo este um outro bom exemplo de “Fourth World”.

Carlos Zíngaro – “Shakuachi”

Outro tributo a música de geografia oriental mas com mãos nacionais, é este tema do compositor Carlos Zíngaro (compositor, professor e um dos fundadores do colectivo Plexus) gravado sob o manto acústico do Mosteiro Jerónimos, que acaba por ser um elemento participante na audição. Um tema despido e criado à volta da tessitura de um violino.

Bernardo Sassetti – “Da Noite – Ao Silêncio”

Sasseti desapareceu cedo demais. Todos desaparecemos, certo, e alguns deixam obra que os mantém vivos na memória de outros mas falamos de um de um dos maiores vultos da música nacional cujo catálogo peca por não incluir todo o seu potencial como compositor e interprete. Poderia enunciar vários temas mas escolho este de “Ascent”, um álbum pensado como uma futura trilogia sobre a imagem (talvez inspirado na noção de tríptico ) interpretado pelo seu trio e que tive a felicidade de ver ao vivo na Casa Da Música. além de uma exposição do trabalho de fotografia que acompanhava a edição. Era um artista de uma visão completa.

Vários Portugal Raízes Musicais – “Quadrilha”

Compilação que pretende registar as várias faces do cancioneiro tradicional e rural Português. Torna-se fascinante perceber como pessoas sem qualquer formação musical, apenas condicionados pela sua cultura e raízes dominam por vezes registos complexos e poli-rítmicos, tal como podemos ouvir em gravações semelhantes de várias partes do mundo, sobretudo origens como a Africana.

IVVVO – “Raised”

Esta é a parte em que introduzo novos valores. Começo pelo Ivo Pacheco com quem já colaborei numa remistura, porque representa para mim uma altura recente no Porto em surgiram vários artistas que praticavam uma eletrónica suja e negra e que se enquadrava perfeitamente na ambiência gótica da cidade. Infelizmente muitos acabaram por sair para fora do País e tal ‘marca’ musical nunca se realizou na sua plenitude.

DJ Nigga Fox – LUMI AQUI

Parte de uma corrente de artistas da editora Príncipe, que aproxima uma música de dança produzida nos vários bairros periféricos de Lisboa às suas ex-colónias. Nigga Fox é um dos melhores exemplos, sobretudo na exploração de ritmos complexos e melodias mínimas  não muito distantes da riqueza já mencionada em registos tradicionais mas trazidos para o mundo urbano e noites vividas em clubes.

Octa Push – Bárbara

Projecto dos irmãos Leo e Bruno, é o resultado de uma mescla de linguagem africanas com portuguesa, um som de um mundo globalizado em contexto electrónico e mostra o caminho de uma nacionalidade aberta à sua história. Já partilhamos um palco uma vez em Londres e vamos o fazer novamente no festival Lisb-on, numa iniciativa da Red Bull que promove que vários ex-participantes da sua academia de música possam recriar em conjunto, algum do seu trabalho.

Fotografia de Maria Louceiro