E se vos dissesse que no passado os povos do Sul da Península Ibérica partilharam a mesma escrita, vocês acreditariam? Estive à conversa com Pedro Barros, arqueólogo na Direcção-Geral do Património Cultural e um dos investigadores do projecto ESTELA, que nos contou tudo sobre estas “pedras com letras que não se dão conta de ler”.

És investigador e arqueólogo. A escrita do Sudoeste foi um tema selecionado por ti?

No âmbito de uma escavação do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa, na necrópole do Monte Novo do Castelinho (Almodôvar), eu e o meu colega Samuel Melro, enquanto escavávamos, encontrámos uma grande pedra que ao virarmos descobrimos que era uma estela com escrita do Sudoeste. O mais engraçado é que este achado arqueológico com 2500 anos de existência, em menos de mil anos, cumpriu três funções: foi estela (bloco de pedra que era fixado no solo), foi soleira de porta, e por fim, tampa de sepultura de época romana.

Passado um ano ou dois, fizemos um levantamento sobre a Ribeira de Oeiras onde existem muitos sítios arqueológicos do período da Idade do Ferro, e pessoalmente a minha ligação a esta época vinha da minha relação com a vila de Mértola. Este acumular de situações levou-nos a abraçar o desafio de sistematizar a informação sobre a escrita do sudoeste e a criar o projecto ESTELA no ano de 2008.

No âmbito deste trabalho tivemos sorte de colaborar com instituições que sempre quiseram, tal como nós, divulgar o conhecimento científico produzido e realizar exposições. Por isso no ano do início da investigação, a Câmara Municipal de Almodôvar criou o Museu da Escrita do Sudoeste, que apesar da sua dimensão tem muito sucesso pela especialização a um tema muito particular. É um museu muito sentido pela gente dali.

O projecto ESTELA já criou e apoiou diversas exposições. Gostarias de destacar algumas?

Sim, por exemplo, tivemos o apoio da Câmara Municipal de Almodôvar no sentido de dar uma componente de investigação ligada ao Museu da Escrita do Sudoeste. Dessa sinergia, nasceu a exposição Vida e Morte na Idade do Ferro, que é o resultado dos primeiros anos de investigação no concelho de Almodôvar e que ainda hoje pode ser visitada. Este corpo de investigação e sistematização também despertou o interesse da Câmara Municipal de Loulé, uma vez que na zona do Vale do Vascão, que liga Almodôvar (Alentejo) ao Ameixial (Algarve), encontramos várias necrópoles de um lado e povoados do outro. Nessa circunstância, desafiámos a Câmara Municipal de Loulé a realizar algo que interligasse a Serra, uma identidade própria, que não é nem do Alentejo, nem do Algarve.

Mais uma vez, como sistematização dos resultados de investigação, em 2013, lançámos o repto de fazer uma exposição de rua itinerante, para trazer o museu para a rua. E conseguimos o apoio para levar a exposição Quem nos escreve desde a Serra aos locais onde apareceram as estelas com escrita do Sudoeste: Salir, Penina e Ameixial. Entretanto, enriquecida por uma instalação contemporânea de Ângela Menezes, já visitou a Quarteira, Lisboa, Silves, Parises (São Brás de Alportel) e vai continuar o seu périplo.

Houve ainda uma outra exposição em 2015: Escrita do Sudoeste: Revelação, impressão e relação, da responsabilidade do artista plástico Miguel Cheta que orientou um grupo de alunos da Escola Secundária de Loulé. E pode hoje ser vista espalhada pelas aldeias do Ameixial uma instalação artística de Sara Navarro realizada a partir da escrita do Sudoeste.

Este tema é consensual entre os investigadores?

Tudo o que é misterioso, há sempre pessoas a criarem teorias! É como a Atlântida! Na década de 80, a escrita do Sudoeste foi lida a partir da língua do Turquistão ou do Basco, só porque encontraram algumas semelhanças.

Esta escrita do Sudoeste vem influenciada pelo mar, pois deriva do alfabeto fenício, apesar de estar mais reflectida no interior onde se encontram as estelas. Há várias teorias, uma delas é que as elites do interior queriam afirmar-se através de algo prestigiante como a escrita.

Pela organização que vemos, há no final certos termos que se repetem, como temos algumas lápides que dizem “aqui jaz”. Pela lógica em época romana, isto poderia corresponder a uma forma final e funerária. No início dos textos há também quem defenda existirem algumas terminologias que podem corresponder a antropónimos, a nomes.

Eu e o Samuel Melro acreditamos que não tem um fim exclusivo ligado ao mundo funerário, está também muito ligado ao território e à marcação de espaços, porque também se encontram estelas sem estarem associadas a necrópoles, na tradição do que se passa durante a Idade do Bronze.

Há dois prismas na investigação em torno da escrita do Sudoeste, um dedicado à linguística, foi praticamente toda a identificação e investigação desta escrita que de seguida foi complementada na década de 70 do século XX com a relação sobre o produto final, quem escreveu o produto, a associação das estelas aos sítios arqueológicos e a toda a compreensão da sociedade. Eu e o Samuel temos incidido nesta lógica de conhecermos melhor quem nos escreve desde a Serra, ou seja, as pessoas, a sociedade, o pacote cultural onde esta escrita se insere. Além da vertente social de que falamos com as exposições, onde um dos nossos objectivos sempre foi agarrar no valor deste património e dá-lo às pessoas.

Acreditas que a cultura ainda é de elites?

O espaço cultural dos museus apesar de muito mais democratizado, ainda é de elites. Digo isto e coloco a questão: quantos habitantes da Serra foram ao Museu de Loulé ou ao Museu de Almodôvar? A baixa participação não quer dizer que as pessoas não tenham uma identidade ou uma cultura. Pois, precisamente no Ameixial tivemos uma pessoa antes da exposição Quem nos escreve desde a Serra a ler para si em voz alta os painéis de “fio a pavio”, todos os pormenores, incluindo as legendas! Ele leu tudo! E eu pensei: pronto, já valeu a pena a exposição ter cá vindo!

Por isso, é que apostamos em levar o museu para o território através de uma exposição de rua itinerante ou de intervenções artísticas, é a melhor forma de promover a democratização da cultura, acaba por ser uma atitude política da nossa parte.

Mais de 40 mil pessoas entraram no Museu Nacional de Arqueologia em Lisboa no período em que tivemos a exposição Quem nos escreve desde a Serra, mas foram muitas mais que viram a exposição porque estava fora de portas, disponível à segunda-feira quando o museu estava fechado, ou porque podia ser visitada 24 horas por dia e ninguém precisava de pagar bilhete.

A cultura devia ser mais acarinhada, no geral. Muitas das iniciativas de foro cultural não são muito reconhecidas, facilmente são mais reconhecidas por terceiros do que por pessoas do meio. As pessoas que promovem e batalham por estas iniciativas ficam satisfeitos por um bocadinho, com o retorno de alguém que leu até as legendas, ou de alguém que te escreve desde do Canadá e que tem uma linha afectiva com uma estela que o pai tinha em sua casa e só vendeu num mau ano agrícola. São momentos que te dão um retorno emocional.

Cresceste a fotografar e a laurear a pevide. Como é que esses dois aspectos influenciaram o teu olhar sobre o mundo?

Tenho três aspectos da fotografia na minha pessoa: cresci com a fotografia porque o meu pai é fotógrafo profissional. O que eu sou também devo muito ao aporte cultural e familiar que esses olhares me trouxeram, nomeadamente as viagens, o saltitar de terra em terra, a forma como vês o mundo, a contemplação e a espera que é necessária para estar lá naquele instante, seja a nuvem certa, a luz certa, o melhor enquadramento. Quando cresces com isto, acaba por ser a lógica do “filho sapateiro, sapateiro o é”.

Tenho ainda outra componente da fotografia ligada à arqueologia, nesta última estudo produtos culturais produzidos pelo homem, mas não tenho lá as pessoas. Com a fotografia que mais gosto de fazer, existe um carácter muito antropológico, há uma relação de diálogo com as pessoas, as que produzem a cultura material que depois estudo em arqueologia, essas pessoas são algo que na arqueologia já não tenho.

Outro aspecto muito interessante, é que consigo contar muito mais facilmente uma história por imagens do que por escrito, apesar de ser uma obrigação enquanto cientista para sistematizar e apresentar a investigação realizada.

As viagens turísticas que realizei à Síria, Jordânia e ao Egipto acabaram por resultar em exposições em Lisboa, ou aqui no Algarve, sobre as amêndoas da Páscoa: Algarve Doce, ou sobre a cortiça, porque tirei uma fotografia a um tirador de cortiça abraçado à árvore, quase uma simbiose. Essa foi uma das 10 fotografias que seleccionei para uma exposição no núcleo da cortiça em São Brás de Alportel, mas houve outra que me marcou. Fui conhecer um senhor que fazia rolhas à mão em Silves e passei uma tarde com ele. Passados 10 anos, porque a neta partilhou nas redes sociais uma fotografia que eu tinha tirado ao seu avô, tive conhecimento de que o senhor tinha falecido. Pelo que ela me contou, aquela era a fotografia de que ele mais gostava e a única que tinha na sua mesa-de-cabeceira.

Entrevista por Sara Fernandes, a nossa Autoridade Local no Algarve

A Autoridade Local é uma rubrica da Revista Gerador onde vamos à procura daquilo que de melhor se faz na cultura portuguesa. Mas quem somos nós para o dizer? Pedimos, por isso, ajuda àqueles que sabem mesmo da região onde vivem.

Ilustração de Ricardo Ladeira Carvalho