– A Má Hora aparecia aí à meia-noite. Era um homem muito alto muito alto muito alto! Eu nunca o vi, mas o meu homem sim, uma vez, durante a noite, ia ele com as vacas para a Covilhã. Não estava ninguém na rua, só ele e uma senhora, que estava a regar e que lhe pediu, cheia de medo, para esperar por ela e irem os dois embora juntos. E lá ia a Má Hora, estrada abaixo com um ferro grande na mão. Não havia de meter medo?

Atira Ti Teresa a todos aqueles que se encontram sentados numa mesa ao seu redor. Antes sequer de alguém ter tempo de acrescentar alguma coisa à pergunta que, já de si, não pedia grande resposta, de imediato surge uma pequena correção da mana, Ti Beatriz, que isto de “quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto” não é para ali chamado, não importa o tempo das histórias, ou que estejam guardadas na memória de quem já viveu uma boas 9 décadas:

–  Era estrada acima! Não era?

–  Mas quem é que sabe melhor? Tu não sabes! Ela ia estrada abaixo.

E chateiam-se mesmo, as manas, nessa bulha, ateimando uma com a outra, como se quem as ouvisse ali estivesse pelo rigor dos factos e não apenas pelo convívio com as duas. Como Teresa e Beatriz, existem outras contadoras de histórias no Paul, uma pequena aldeia perto da Covilhã, no distrito de Castelo Branco, lá perto daquela que no inverno se torna na serra mais branca de Portugal. O conhecimento que estas mulheres têm de um sem-número de histórias, autêntico património cultural daquele lugar do Interior, dava bem para estarmos a ouvi-las muito mais que 20 minutos; mas estando incluídas no percurso da Ilustrada que estou a fazer, “Mitos Rurais – Do Lobisomem à bruxa”, é mais ou menos esse o tempo que posso ouvi-las porque a seguir, noutro sítio, irei encontrar outras memórias partilhadas. Foi o Aqui Há beira – uma nova App que funciona como um divulgador de experiências culturais como esta na região da Beira Interior -, ou melhor, as pessoas que a criaram, que tiveram a ideia de fazer daquelas senhoras as novas embaixadoras daquela terra. Pergunto-me, a propósito, se elas imaginam sequer que estão a fazer parte de algo que pode ser tão abrangente como, se tudo correr bem, e se se tornar acessível a quem viaje pelo interior do país, e assim por alto, chegar a uns milhares de pessoas. Não, elas não fazem ideia disso, por isso avisam logo no início da conversa que nem têm nada preparado – quando o têm desde sempre.

Estou no Café da Ti Glória, um dos vários “cafés centrais” do Paul, explicam-me, num cimo da aldeia que é o largo da Igreja. O início do percurso estava marcado para as 17h. Pelas 16:20, num ambiente calmo de sábado à tarde, o grande acontecimento de momento reunia os homens da terra à frente de um écran. Dava então um dos jogos decisivos do Mundial, o França-Argentina, com Messi já a perder. “Se logo nos correr bem vão ver que o Padre até interrompe a missa para verem o jogo”, falava-se a respeito do jogo de Portugal, marcado para mais tarde, às 19h. Mas também é dia de romaria no Paul, e fora do Café Central, as pessoas que vejo na rua muitas delas estão ocupadas a decorar as ruas com adornos coloridos para receber mais tarde a procissão. “Só dizem agora que hoje há isso das histórias? Gostava muito de ir, mas hoje não tenho vagar!” responde uma senhora quando convidada a aparecer no percurso.

No centro da aldeia, numa casa muito velha – contam-me que já vem do séc XVI e que pertenceu à família do fundador do Jornal do Fundão, em tempos uma importante referência na região – Dona Céu, que “é Ti Céu, aqui chamamos as senhoras assim”, Ti Céu, fala pela primeira vez para a televisão. Numa sala a fazer lembrar um cenário de filme, com retratos que apostava serem, não de inícios do séculos passado, mas ainda do anterior, com loiças e mobílias cheias de pó, o jornalista que a entrevista pede-lhe que “resuma” a sua história. O que acaba por ser o mesmo que pedir-lhe que troque as palavras que usa há anos para partilhar o seu testemunho… Para que, enfim, aquilo resulte bem em televisão. E Ti Céu, não muito satisfeita com o pedido, lá insiste que a história é assim como conta e que encurtá-la é como comprometer a veracidade daquilo que conta, que, assegura, “aconteceu mesmo”. Por isso, ouvi-a toda.

–  A minha mãe, uma mulher de espírito muito forte, certo dia teve uma discussão feia com uma mulher no chafariz quando ia buscar água. Bem, ela pensava que tinha ficado por ali, mas não. O meu irmão, que era pequeno, começou a ficar muito doente e a minha mãe já sem saber o que fazer foi com ele à benta (uma espécie de bruxa boa, “que benziam, diziam umas rezas”), que lá lhe explicou que aquela mulher como não lhe tinha conseguido fazer mal por ela ter um espírito muito forte, fê-lo ao meu irmão, uma criança. Elas até eram amigas antes dessa confusão toda, e ela explicou-lhe que não tinha sido intencionado, era apenas ressentimento que tinha ficado guardado na altura. Então ela começou a aquecer umas ervas num púcaro, despejou tudo num alguidar, fez umas rezas, e ao mesmo tempo que as fazia a água era toda absorvida e o menino curava-se. Foi de repente! Tinha 8 anos, mas lembro-me muito bem. A benta termina e ele levanta-se de repente e começa a pedir a mama, começa a pedir de comer.

Ainda com tempo livre, começo a andar pelas ruas do Paul e a afastar-me daquele centro que me deram a conhecer. A estranhar-me, com ar de quem sabe muito bem que não sou dali, está uma uma senhora à porta de sua casa. Passo e dou as boas tardes; acredito que fazê-lo é o mínimo de boa-educação, uma vez que estando num meio tão pequeno é natural que as pessoas estejam habituadas a essa “proximidade”. E foi como se ela realmente estivesse à espera que partisse de mim esse cumprimento. “Boa tarde, menina. Estava aqui a olhar para si e a pensar se devia ou não levar o chepéu de chuva. Acho que está com cara disso.”. Bem dito, bem certo. Às 17h em ponto, hora de início do percurso, com as histórias das manas Teresa e Beatriz, começa uma chuvada. Estamos no final de junho, mas chove como se tivéssemos em Janeiro.

– Antigamente havia cá lobisomens, sim! Uns diziam que eles eram metade homem, metade burro. Outros, que era metade homem, metade cavalo. Mas eu nunca os vi. É como as bruxas, nunca as vi, mas a essas senti, isso senti. Mas também devo dizer que nunca tive medo delas! Havia uma mulher, mas que não era bem bruxa, coitada, ela fazia mal com os olhos sem querer… Uma vez, estávamos a cozer bolos, e ela aparece. Logo a seguir abrimos o forno e aquele que tinhamos acabado de pôr à entrada aparece-nos lá ao cabo (ao fundo) sem ninguém lhe mexer!

As palavras que utilizam, algumas já pouco vulgares na língua corrente, o dramatismo nos gestos e na entoação da voz, toda a expressividade, levam a que se comente, entre a assistência, enquanto nos despedimos, que podia estar ali, há muitos anos, talento para um percurso artístico, para os palcos do teatro. Ti Prazeres, de 85 anos, outra das contadoras de histórias, encontramo-la junto a sua casa, a uns passos da Igreja. 

– Que histórias querem que vos conte? Já disse que para uma graça uma vez basta! Toda a gente diz que as velhas têm a fama de serem bruxas… Eu cá já sou velha mas bruxa não sou! Uma vez, um homem tentava matar uma galinha e diz-se que a galinha começou a falar com ele e a dizer ‘ó malandro, então tu queres matar-me?’, o homem, todo assustado, só diz ‘Eu já não quero nada! Vai com Deus!’ e ela diz-lhe “Deus? Manda-me antes com o outro!, e ele ‘Com o Diabo?’ Vai mas é para o Diabo!’. Ao outro dia, uma senhora na aldeia aparece com o braço ao peito. E toda a gente ligava os dois acontecimentos, mas ainda hoje não se sabe o que é que aconteceu.

Lá no Paul, o tempo parece não ter relógio, mas também corre. E quando damos por isso já eram horas de voltar ao café da Ti Glória para recolher a Ilustrada, a exposição que lá estava desde fevereiro e que a seguir viaja até Lisboa, à Birra da Cerveja. “Tão triste que isto fica agora” lamenta-se Ti Glória, olhando para as paredes amarelas e agora vazias – mas não completamente. Projectado numa delas dava então o início da partida entre Portugal e o Uruguai. De um lado um país, o meu, que acabava de conhecer melhor com todas aquelas histórias, verdadeira tradição oral, que, mais do que entreter, desvendam não apenas parte daquilo que fomos como ajudam a compreender aquilo que somos. Do outro, um país sul-americano, certamente também ele com bons trunfos – ou histórias – na manga. Que ganhe o melhor. 

Texto e fotos por Madalena Massena