“Desde que o conheço já foi realizador, músico, encenador, escritor, sonoplasta, compositor, filósofo, viajante, um homem do mundo desta era global.”

A Ana Ribeiro fala-nos do António Duarte na Revista Gerador de Setembro. Agora, publicamos algumas das palavras que trocaram, aqui mesmo ;-)

Um Homem Livre em Berlim 2017

 “Não me sinto nada confortável com entrevistas, embora goste muito de conversar. Falar sobre mim parece-me sempre um exercício de vaidade inútil, e a minha vida não é assim tão interessante”. É assim que começa esta entrevista ou conversa. Numa manhã quente do verão berlinense, depois do inverno silencioso, solitário e intenso.

 Fizeste publicidade, depois cinema, nos últimos anos tens trabalhado como encenador, músico, compositor, sonoplasta, escritor.  Consideras-te um ser irrequieto , com bichos carpinteiros ou é só inquietude?

Ant.: Muito irrequieto, hiperativo e muito curioso.

Desde miúdo que tenho um fascínio pela Peregrinação do Fernão Mendes Pinto.  Pela forma como o acaso e a necessidade te empurram para um processo de descoberta, para aventuras. Sejam elas interiores ou exteriores.

Como a tua vida muda radicalmente devido à mais pequena influência que não controlas. Por isso coloco-me sempre em posição para que isso me aconteça, disponibilizo-me a ser empurrado para o acaso.

E inquieto, sim, muito. Estou sempre com a sensação de que devia estar noutro lado qualquer, que devia saber mais qualquer coisa,  que “ainda não está completo”. Por isso penso que sou ambos.

Já viveste em Nova Iorque, Lisboa, houve um período que quiseste viver em Chiang Mai, na Tailândia. Agora vives em Berlim, o que te trouxe cá e qual é a tua relação com a cidade?

Ant.: A minha vinda para Berlim apareceu da necessidade que estava a sentir de ter de mudar. Embora adore Lisboa, a única cidade que conhecia onde pensava conseguir viver, a cidade, as rotinas que tinha e as influências que recebia, começavam a sufocar-me.

A minha primeira tentativa foi ir para a Tailândia, mas acabei por me encontrar enleado na tentativa de conseguir apoio diplomático e burocrático das instituições portuguesas e desisti após um ano. Acabei por centrar o meu destino na Europa e, de todas as cidades que coloquei como hipótese, Berlim era a única que não conhecia. Só isso pareceu-me um bom princípio, não conhecer a cidade, não falar a língua.

E mudei-me.

A minha relação com Berlim foi amor à primeira vista. Há algo aqui que me agrada profundamente. Há um fervilhar permanente, uma politização ativa e com consequência que não encontro (talvez por desconhecimento) noutros locais da Europa. E como o meu trabalho é eminentemente político, esta cidade é perfeita para a pessoa que sou.

Qual é o reflexo que a mudança para Berlim teve no teu trabalho?

Ant.: Talvez as maiores mudanças tenham sido as influências que a aprendizagem da língua e a vivência trouxeram. Na música é quase impossível não ser influenciado pela multiculturalidade desta cidade. Nas formas musicais que exploro, por exemplo. Percorrer a minha rua é uma experiência eclética.  Começo com rock e electrónica à minha porta e passados 5 minutos estou “dentro” da Turquia. Isto se for num sentido, porque se for noutro estou sonoramente no Líbano ou no Vietname.

Isto influencia-me totalmente. Chego a casa e quando vou trabalhar, estou já completamente condicionado.

No meu trabalho como encenador/dramaturgo, tudo mudou, excepto o conteúdo político. Deixei os temas com que trabalhava em Lisboa, mais virados para questões locais (Portuguesas) e como cheguei quando a crise dos refugiados começou em força, dirigi o meu trabalho mais para as questões do mundo, com principal foco nas questões humanistas e a reflexão sobre o caminho que a Europa está a escolher.

Além de que encontrei, finalmente, o sítio onde o meu trabalho nas artes performativas se insere: a Freie Szene.

Fizeste um álbum antes de saíres de Lisboa, Reminiscências de um Homem Cavalo; fala-me dele.

Ant.:  Sim, no último ano e meio antes de sair de Lisboa, comecei a fazer um álbum, embora nunca o tenha encarado como um álbum de música. Sempre vi as Reminiscências de um Homem Cavalo como um livro de poesia musicada. São pequenas cartas de despedida e declarações para o que queria deixar para trás.  Coisas que amo e que odeio em Portugal. Acabei por nunca tentar editar e promover, porque, ao fim de algum tempo de estar em Berlim, aquelas questões deixaram de ter sentido. A minha realidade é outra; de alguma forma, embora todos aqueles problemas me preocupem, já não me dizem respeito.

Tens alguma frase ou ditado que te acompanhe?

Ant.: Sim. Um ditado do Senegal: “Umas pessoas sabem umas coisas, outras sabem outras”. É muito óbvio, mas de alguma forma alivia-me. Retira-me um peso que tendo a sentir por me saber ignorante e saber também que por mais que viva e aprenda, nunca vou saber grande coisa. Como te respondi na primeira pergunta, alivia-me a inquietude.

 

Entrevista por Ana Ribeiro, a nossa autoridade local em Berlim.

A Autoridade Local é uma rubrica da Revista Gerador onde vamos à procura daquilo que de melhor se faz na cultura portuguesa. Mas quem somos nós para o dizer? Pedimos, por isso, ajuda àqueles que sabem mesmo da região onde vivem.

Ilustração de Sofia Santos

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