Escondido no Mercado do Forno do Tijolo, na freguesia de Arroios, encontra-se o Fab Lab, um espaço onde, segundo o que se pode ler no site dos próprios: “quase tudo pode acontecer”.

A questão que se coloca a início é: o que é um Fab Lab?

O termo é a abreviação do conceito “Fabrication Laboratory”, criado pelo professor Neil Gershenfeld, director do Center for Bits and Atoms do Massachussets Institute of Technology, através da disciplina “How to do (almost) anything”. Colocando os pontos nos ‘i’s’, um Fab Lab é um laboratório de fabricação com livre acesso a invenções pessoais e colaborativas através de tecnologias para criar “quase tudo”.

Dentro do Fab Lab existe o projecto Refaz, uma parceria entre a associação Renovar a Mouraria, a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, a Seacoop (Social Entrepreneurs Agency), Associação Remistura e a Associação Fermenta, que tem como principais finalidades a empregabilidade de jovens, a formação vocacional, inclusão social e a geração de recursos económicos através de uma acção de auto-emprego. Estes factores, aliados à procura em combater o desperdício de bens materiais e incluir na sociedade, de forma orientada, jovens mais problemáticos e em situação de vulnerabilidade, é o “lema” deste projeto.

Fomos até ao Fab Lab falar com o Miguel Fernandes, um jovem cheio de ideias e ligado diretamente ao Refaz (que está prestes a renascer com um novo nome: Catalisador). Quando chegamos, encontramo-lo na sua pausa de almoço, e mesmo assim, aceitou falar um pouco connosco. Trabalha em carpintaria e serralharia, além disso, é músico, cenógrafo, body painter e aderecista. Confessou-nos que se dedicou a esta área porque sempre quis construir os seus próprios instrumentos (toca bateria, baixo, entre outros). No seu espaço, o Miguel, juntamente com a sua equipa, procura parar o desperdício e dar uma nova vida a vários materiais. Trabalhando com peças usadas ou encontradas nas ruas, a ideia principal é dar uma nova vida ao que à primeira vista está “morto”. Porém, não trabalham estes materiais exclusivamente. Muitas vezes, novos materiais têm de ser comprados para conseguir trabalhar os materiais antigos. É neste espaço e seguindo estas regras, que estão a ser construídas as mesas para o novo espaço do Gerador. O projeto passa pelo uso de portas e portadas, que serão rearranjadas, cortadas de forma a criar o efeito de estantes e mesas. Fez-nos uma visita pelo espaço, mostrando-nos as máquinas, explicando a sua utilidade e percebendo que olhávamos para elas como um “burro olha para um palácio”.

Durante a conversa, o Miguel relembra-nos que há diferença entre reciclar e reutilizar. Não duvidamos que muitos poucos de nós se dedicaram a pensar nesta diferença que existe entre estes dois termos. Reutilizar é usar um produto mais do que uma vez, seja qual for o seu uso, enquanto reciclar é converter desperdícios em novos produtos ou materiais e dar-lhes uma nova utilidade. Ainda que semelhantes, os conceitos diferem, e muitas vezes assumimos que estamos a reutilizar quando na realidade estamos a reciclar, e vice-versa.

Para além dos projetos próprios, a Refaz dá auxílio ao Fab Lab às terças e quintas disponibilizando as máquinas que têm no seu espaço, bem como ajuda no desenvolvimento e concretização dos projetos nas áreas de serralharia, carpintaria e marcenaria.

A equipa do Refaz é variada não só a nível de idades, como a nível de culturas. Composta pelos portugueses Miguel Fernandes, Tiago Águas e Duarte Pinto, pelo dinamarquês Simon Yaeger e pelo sueco Ake Erlands, é fácil perceber o bom humor com que trabalham e a camaradagem que existe entre eles, ainda que sejam de áreas diferentes, conseguem aprender sempre algo novo entre eles.

Um espaço a visitar e utilizar e que muitos desconhecem. Podes obter mais informações no site do Fab Lab, onde podes saber quais os materiais disponíveis, bem como saber como fazer para requisitar o espaço. Um espaço onde se estimula a criatividade, inovação e o empreendedorismo e onde pode nascer o protótipo de uma ideia.

*Texto escrito ao abrigo do Antigo Acordo Ortográfico

Texto por André Arrátel Torrão

Fotografias de Andreia Mayer