Por Carolina Rufino, repórter com licença para escrever duas vezes

Pumba! Mais uma celebração de património imaterial da humanidade. Continuem a ganhar que nós continuamos a reportar. Há cinco séculos que em Bisalhães se faz loiça negra. Não é o barro que lhe dá origem que é preto, é o processo de cozedura que assim o determina. Quinhentos anos de história num dia, missão decidida, e a nossa nova repórter, Carolina Rufino, a caminho.

Existiu um menino, e esse menino acordando cedo para ir para a escola, do alto da sua aldeia (Mondrões), ainda mal desperto e enquanto a mãe lhe passava a água fria na cara, via pela janela colunas de fumo que habitavam as encostas da serra. Desconhecendo o que eram, durante a noite sonhava-as para de manhã as voltar a avistar. Certo dia este menino, num regresso mais longo do que era habitual, da escola para casa, passou por Bisalhães. De mão dada com a avó, numa olaria viu, incrédulo, como de um pedaço de barro jogado com ímpeto para cima da roda de oleiro, em segundos, nascia uma forma. A forma conhecida dos alguidares e panelas da cozinha lá de casa. “E a cor de onde vem?”, “Como pintam a terra?”, pensou. Mais tarde assistiu à cozedura de uma fornada: viu uma montanha de fogo, o esforço super-humano das gentes que a alimentavam, homens, mulheres e crianças, cada um com as suas tarefas bem definidas. Sentiu o calor das labaredas que cresciam em direção ao céu, ouviu o crepitar da madeira e o assobio daquele buraco escavado no chão. A partir deste dia, aos Domingos na missa, e durante todo o tempo que esta durava, este menino de olhos e imaginação ardentes, mais do que aos santos, anjos e querubins, passava o tempo a adorar os oleiros e as suas famílias que ali estavam, aqueles homens e mulheres que do barro e fogo faziam pura alquimia. Que desde tempos ancestrais, com terra foram construindo a sua história e, triturando-a, moldando-a e queimando-a, foram-lhe atribuindo memória. Hoje, este menino que se tornou senhor, o Sr. Alberto Tapada, sabe que o barro lhe moldou a existência. E em sua honra jurou que a loiça negra de Bisalhães nunca seria apagada da História.

Com o termómetro a marcar os cinco graus rumámos a Vila Real. “Tem que ser durante a manhã”, afirmou Renato Rio Costa, “à tarde temos um trabalho muito importante”. Em meia manhã chegámos. Renato e Daniel Pera recebem-nos numa bela manhã de sol. Esta dupla tem, como todos os jovens, a leveza do futuro misturada com a ligeira ansiedade dos passos do presente, mais ainda quando neste dia, exatamente enquanto nos recebem e conversamos, o seu projeto de há 5 anos está a “nascer” no forno do menino, hoje já senhor, que avistava as colunas de fumo nas encostas da serra. “Se algo correr mal, não teremos peças para apresentar” na Ambiente, uma das maiores feiras internacionais de artigos para a casa e decoração de interiores, que acontecerá em fevereiro em Frankfurt. Ao projeto que hoje ganha vida efetiva batizaram-no de Bisarro e foi um dos projetos vencedores do concurso internacional de jovens talentos desta feira. O Bisarro teve a sua génese no trabalho de ilustração do final de mestrado de Renato Rio Costa, na ESAD (Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha). Tornou-se empresa bebendo da experiência profissional dos seus co-fundadores, antigos colegas na SPAL e amigos a olho nu, e com o qual querem “através da criação, modernização e comercialização de novas formas e conceitos em barro preto, manter a génese do processo de fabrico”, classificado, em novembro passado, Património Cultural Imaterial pela UNESCO.

Chegámos à Cumeeira, descendo a rampa que sai da Estrada Nacional número 2 em direção a uma zona de típicos socalcos da região demarcada do Douro, vemos o forno que ainda fumega. Espalhadas em redor, as peças de barro preto do Bisarro: imaculadas. Contemporâneas nas suas formas, esplendorosas na tradicional cor antracite escuro. A cozedura correu bem! Pode-se afirmar que hoje nasceu parte do futuro da olaria negra de Bisalhães, em prol da memória de todos aqueles que durante séculos, da terra fizeram barro, ao barro deram-lhe forma, a essas formas atearam-lhe fogo, sufocando esse fogo, imprimiram-nas de negro e assim fizeram o seu ganha-pão. Dos antigos oleiros de Bisalhães, em que a tradição foi passada de geração em geração apenas existem cinco, quase todos com mais de 75 anos e alguns deles já se encontrando doentes, incapacitados de continuar a trabalhar. Hoje, na cozedura do novo forno, foi a mulher de um deles que veio em auxílio. No seu saber concentram-se séculos de experiência e homenageia-se o esforço de todos os oleiros e famílias. Oleiros como Abraão, que o Sr. Tapada recorda que num certo dia em que Abraão ia para a feira, com 60 kg de “panelos” às costas, um senhor mandou-o parar e disse-lhe: “Se tombares toda a loiça que trazes às costas dou-te 80 escudos”; Abraão, hesitante, demorou na sua resposta, nem o peso da carga às costas o fazia decidir. E o senhor insistia: “Dou-te 80 escudos, todo o dinheiro que farás na feira”, mas Abraão não deliberava. Avistando um polícia tal longa conversação, aproximou-se. Explicou-lhe o senhor a proposta que fizera a Abraão e acrescentou: “E ainda te dou mais 20 escudos se atirares todos esses panelos ao chão”. O polícia interveio em defesa da boa sorte de Abraão naquele dia: “Aceita, homem! Receberás 100 escudos, mais do que aquilo que ganharás na feira”. Abraão continuou a pensar, com 60 kg de carga às costas, continuou a pensar, e pensou demoradamente até que, retomou o caminho para a feira. Todo o trabalho de fazer aqueles “panelos”: o esforço da moagem das matérias-primas, as horas na roda de oleiro, o carregar com a lenha dos montes, as altas temperaturas da cozedura, o esforço do seu transporte não poderia ser destruído levianamente pela oferta duma boa quantia de dinheiro fácil…

Hoje o menino que sonhava com as colunas de fogo tem um forno e é o seu filho que dá forma ao barro preto. Manuel Tapada decidiu, do alto da paixão dos seus 26 anos, abraçar esta arte. Tornou-se aprendiz de Cesário Rocha Martins, um dos cinco antigos oleiros, criou com o pai a Douro Up, que tem por objetivo a promoção e comercialização da olaria negra de Bisalhães no sector turístico, e é, para já, o único oleiro a trabalhar para a Bisarro.

Todos juntos continuarão a perpetuar a história e a memória desta arte e a fazer, quiçá, com que outros meninos avistem das janelas de suas casas colunas de fogo e fumo…“Hoje é um dia feliz para nós!”, disse-nos Alberto Tapada com o sorriso terno de criança que ainda guarda.

Reportagem de Carolina Rufino
Fotos de Renato Santos