A Sala Suggia está particamente cheia para assistir ao concerto que assinala o término do ano letivo da Orquestra Energia. Os primeiros a ocupar o palco são os alunos da Orquestra Energia de Amarante. Dirigidos por Vânia Rodet, os jovens tornam-se nos gigantes do mundo a cada nota, não deixando espaço para diferenças socias ou económicas. Num momento em que apenas a música importa, Vânia troca sorrisos com os jovens músicos enquanto os seus braços dão indicações em movimentos cíclicos e rígidos e, por vezes, cantarola ao som das batidas da música. De mão empunhada em sinal de vitória, Vânia sai do palco, depois os alunos. Segue-se a Orquestra Energia de Mirandela, que é recebida com um forte aplauso do público.

A Orquestra Energia Fundação EDP é um projeto de inclusão social através da música que envolve crianças e jovens, dos 6 aos 16 anos, das escolas dos concelhos de Amarante, Murça e Mirandela. Este projeto começou por ser promovido pela Fundação EDP, em 2010, e visa promover a integração social das crianças e jovens oriundos de contextos sociais e económicos vulneráveis. Para tal, dá-lhes acesso a formação musical tendo em vista o incentivo ao sucesso académico, combater o abandono escolar e contribuir para a sua construção dos seus projetos de vida.

O Gerador começou por ir até à Fundação EDP para saber mais sobre este projeto através do testemunho de Sandra Santos, a gestora do mesmo. Tudo começou com a inspiração no El Sistema, um projeto venezuelano em que utilizam a integração dentro de uma orquestra para combater o insucesso escolar. O El Sistema existe desde 1975 e foi concebido e fundado pelo maestro e músico José Antonio Abreu. Hoje, as Orquestras e Coros Juvenis e Infantis que surgiram no âmbito deste projeto têm relevância em todo o mundo. “Nesse sentido, nós, até antes de 2010, trouxemos o projeto para cá e testámos no Casal da Boba, na Amadora, e depois, integrado num projeto específico de desenvolvimento comunitário na zona onde estavam a ser construídas novas barragens ou feitos reforços de potência, decidimos então levar o projeto para estas três localidades, Amarante, Murça e Mirandela”.

Para além das questões geográficas, foi feita uma análise que revelou que as crianças destes concelhos não teriam acesso ao ensino musical e tinham fracos resultados escolares. Assim se chegou à conclusão de que seria útil levar a Orquestra Energia para Amarante, Murça e Mirandela. Os jovens que a integram são identificados pela CPCJ (Comissão de Proteção de Crianças e Jovens em Risco), pela Ação Social da Câmara, ou através de conversas dos pais com os psicólogos dentro das escolas dos agrupamentos. “Depois fazem uma série de testes para perceber que instrumento é que se adapta àquela criança e posteriormente começam então a ter as aulas individuais, depois de naipe, e depois de orquestra”, sendo que não é requisito ter conhecimento musical prévio.

Ensaio da Orquestra Energia, dirigido por José Eduardo Gomes

Para além de oferecer formação musical, este projeto tem vindo a mostrar valiosos contributos. “Já vários estudos que foram feitos, mesmo a nível científico, provam que a música estimula a concentração, aprendizagem, disciplina, trabalho em equipa, porque estão mesmo inseridos numa orquestra. De facto, o que se tem verificado ao longo destes anos todos é que, não só o comportamento melhorou, como depois há resultados nas notas escolares”. Tudo isto tem gerado um sentido de pertença e orgulho e “os próprios pais, que estavam muito afastados da vida escolar dos filhos, passam a estar muito mais presentes. A maior parte dos alunos que já saiu fica de alguma forma ligado. Muitas vezes até participam em concertos e alguns, quando estão mais próximos, servem até de mentores para os mais novos, portanto acabam por assumir esse papel de devolver aquilo a que tiveram acesso”.

Em 2015, a Fundação EDP reconheceu na Casa da Música o parceiro ideal para assumir a direção artística e pedagógica do projeto. “Em 2013 fizemos um estudo de avaliação de impacto para perceber se, de facto, este projeto estava a ter os resultados previstos. Para além de ser inequívoco que o impacto era bastante positivo, pareceu-nos que fazia sentido agregar e eles terem uma orientação artística e pedagógica, que obviamente a Fundação não tinha internamente, e nesse sentido desafiámos a Casa da Música para assumir esse papel. A Casa da Música, em 2014, fez um diagnóstico das três escolas e apresentou uma proposta de plano. E, em 2015, contratámos então o serviço educativo da Casa da Música para assumir esta direção artística e pedagógica”.

Jorge Prendas, diretor artístico da Casa da Música, partilha um pouco desta experiência com o Gerador, momentos antes de se dar início ao concerto. Revela que esta associação entre as duas entidades acontece de um ponto de vista artístico em termos de consistência da Orquestra, “mas acima de tudo, do ponto de vista pedagógico, ao estar muito perto das Orquestras, não só pela nossa proximidade física, mas também no trabalho de acompanhamento que fazemos com deslocações regulares. E depois também no desenvolvimento de todo um trabalho pedagógico que se baseou quase na construção de um programa de estudos que não havia até então”.

A relação da Fundação EDP com a Casa da Música já é antiga, uma vez que a primeira é mecenas da Casa, tendo desenvolvido trabalho conjunto desde 2008. Desde 2015, esta nova aliança tem mostrado resultados de evolução artística nas orquestras. “Porque para além do acompanhamento dos alunos, parte do plano de ação passa também pela formação dos professores e ter, não só a parte artística, mas também trabalhar a parte pedagógica, porque estamos a falar de crianças e jovens de contextos muito complicados. Portanto, também não é qualquer professor de música que consegue estar neste projeto, porque há toda a dimensão social. Para nós, ao longo destes três anos, verificámos que artisticamente todas estas crianças evoluíram imenso”, revela Sandra.

Concerto Orquestra Energia Fundação EDP 2018 na Sala Suggia, Casa da Música

A nível pedagógico, Jorge explica que o programa de estudos desenvolvido pela Casa da Música envolveu a decisão de horas de ensino, a escolha de disciplinas que os alunos devem ter, aquilo que é prioridade, mas também em duas grandes áreas. “Uma área que foi a criação e escrita de peças para esta Orquestra, que não havia. E portanto, nós tentamos fazer uma escrita de peças que fosse próxima do que são as realidades locais. Ao longo de três anos foram escritas 27 peças. Isto dá um bocadinho ideia de tudo o que foi feito, até do ponto de vista da criação. Por outro lado, durante estes três anos nós promovemos uma série de workshops, formações, não só com os alunos, mas também com os professores e as famílias no intuito de ter a tal proximidade com a comunidade. Ou seja, ter uma Orquestra que está muito próxima das pessoas e da comunidade local”.

Algo de curioso que tem vindo a acontecer é o facto de haver alunos que começaram pela Orquestra Energia e estão neste momento a ingressar no Ensino Superior em Música. “Não sendo este um objetivo do projeto, não estamos a formar músicos, este projeto foi fundamental para estas crianças, que hoje já são jovens e estão no ensino superior, terem descoberto a música, terem acesso à música e hoje estarem a fazer vida universitária enquanto estudantes de música. Sem este projeto, garantidamente nunca o teriam descoberto, nunca tinham ido para o ensino superior na área da música. Só por isto já vale a pena”, confessa Jorge.

Um exemplo de um destes alunos é o Edgar Milhões, que ingressou na orquestra com 12 anos. Edgar conta que a sua ligação com a música sempre foi forte e, quando veio para Portugal com 9 anos, começou a tocar trombone numa banda filarmónica. Quando surgiu a Orquestra Energia, achou que essa seria uma boa oportunidade para dar seguimento ao seu desejo musical. “Em 2012 candidatei-me à ESPROARTE( Escola Professional De Artes De Mirandela) com prova em trombone. Por ‘azar’ meteram-me em contrabaixo. Sinceramente não conhecia o instrumento, chorava no início, porque não era o instrumento que eu queria estudar. Ao longo dos anos comecei a ter gosto por ele, e tive a oportunidade de ir a Paris e ao Brasil com a Orquestra Energia”. Passado algum tempo, revela que surgiram novas oportunidades graças à escola, que lhe permitiram integrar novos projetos como a orquestra APROARTE, a Jovem Orquestra Portuguesa e a Jovem Orquestra Nacional de Espanha, que o afastaram um pouco da Orquestra Energia. Formou inclusive uma banda com amigos, Os Clássicos. Prestes a terminar o 12º ano na ESPROARTE, vai seguir os seus estudos na Holanda, “em busca de novas oportunidades e projetos”. Como balanço da sua experiência, remata dizendo que “ainda hoje, mesmo não tendo acompanhado muito a Orquestra Energia, agradeço imenso pelo trabalho que fazem e que ainda vão fazer pelos novos músicos jovens que estão a começar”.

Atualmente, a Orquestra Energia tem cerca de 146 alunos com aulas individuais e que participam no projeto ao longo do ano letivo. No entanto, existem reforços de antigos alunos, como Edgar, que, por vezes, ainda colaboram na Orquestra, aumentando o número de participantes. A nível de professores existem 10 em Mirandela e Murça e 14 em Amarante. Os instrumentos são financiados pela Fundação EDP e emprestados aos alunos durante o período em que integram a Orquestra.

Concerto Orquestra Energia Fundação EDP 2018 na Sala Suggia, Casa da Música

De volta ao concerto, seguiu-se a Orquestra Energia de Mirandela, com direção de José João Cepêda, que saltitava ao som das pandeiretas. Depois, subiu a palco a Orquestra Energia de Murça com direção de Lourenço Cruz. Esta música surpreendeu pela presença de um acordeão. Todos os instrumentos entram num período de calmia, ouve-se os tambores em tom de marcha e um jovem levanta-se para nos presentear com um solo de acordeão, em perfeita harmonia com os restantes jovens músicos. Eis que a Orquestra Energia se apresenta como um todo, levando todos os jovens e maestros a palco, sob a direção de José Eduardo Gomes. Durante o resto do espetáculo presentearam-nos com sete músicas escritas especialmente para as três formações e por compositores ligados à Casa da Música: José Alberto Gomes, Nuno Peixoto de Pinho e Óscar Rodrigues, que José aproveita para elogiar dizendo que “é um privilégio interpretar músicas com compositores vivos”. De palco cheio e com movimentações de músicos entre as várias músicas tocadas, houve também espaço para pequenos momentos de humor em que José Eduardo Gomes se dirigiu ao público. Ao deparar-se com um público que começou a bater palmas antes do final de uma música, o maestro dirige-se à plateia dizendo que “às vezes a música não acaba quando esperamos”. Umas músicas à frente, o público volta a cair na mesma rasteira, que leva José a advertir, por entre sorrisos, “mais uma armadilha. Os compositores estão sempre a ver se nos apanham. Cuidado!”.

Ainda neste concerto, no início, podemos contar com a presença do Secretário de Estado da Educação, João Costa, que pediu para não ligarem “aos rankings, liguem-se a estas iniciativas de escolas que levam os alunos mais longe”. Falou dos professores apaixonados que dão vida a estas iniciativas e defendeu que “uma escola sem arte é uma escola incompleta. Todas as disciplinas fazem parte da construção de um indivíduo e a arte tem aqui um importante papel, nomeadamente na inclusão social”. Neste sentido, aproveitou ainda para referir que foi aprovado esta semana um decreto que visa reforçar o número de professores ligados a estas Orquestras.

Com uma média de 10 concertos locais e regionais, o ano letivo termina com o grande concerto da Orquestra Energia na Casa da Música, este ano no dia 1 de julho, na sua maior Sala que acolhe os músicos mais prestigiados, a Sala Suggia, gerando um imenso orgulho por parte dos alunos, pais e comunidade.

Quanto ao futuro da Orquestra Energia, Sandra explica que no final de cada ano letivo é feito um balanço para definir o futuro do projeto. “Em 2015 começámos um caminho de desinvestimento, e continuámos a apoiá-los também numa estratégia de continuidade do projeto, sendo que a Fundação vai saindo gradualmente”. O objetivo deste tipo de projetos sociais é conseguir que a determinada altura estes consigam ganhar autonomia, um pouco como acontece com os filhos que crescem e depois saem de casa. A partir do ano letivo 2018/19, o Ministério da Educação assume a continuidade e execução futura do projeto da Orquestra Energia nos três concelhos, reforçando as equipas docentes. Nesse ano letivo, a Fundação EDP irá assegurar o financiamento através do qual a Casa da Música mantém a direção artística e pedagógica do projeto.

Orquestra Energia Fundação EDP

No total, mais de 900 alunos foram abrangidos desde 2010. O percurso da Orquestra Energia não termina aqui e continuará a marcar a vida de vários estudantes, num crescendo de qualidade artística. Independentemente de prosseguirem os estudos em música ou em qualquer outra área, este projeto tem um impacto significativo na vida dos alunos, mas também na dos seus pais, professores, coordenadores e comunidade que se procura envolver a cada passo. No entanto, Jorge ressalva que este é um processo lento, como é prova o caso venezuelano em que foram precisos 40 anos para chegarem à notoriedade que têm hoje. “Queremos fórmulas rápidas para tudo e queremos logo produzir muito. Isso é completamente errado num projeto destes. Não faz sentido nenhum. Há já alunos no ensino superior que saíram deste projeto que, se calhar, daqui a uns anos, com muita determinação e gosto vão voltar à escola deles já como professores e serão eles também catalisadores de mais e melhor trabalho. Eu acredito que se esta parceria continuar, se continuarmos a trabalhar como temos estado a trabalhar, daqui a dez anos podemos estar a falar de um projeto com uma solidez artística muito grande e com um impacto muito maior. Mas são coisas que demoram tempo”.

Sendo este um espaço onde todos importam, o concerto chega ao fim com um pedido especial do maestro, que se cante os parabéns a uma menina, a Inês Ribeiro, que fazia anos nesse dia. Os instrumentos ganham novamente expressão, o público dá uso à sua voz e Inês terá um momento que nunca esquecerá, a Sala Suggia a parabenizá-la de pulmões cheios ao som de uma orquestra que lhe deu novas oportunidades.

O Gerador é parceiro da Casa da Música
Texto por Andreia Monteiro
Fotos de Rute Ferraz | Fundação EDP