A Rita percebe de livros e ainda por cima gosta de os ler; pela primeira vez ou repetidos, os livros são como as cerejas, como o creme protector, as batatas pála-pála e como a língua da sogra; sem eles não há Verão. Verão que sim, verão que sim.

Apanhar banhos de sol apanhando banhos de literatura é bom, bonito e só irá fazer bem a quem. Acredito piamente nisso e gostava de convencer os outros também. Mais de uma vez me vi nesse ingrato papel de ter que persuadir alguém sobre a beleza de ler um livro. Sendo eu uma bibliodependente é algo que me sai naturalmente e assumo com orgulho: a evangelização do descrente do poder de um bom livro. Com isto não digo que haja livros bons e livros maus, há sim sempre um livro para cada pessoa. Não é impossível encontrar um livro que possa encher as medidas até do mais distraído e desapegado dos leitores, prometo.

E sendo Portugal pátria de grandes escritores é ainda mais fácil encontrar aquele livro, o que vai ferir, tocar, fazer rir, levar para sítios que podem ou não existir, que podemos sublinhar, que nos vai dar uma enorme dor nas costas porque não vamos conseguir ler na praia, com o que vamos apanhar um escaldão na esplanada para lermos aquele capítulo até ao fim.

Peguem nos chapéus de sol e na toalha e passem pela livraria antes de zarpar, um destes livros pode provocar-vos coisas tão estranhas como ficarem apaixonados, excitados, tocados, maravilhados e até bronzeados! Com um dos títulos mais bonitos dos últimos anos da literatura portuguesa Coração Mais que Perfeito (Quetzal, 2017) do músico Sérgio Godinho é um livro em que queremos saber tudo sobre a vida de Eugénia, das suas desgraças e desaires que tenta apaziguar com os livros e com sexo. E de Artur que vive como um funâmbulo numa vida que parece igual às outras mas que esconde um segredo digno de humanos que vivem ao ritmo do coração. Ainda num tom mais humano, mais cru, podem levar João Tordo dentro do saco de praia com O Deslumbre de Cecilia Fluss (Companhia das Letras, 2017). Onde Matias Fluss, irmão de Cecilia que dá nome ao livro, vai viver as emoções adolescentes de descobrir a sexualidade, ser obrigado a crescer com uma dor que o atormenta até ao fim dos dias e onde pensa que pode viver passando despercebido. Mas como todos os adultos descobre que a dor volta sempre para ser vivida. E Matias vai viver, entre a memória, os afetos, a desolação e claro o amor. Tudo numa busca pelo lado mais espiritual de uma vida que não se quer tão terrena, em que precisamos avidamente de saber aquilo que com mais força nos liga aos outros e a nós próprios. Que é maior que qualquer um de nós.

Num tom mais fantasia literária e que nos apanha na primeira página podemos levar na mochila o Gonçalo M. Tavares com o seu A Mulher-sem-cabeça e o Homem-do-mau-olhado, um retorcer mitológico de uma revolução de natureza humana. Escrito de forma delico-sanguinária. Com o toque de literatura antiga e muito cativante ao mesmo tempo.

Na verdade todos os livros têm esse poder: de nos levar mais além, de onde quer que se leia nos toquem, de não nos deixarem indiferentes, mesmo que seja com areia no pé. E escolher tão poucos, sabendo que há tantos tão maravilhosos, é tarefa ingrata, mas só em jeito de vão lá dar um banho de mar, afastar as más energias e o calor, deixo uma última sugestão, um portento da literatura nacional que devia fazer parte da educação de todos nós: A Sibila, de Agustina Bessa-Luís, um livro muito à frente do seu tempo em que se fala precisamente de uma mulher que tal como a autora venceu as barreiras que lhe eram impostas pelos homens e se tornou um exemplo de força e coragem.

Por Rita Fazenda, agente de talentos e cenas literárias catitas

Foto Vitorino Coragem