John Almeida – (Little Friend)

Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode atrapalhar ou, pelo contrário, ajudar?

Eu acho sempre que atrapalha! Tento sempre ser instintivo quando posso e, por vezes, quando não posso. Sempre achei que pensar demasiado na música, quando se está a compor, lhe suga a emoção, lhe retira os sentimentos que nos fizeram querer escrevê-la. Tudo o que for muito técnico soa a falso, soa a plástico. Eu digo sempre que apesar de fazer música hippie, o meu espírito e (falta de) técnica são punk. Hippie-punk, sou eu.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer?

Bem, isso é muito difícil, estar a limitar a uma ou duas músicas. São muitas as que me fazem mexer, mas há algumas que me vêm à cabeça: a ‘Queen Bitch’, do David Bowie; a ‘Babies’, dos Pulp; a ‘Dancing Queen’, dos Abba e a ‘Crazy in Love’, da Beyoncé. São uns exemplos de géneros diferentes que me fazem querer dançar.

E aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato?

Bem, são tantas! As músicas do Elliott Smith são um veículo que me transporta, sempre, para um tempo e um lugar específico e que me deixa alegre e triste ao mesmo tempo. A música ‘Good Dancers’, dos Sleepy Jackson, transporta-me sempre, deixa-me nostálgico. Com a ‘One More Time’, dos Cure; a ‘Holes’, dos Mercury Rev e a ‘Little Red Corvette’, do Prince é sempre assim também. A ‘Many Rivers to Cross’, a versão do Harry Nilsson, leva-me sempre para um estado muito, muito específico, para uma recordação que me é muito querida.

Achas que o facto de a música ser invisível, não palpável, ajuda-a a ser mais intuitiva e, por conseguinte, ter uma outra relação com a nossa consciência?

Claro. Difere das outras artes, nesse aspecto, porque o nosso olhar não pode captá-la e avaliá-la. Muitas vezes, acho que dependemos tanto da visão para decidir o que achamos das coisas, mas a música obriga-nos a “fechar os olhos”, às vezes literalmente, e entra por nós adentro. Temos de confiar no instinto, naquele baque inicial quando ouvimos as primeiras notas, o refrão, uma melodia.

Já te aconteceu pensares numa imagem, num ambiente específico ou espaços enquanto compões?

Claro, acontece sempre e de uma forma quase inconsciente. Quando componho sinto sempre que estou a ir para um lugar, para um tempo, para um estado de espírito. Eu associo sempre as coisas assim: a música com um tempo, com uma cidade, com uma casa ou pessoa.

Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?

Correndo o risco de ser muito previsível, acho que seria muito azul, tons de azul. A textura seria muito de relevo, como um quadro onde se pintou camada atrás de camada, sem disfarçar as emendas, muito tridimensional. Por vezes, penso que também seria de um vermelho muito vivo. Sou muito primário.


Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce?

Acho que imagino um sabor salgado, como a tua boca depois de nadar no mar.

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que ficou na tua memória. Que música lhe associarias?

O cheiro das minhas filhas quando eram recém-nascidas. A música que associo é a ‘California Dreamin’, dos Mamas&Papas, que lhes cantava para as adormecer.

Achas que a música pode ser um bom veículo para fixar e guardar memórias?

A música e o cheiro são, decididamente, as chaves para as minhas memórias. Associo automaticamente cheiros a experiências, e como a música sempre foi uma presença constante na minha vida, todas essas experiências têm uma banda sonora. Sem sombra de dúvida que uso a música para fixar as memórias. Tudo o que fiz na vida é como um filme e a banda sonora é essencial para as sensações e lembranças.

Entrevista por Ana Isabel Fernandes