Nos Sentidos da Música de hoje estivemos à conversa com o Pedro Lucas, dos Medeiros/Lucas.

Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode atrapalhar ou, pelo contrário, ajudar?

Isto é capaz de ser o que se pode chamar uma milion dollar question. Tentando ser simples, e pegando numa ideia que li noutro lado qualquer, acho que a razão é uma ferramenta muito importante para organizar/disciplinar o que podem ser chamados de impulsos mais emocionais de uma expressão que é mais plástica ou estética como a música. No meu caso específico acabo por trabalhar muitas vezes com coisas que surgem primeiro no plano das ideias e que depois me ajudam a balizar o que surge mais naturalmente quando estou a tocar guitarra ou a tentar criar uma melodia para um texto.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer?

As boas. O corpo mexe sempre, quer sejam convulsões interiores ou a anca a abanar.

E aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato?

A resposta poderia ser semelhante à da pergunta anterior mas já agora aprofundo. Eu vejo a recepção de qualquer estímulo estético como um processo bastante holístico. Música mais rítmica vai apelar-me mais ao corpo e mais contemplativa apelar-me-à mais a esses estados de espírito, mas tanto um aspecto como um outro estarão sempre envolvidos em qualquer audição. O ritmo também cria estados de alma, e uma balada da Nina Simone de certeza que me abana o esqueleto.

Achas que o facto da música ser invisível, não palpável, ajuda-a a ser mais intuitiva e, por conseguinte, ter uma outra relação com a nossa consciência?

Pois, isso é uma discussão com séculos e já escreveram sobre isso gente bastante mais capaz que eu. Alguns filósofos (não vou nomear para não me enganar) achavam que a música era arte por excelência exactamente por esse aspecto “não material”, enquanto outros achavam-na uma arte extremamente deceptiva (e por isso menor) porque nos fazia sentir coisas que não estávamos a sentir nem tínhamos de sentir. A música é certamente capaz de disparar uma catadupa de reacções emocionais que nós não estaríamos propriamente à espera, de despertar memórias, e isso pode-se passar a muitos níveis da consciência – sejam coisas mais conretas ou sentimentos mais vagos. Mas a “não-materialidade” não é propriedade exclusiva da música. A poesia oral também é “invisível” e acho que será eventualmente ainda mais interessante nessa interacção com a consciência: pela forma como as palavras não só têm uma expressão plástica, como ainda trazem muitos conceitos (subjectivos) associados que são capazes de disparar um grande número de reacções mentais e emocionais.

Já te aconteceu pensares numa imagem, num ambiente específico ou espaços enquanto compões?

Sim, bastantes vezes. A forma mais básica de isto acontecer pode ser quando se faz música para cinema ou imagens. Mais concretamente no meu processo, como disse antes, muitas vezes parto de uma ideia que depois tento representar musicalmente – isto sobretudo em música mais instrumental.

Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?

Varia bastante mas em termos gerais era capaz de ter várias gradações de cyan e de magenta e representar-se em forma de arco íris ondulares com frequências que variam, às vezes bastante densas outras vezes bastante espaçadas. Vale?

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce?

Salgado como mar é uma boa hipótese. Uma vez no norte da Califórnia visitei um produtor de vinhos naturais que abriu uma das suas garrafas, um syrah já com uns aninhos. Era feito com uvas de uma vinha à beira do Oceano Pacífico e tinha um toque salgado subtil. Era incrível! Agora que perguntaste isso acho que é a coisa de saboreei mais perto da música que me é especial. (o produtor chama-se Kevin Kelly se alguém tiver curiosidade)

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que ficou na tua memória. Que música lhe associarias?

Eu sou bastante mauzinho com esse tipo de memórias, e custaria-me muito hierarquizá-las caso as tivesse. Portanto vou ser mais arbitrário e escolher o cheiro das tangerinas do quintal da minha este Natal passado, que é a memória olfactiva que tenho mais próxima. Uma qualquer balada dos Simon & Garfunkel ia muito bem com aquelas tangerinas, ou melhor ainda a “Cantiga da Terra” do Zeca Medeiros.

Achas que a música pode ser um bom veículo para fixar e guardar memórias?

Acho, sem dúvida. Duma forma menos poética isso é muito óbvio no que toca a mnemónicas, que tem sempre alguma musicalidade associada. Com mais poesia, creio que muita gente já teve a experiência de ficar com uma certa canção associada a um certo momento ou pessoa, e cada vez que essa canção surge lá surge também a imagem, qual reflexo pavloviano. O Nick Cave invoca essa razão precisamente para nunca ter vendido nenhuma da sua música para publicidade. Ele sentia que estaria a trair todos os fãs que já tinham associado uma das canções com um momento especial e que depois teriam de partilhar essa memória com uma marca qualquer.

Entrevista por Ana Isabel Fernandes

Foto de Nuno Carvalho