Os Sentidos da Música

O paladar, a visão, o tacto e o olfacto também ouvem.

Best Youth – Ed Rocha Gonçalves e Catarina Salinas 

Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode ou não atrapalhar? A música exige uma rendição total para as notas entrarem pele adentro?

ERG [Ed Rocha Gonçalves] – Não é fácil responder a isto. Acho que o lado racional é muito difícil de desligar. É como um programa que corre em background no computador. Mesmo quando estou 100% concentrado na musicalidade da coisa parece que há, sempre, um microprocessador a fazer mil cálculos por segundo, a antecipar a nota seguinte e a tomar decisões: “se for para ali vai ser muito previsível e vai estragar tudo, é melhor evitar, vou antes para ali mas com um ritmo diferente” ou “vou insistir na nota anterior outra vez…”. Acho que nunca o consigo desligar completamente. Não significa que atrapalhe, acho que, de certa forma, até ajuda porque puxa sempre a que eu tente ser o mais original possível, a que tenha uma identidade musical mais definida. Isso ajuda a que esse sentimento descrito seja mais “meu”, mais genuíno. Mas, por outro lado, há uma sensação muito difícil de descrever, que é quando se está mesmo “dentro” da música e uma espécie de piloto-automático toma conta da situação e faz coisas inexplicáveis, por vezes geniais, a que o lado racional, se calhar, nunca chegaria. Acho que isso pode ser considerado esse tal estado de rendição total em que , realmente, não, o lado racional não tem lugar.

CS [Catarina Salinas] – Eu sou muito intuitiva e, apesar de ter estudado piano e de ter aprendido a ler música, sempre me inclinei mais para o ouvido e não para uma pauta. Aliás, fazia-me e ainda me faz alguma confusão racionalizar uma melodia antes de a iniciar.  Mesmo à medida que a vou construindo, onde tento conjugar a tonalidade, a escala a explorar, a métrica, etc, no final tudo tem de me soar harmonioso e não forçado. Se pensarmos apenas na questão da intuição, é muito romântico e quando acontece é uma sensação inacreditável, mas muitas das vezes tens de insistir e pensar naquilo que queres fazer pois, caso contrário, podem-te sair ideias pouco interessantes ou com as quais, simplesmente, não te identificas. Contudo, e porque uma pessoa está sempre a evoluir, mesmo tendo uma abordagem mais técnica no início, não invalida o facto de poderes explorar e desconstruir podendo chegar, assim, a essa rendição total, a esse lado menos racional.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer? Aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato?

ERG – Bom, há duas que me vêm imediatamente à cabeça. Aliás, na tour do Highway Moon têm sido obrigatórias antes de entrar em palco: a Night & Day dos Hot Chip e a Inspector Norse do Todd Terje. É impossível ficar quieto quando tocam.

CS – São tantas, estas perguntas são sempre muito difíceis!

Vou tentar fazer aqui um “pequeno” apanhado…

Elmore James – Anna Lee

Curtis Mayfield – Pusherman

Moloko – Pure Pleasure Seeker / Forever More

Portishead – Sour Times / It Could Be Sweet

FKA Twigs – Figure 8 / Lights On

Hot Chip – Night and Day

Já te aconteceu pensares numa imagem ou espaço específico enquanto compões?

ERG – Tanto um como o outro são, muitas vezes, o ponto de partida para uma composição,  mas pelas emoções que evocam, não pela imagem ou espaço em si. Depois, essa emoção é que é traduzida em música. Há uma música do nosso disco que nasceu das nossas memórias de férias de verão com os nossos amigos quando éramos teenagers. A imagem da praia onde passávamos os dias esteve sempre na minha cabeça, mas no fundo estava a servir de “ponte” para chegar ao que sentia na altura, não é uma música sobre a praia propriamente dita, ou sobre a luz, ou as cores da imagem que tenho dessa praia.

CS – Sim, muitas vezes. Seja algo feito por mim ou de outro artista, quando me toca de alguma forma, penso logo num lugar que pode ser real, imaginário ou apenas uma sensação de nostalgia que eu, na altura, não consigo identificar de onde vem mas sinto-a. Adoro quando isso acontece! Penso que é uma reacção que está inerente a qualquer pessoa. Seja através da música, da pintura ou cinema queremos sempre ser transportados para outro lugar!

Como seria a tua música se a transpusesses para uma tela?

ERG – Muito espaço neutro, linhas rectas, áreas bem delimitadas com cores complementares e contraste entre zonas vazias e zonas ultra-detalhadas.

CS – Seriam tons escuros, frios e quentes, azuis, verdes luxuriantes, vermelhos carmim, cinzas, brancos como iluminadores, toques de luz para poderes ter uma noção de texturas. Talvez algo definido através de camadas e não tanto de linhas direitas ou de um tipo de desenho mais assertivo.

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce?

ERG – Por estranho que pareça, acho que sabe especificamente a gelado de cereja, mas não digo qual é.

CS – Diria mesmo salgada como o mar. Gosto da sua dualidade, calmo e ondulante por um lado, e por outro, bravo e salgado.

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que  ficou na tua memória. Que música lhe associarias?

ERG – Não consigo pensar num cheiro que seja mesmo importante, mas claramente houve cheiros que ficaram arrumados na mesma gaveta que algumas músicas por terem sido partilhados na mesma altura. Assim de repente, há uma mistura específica de cheiros de mar, vegetação e protector solar que imediatamente me traz à cabeça a Adhesive Love, dos Stone Temple Pilots; um perfume antigo que me lembra a Talkshow Host, dos Radiohead, e uma marca de champô que automaticamente me põe a cantar a Bulls on Parade, dos Rage Against the Machine. Isto para não dizer que a Turn Around dos Phatts and Small cheira a Goldstrike…

CS- Tenho dois tipos de cheiro que me definem de uma forma ou de outra. O primeiro remete-me para a minha infância, mais precisamente para a quinta e casa do melhor amigo do meu pai. O cheiro, esse, não vos consigo identificar, exactamente, mas posso dizer que era uma mistura entre o doce, o amargo e o azedo. Ou seja, à primeira inspiração, não era muito agradável, mas é-me muito querido. Aí não associo uma música em particular mas, sim, um género – blues. Desde old school blues (anos 30, 40) até ao mais vulgarizado, com John Lee Hooker, BB King, até Eric Clapton. O outro é um perfume de homem da Davidoff, “Cool Water”. É dos meus aromas favoritos, aliás, apesar de nunca ter sido grande fã de perfumes, adorava este e cheguei a usá-lo, não por muito tempo mas ainda o usei! Na altura tinha surgido o álbum “Motion” dos Cinematic Orchestra, penso que é de 99, e a música que me faz imediatamente lembrar este aroma tão bom é “Channel 1 Suite”.

Quando a música invade toda a tua sensibilidade e mente, de que forma te faz imaginar?

ERG – Quando isso acontece, acho que não imagino propriamente nada de especial a não ser que a música em si seja, especificamente, evocativa. Sinto é uma empatia gigante com quem a está a tocar (ou quem a compôs). Há, também, aquele momento em que estamos os dois a sentir a mesma coisa e a entender-nos um ao outro a 100%. Naturalmente que isso, depois, pode levar a imaginar muita coisa, mas já vai depender da música.

CS – Não tenho nenhuma forma específica mas fico sempre com uma sensação ondulante, algo que vai evoluindo e construindo formas, mais curvas e menos rectas. Quando canto, danço ou ouço música, raramente visiono linhas direitas e formas definidas. Se fosse a pensar em linhas rectas, talvez fossem duas paralelas sem fim que, a dada altura, quebrariam e, algures,  acabariam por desenvolver curvas.

Entrevista por Ana Isabel Fernandes

Foto JSousa