Ana Sofia Ribeiro – LINCE

Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode ou não atrapalhar? A música exige uma rendição total para as notas entrarem pele adentro?

Pode atrapalhar, sim. No entanto, é uma boa ajuda em determinada parte do processo. 
Eu começo a compor de forma muito intuitiva. As notas vão saindo e as melodias crescendo quase sem dar conta e conduzo-as por esse sentimento, naturalmente. Há sempre uma parte posterior mais racional, mas é preciso ir ouvindo e tentar não fugir desse caminho inicial intuitivo senão, aí, a emoção desvanece. A minha música nasce de uma rendição total. Quem ouve música sente se há essa rendição se, também, se render a ela.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer?

Quase todas. Umas mais exteriormente, outras mais interiormente. Ultimamente, a DANCE, dos Justice, ou a Our Own Roof, do Nils Frahm, têm sido bons gatilhos para me mexer.

E aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato.

Há muitas. A música clássica faz-me viajar imenso e leva-me, sempre, para um estado particular. Composições de Beethoven, Debussy, Chopin, por exemplo.

Achas que o facto da música ser invisível, não palpável, ajuda-a a ser mais intuitiva e transgressora?

Penso que sim. E há outro factor que ajuda que é o facto de estar, sempre, connosco. Podemos cantar, criar ritmos,sem termos um instrumento. E podemos fazê-lo em qualquer lugar. Acho-a mais próxima e acessível. Hoje em dia, temos também a vantagem de podermos transportar e ouvir música em todo o lado. Não precisamos de estar num sítio específico para termos acesso a ela. Acho a forma de arte mais próxima de toda a gente.

Já te aconteceu pensares numa imagem ou espaço específico enquanto compões?

Já, várias vezes. As imagens são muito recorrentes. Às vezes concretas, sítios ou momentos específicos, outras vezes abstratas.

Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?

Estaria em construção. Teria linhas irregulares e cores difusas, neste momento.

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce?

Não tenho uma música mais especial que outras. Há um pouco de todos esses sabores nas músicas que ouço

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que ficou na tua memória. Que música lhe associarias?

Não é nada fácil responder a essa questão. Vou dizer o cheiro do mar e associar-lhe a Gimnopedie no. 1 do Erik Satie.

Vamos, agora, virar o jogo. Porque o silêncio também é importante numa composição, de que forma te ajuda na tua intuição, reflexão e introspecção enquanto artista?

Eu adoro estar em silêncio. Sou daquelas pessoas que passa, facilmente, horas em silêncio e no mesmo lugar só a contemplar e a viajar, mentalmente. Isso ajuda-me imenso a ter ideias, a que surjam melodias aparentemente do nada, sem referências externas. É um bom estado para procurar pontos de partida para a criação. É o momento onde consegues, de facto, reflectir e questionar. Costumo dizer que o silêncio é tão importante quanto a palavra dita ou o som.