Homem em Catarse (Afonso Dorido)

Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode atrapalhar ou, pelo contrário, ajudar?

Quando se evoca qualquer sentimento e/ou emoção, o lado racional não existe. Nem podia existir, quando se fala de emoções. A racionalidade é como um GPS que nos leva aos locais de uma forma rectilínea. Na arte nunca se segue um caminho certo, vamos sempre por atalhos, prefere-se a incerteza do trilho de montanha face à melhor via rápida. De certo modo no brotar de uma música nunca encontro racionalidade ou pelo menos nem a vislumbro.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer?

São muitas… Posso-te falar de Violent Femmes com o seu ‘Blister in the sun”, posso-te falar de “Someone great” de LCD Soundsystem, de At drive in e “One armed scissor” ou do Afro-beat do “ Water no get enemy” em Fela Kuti. São, de facto, bastantes para te referenciar todas aqui.

E aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato?

Serão algumas, e de facto é complicado referir especificamente quais. Todas as músicas que me levem a cabeça para outra dimensão que me puxem pela alma, que me suguem os sentidos todos ao ponto de me emocionar e sentir de certa forma algo transcendente, conduzem-me a um lugar sem nome mas que me faz sentir bem mais leve.

Achas que o facto da música ser invisível, não palpável, ajuda-a a ser mais intuitiva e, por conseguinte, ter uma outra relação com a nossa consciência?

Sim, Acho. Talvez inconscientemente a música tenha uma relação profícua a consciência. Tudo o que é não palpável para mim alimenta-nos muito mais, mas como seres humanos ( formatados a ser tendencialmente racionais) lidamos mal com a não quantificação de algo. Assim acho que a música é uma agitação saudável para os novos pensamentos estáticos.

Já te aconteceu pensares numa imagem, num ambiente específico ou espaços enquanto compões?

Sim. Normalmente são reflexos do que acabei de compor e tanto posso ver a floresta siberiana dissimulada, um lugar que não sei bem onde é ou pelo contrário posso ver nitidamente um bairro dos subúrbios de Buenos Aires.

Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?

Eu nunca poderia pintar a minha música. Ela pinta-se por si mesma. No entanto, para mim o azul é a cor onde me sinto mais espelhado.

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce?

Agridoce, como o dia-a-dia. Os encantos e desencantos. A luz e a escuridão. O Sol ou céu escuro. Tudo isso é especial. Tudo isso existe, tudo isso é fado. Tudo isso é sentir. Tudo isso tem de ter uma música especial.

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que ficou na tua memória. Que música lhe associarias?

Yann Tiersen – Comptine d’un autre été

Achas que a música pode ser um bom veículo para fixar e guardar memórias?

Completamente. Muitas das memórias que guardo são mantêm-se devido a uma simples música. Existem determinadas músicas que ouvindo apenas um trecho me catapultam para uma determinado momento da minha vivência.

Como artista, como é, para ti, deslindar sentimentos e emoções através de notas musicais?

É algo que me faz feliz. É algo que me liberta, é efectivamente uma catarse. É comunicar directamente do interior de mim, dos meus sentidos, para o mundo inteiro. E é precisar de o fazer para ser realmente eu mesmo.

Entrevista por Ana Isabel Fernandes