Tiago Sousa

Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode atrapalhar ou, pelo contrário, ajudar?

Foi pela música que o homem, primeiro, se apercebeu das relações numéricas presentes no universo, reveladas pela aritmética e geometria, a um nível sensorial e acústico. Ao mesmo tempo que a música se manifesta a um nível abstracto e sensível, está intimamente ligada ao desenvolvimento das capacidades cognitivas humanas. O seu aprofundamento resulta do investimento nessas capacidades, como a memória ou a lógica, ao mesmo tempo que há um lado indizível na música que alude muito mais a aspectos intuitivos e subjectivos da existência. Portanto, acho que não podemos menosprezar a lógica em prole da intuição nem o contrário. Acho que a grande mestria se encontra quando se somam estes diferentes aspectos.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer?

Praticamente toda a música faz o corpo mexer.

E aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato?

A música ajuda-me a praticar o estado de espírito imediato, a praticar instantes.

Achas que o facto da música ser invisível, não palpável, ajuda-a a ser mais intuitiva e, por conseguinte, ter uma outra relação com a nossa consciência?

Sem dúvida. A música, desde tempos idos, está muito ligada à expressão do inconsciente e, de facto, é difícil prever o que uma determinada música pode provocar em cada indivíduo. Mas claro que há algumas balizas teóricas sobre isso — a forma como determinados acordes ou escalas contribuem para um estado de espírito específico. Acho que essa relação instintiva e inconsciente está sempre à espreita na música e o seu efeito consegue ser, verdadeiramente, indutor de transcendência.

Já te aconteceu pensares numa imagem, num ambiente específico ou espaços enquanto compões?

Normalmente, trabalho a minha música a partir de conceitos mas nem sempre posso dizer que seja uma coisa inteiramente controlada ou induzida. A mim, a música revela mais do que seja o resultado de uma intencionalidade, pelo facto de estarmos a falar da construção de um micro-cosmos, certos aspectos da psique e do modo como o indivíduo lida com o cosmos.

Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?

Não sei se vou dizer isto por causa de estar tão visualmente ligado ao cromatismo do teclado mas, para mim, a minha música seria a tons de preto e branco.

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce?

A volúpia dos sons, para mim, é suficiente. Nunca associei muito a sabores ou cores.

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que ficou na tua memória. Que música lhe associarias?

O cheiro da casa da minha avó. Lembrar-me-ia de uma sonata de Beethoven, pode ser a Pathétique.

Achas que a música pode ser um bom veículo para fixar e guardar memórias?

Para mim é o melhor veículo. Se eu quero memorizar alguma coisa, a musicalidade é logo o primeiro nível de associação que procuro. Seja pela musicalidade de um discurso ou inventar uma cantiga que me ajude a memorizar.

Como artista como é, para ti, deslindar sentimentos e emoções através de notas musicais?

É insondável e uma constante surpresa. É perturbador e conflituante a maior parte do tempo, mas revelador e mágico umas poucas vezes. É com esse fim em vista que me aplico na sua prática, que se apresenta a maior parte das vezes como uma frustração. Mas acho que isso tem algo de muito importante sobre a existência. O modo como temos de saber ser pacientes e como precisamos confiar na expressão do que de mais íntimo e particular se expressa na existência de cada um.

Entrevista por Ana Isabel Fernandes

Foto de Vera Marmelo