Vamos, desta vez, conhecer os cinco sentidos da música dos First Breath After Coma?

Cinco sentidos para cinco rapazes — são eles os leirienses  Roberto Caetano, Telmo Soares, Rui Gaspar, Pedro Marques e João Marques. Com a sua ambiência Post-rock, conseguiram que o seu álbum Drifter fosse nomeado, pela  Associação Europeia de Editoras Independentes, para melhor disco europeu lançado em 2016. Venham daí que a perder não ficam!

Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode atrapalhar ou, pelo contrário, ajudar?

O lado emocional nunca pode ser, totalmente, dissociado do racional. De certa forma, andam sempre de mãos dadas. Numa perspectiva de quem faz música, gostamos de nos juntar a tocar horas a fio, tentando espremer apenas o lado emocional. Mais tarde, depois de termos criado uma atmosfera sonora genuína, aí sim, entra o lado mais racional a tentar transformar aquilo em algo com pés e cabeça. No ponto de vista do ouvinte, na maior parte das vezes, ouvir música com o lado racional mais alerta estraga o propósito dela. Mas isso é, talvez, um defeito mais comum de quem faz música ou toca um instrumento. Há a tendência para olhar uma canção de uma forma mais matemática.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer?

Que parte do corpo? Se for abanar as ancas andam aí meninos a fazer coisas surpreendentes. É o caso do Anderson Paak ou Thundercat.

E aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato?

Há álbuns que por si só têm uma imagética muito forte associada. Por exemplo, o álbum que os Fugly acabaram de lançar leva-nos para uma cave suada, enquanto bebemos cerveja de lata e partimos a mobília contra a parede. Isto no bom sentido da coisa, claro. É um álbum que nos faz saltar da cadeira e isso só pode ser bom sinal.

Achas que o facto da música ser invisível, não palpável, ajuda-a a ser mais intuitiva e, por conseguinte, ter uma outra relação com a nossa consciência?

Isso da música não ser palpável ou ser invisível é discutível. Quando uma música que nos entra directamente para o peito, conseguimos vê-la e tocá-la. Os Animal Collective por exemplo, fazem música com uma paleta de cores maior que a de muitos pintores.

Já te aconteceu pensares numa imagem, num ambiente específico ou espaços enquanto compões?

A toda a hora. A nossa abordagem a fazer música passa muito por aí. Ao invés de usar a música como storytelling, tentamos transformar paisagens ou ambientes em sons e notas. Ao longo dos anos temos vindo a descobrir que, para nós, esta é uma forma bastante intuitiva e natural de fazer música.

Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?

Provavelmente teria todas as cores. Há músicas mais negras e “pesadas” que pedem cores mais neutras e escuras e músicas mais esperançosas, leves e alegres que já levam para todas as outras cores existentes! Por isso, respondendo à questão, uma gigante explosão de cores associada a todos os sentimentos (que são diversos, afinal de contas somos 5 pessoas diferentes a sentir coisas semelhantes e ao mesmo tempo extremamente diferentes).
Em relação ao desenho/pintura, não gostamos de dar formas às coisas, é fixe que o ouvinte se deixe ir e crie o seu próprio universo.

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que ficou na tua memória. Que música lhe associarias?

Ocorrem-nos muitos cheiros mas há um que achamos que marca muita gente, aquele cheiro da terra quando chove. Temos uma faixa no nosso último disco chamada ”Petrichor” que retrata esse mesmo cheiro.

Achas que a música pode ser um bom veículo para fixar e guardar memórias?

Sem dúvida. Numa altura destas em que estamos gradualmente a substituir a nossa memória visual pelas câmaras dos nosso telemóveis, ao menos que a música continue a ter este papel de nos transportar para certos momentos que nos marcaram e nos ajude a nunca os esquecer.

 

Entrevista por Ana Isabel Fernandes
Foto de Jubilee Street