Esta semana, nos Sentidos da Música, a Ana Isabel Fernandes esteve à conversa com o Pedro Rodrigues, dos Holy Nothing ;-)

Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode atrapalhar ou, pelo contrário, ajudar? 

A expressão de qualquer forma de arte é um “confronto” constante entre o racional e o emocional. Na verdade, um não vive sem o outro. A mais inconsciente e imediata forma de expressão é sempre alimentada pela prévia racionalização do que ouvimos, vemos, lemos, vivemos, coisas que, inevitavelmente, nos influencia no que criamos. Mas continuo achar que há muito de inexplicável e pouco tangível num processo de criação artística, ou seja, de difícil racionalização.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer?

Isso é uma pergunta muito lata, mas posso-te referir um episódio recente que pôs o meu corpo a mexer (sou pouco dançarino, na verdade). No mês passado tive a oportunidade de estar numa roda de samba, no Rio de Janeiro, e aquele atmosfera impele-te a dançar mais do que qualquer disco dos Talking Heads ou Lcd Soundsystem que ouças em casa, no conforto do teu sofá. O que faz o teu corpo mexer são cruzamento de circunstâncias, a música em concordância com uma atmosfera própria.

E aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato?

Não mecanizo a influência que uma música tem em mim. Uma música que hoje me faz dançar, amanhã poderá ser o elixir para uma frustração imensa. Mas tenho alguns álbuns que induzem, em mim, certos estados de espírito particulares. Por exemplo, o “Ambiente 1/ Music for airports”, do Brian Eno, é o melhor para momentos de concentração máxima; já o “Disco Club” , do Tim Maia, provoca-me um sorriso pela certa.

Achas que o facto da música ser invisível, não palpável, ajuda-a a ser mais intuitiva e, por conseguinte, ter uma outra relação com a nossa consciência?

Surpreende-me, sempre, como a música é um recurso tão essencial ao ser-humano como a água. Todos ouvimos música por mais diferente que ela seja, e acho que isso tem que ver com essa dimensão de apreensão intuitiva da música. O ouvinte toma sempre a música como sua, na forma como a ouve e absorve conscientemente.

Já te aconteceu pensares numa imagem, num ambiente específico ou espaços enquanto compões?

Espaços sensoriais, sim. Físicos, talvez, apenas, no próprio momento em que estou a compor a música. Muitas vezes, são como sonhos muito concretos quando estás em sono profundo, mas muito nebulosos quando os tentas recordar. Mas associo várias músicas que escrevi a momentos e espaços específicos da minha vida. Demasiado pessoais para os partilhar, até.

Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?

Seria como a ‘Guernica’ do Picasso, cheia de violência e paixão. Simbologias dispostas à interpretação de quem a visse.

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce?

Uma combinação dos múltiplos sabores e cheiros que pairam num mercado local, lá longe no extremo-oriente. Gosto do inesperado confronto de sabores que nos surpreendem, é isso que sentes quando entras num mercado em Macau. Acho que ‘Holy Nothing’ é fruto dessa multi-referenciação.

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que ficou na tua memória. Que música lhe associarias?

A “Pontos de Luz” da Gal Costa (album: Índia) tem um cheiro muito forte a mar.

Achas que a música pode ser um bom veículo para fixar e guardar memórias?

Sem dúvida. É também um excelente elixir catártico

Entrevista por Ana Isabel Fernandes

Foto de Luís Martins