Chama-se Mafalda Costa mas é através do alter-ego Mathilda que dá expressão ao seu universo musical. Alter-ego esse que, curiosamente, surge associado ao amarelo torrado, avisa-me, “ …porque as músicas que escrevemos não são felizes, não, mas também não são tristes – estão algures entre o ser e o não ser.”  Em novembro de 2017 dá-se o seu primeiro lançamento, “Lost Between Self Expression and Self Destruction”, em que podemos apreciar com ‘Infinite Lapse’, além do lado etéreo da melodia, a extensão aguda, segura e doce da sua voz. Faz uso da guitarra eléctrica, mas o som do ukulele  acaba por ser uma marca distintiva sua e, ao vivo, conta ainda com a participação de Gobi Bear. Vamos, sem demoras, conhecer os sentidos da música da Mathilda?

Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode atrapalhar ou, pelo contrário, ajudar?

Eu diria que os dois funcionam em conjunto. Uma melodia, uma letra, surgem da expressão de uma ideia, quer esta deva ser interpretada ou sentida. Mas sinto que nas músicas que escrevo é a emoção que predomina, essencialmente, por estas me serem tão pessoais. Tenho dito nos concertos que temos dado que as músicas são todas sobre mim, o que pode parecer brincadeira mas é bem verdade!

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer?

Não sou muito esquisita em relação àquilo que me diverte! Qualquer batida mais animada, ou uma letra mais “catchy”, cumprem o propósito (tenho uma queda para o indie-rock!). Mas também sou fã de géneros mais pesados, ou mais na onda eletrónica… gosto de tudo!

E aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato?

Música clássica, principalmente se for tocada em piano!

Achas que o facto da música ser invisível, não palpável, ajuda-a a ser mais intuitiva e, por conseguinte, ter uma outra relação com a nossa consciência?

Eu diria que sim. A relação que se cria com a música é tão pessoal, tão íntima… Acho que o facto de não ser visível só contribui para o impacto imenso que tem no nosso estado de espírito. A partir do momento em que entra pelos nossos ouvidos, torna-se nossa. Só nossa.

Já te aconteceu pensares numa imagem, num ambiente específico ou espaços enquanto compões?

Eu diria que acontece sempre que componho! Como já tinha dito, as letras das músicas são para mim a parte mais importante. Acho que isso acontece porque cada música tem uma história para contar, tanto sobre a minha vida, como da vida que imagino. São história que, quando conto (canto), espero que se desenrolem na cabeça de quem as ouve.

Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?

Amarelo torrado. Foi a cor que, sem querer, sinto que ficou associada à imagem da Mathilda e encaixa muito bem! Porque as músicas que escrevemos não são felizes, não, mas também não são tristes – estão algures entre o ser e o não ser. E, para mim, o amarelo torrado pinta-as na perfeição.

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce?

Doce, com um toque de amargo. Doce, no sentido em que tem que encaixar connosco, tem que nos ser agradável; mas agridoce para nos dar aquele toque, aquele refrescar dos pés à cabeça, que nos desperta,  que provoca uma reação!

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que ficou na tua memória. Que música lhe associarias?

Essa é difícil. Quando penso em cheiros, lembro-me logo de dois: o cheiro do perfume da minha mãe (que, para mim, é único) e o cheiro da gasolina (o meu favorito!). Ao cheiro doce da minha mãe, associo a “Blower’s Daughter” do Damien Rice. Acho que, inexplicavelmente, a define. À gasolina… assim de repente vem-me à cabeça o álbum “Rest” da Charlotte Gainsbourg – é quase tóxico e perigoso, de tão hipnotizante e dançável que é!

Achas que a música pode ser um bom veículo para fixar e guardar memórias?

Sem dúvida alguma. Eu posso dizer com toda a certeza que existe uma imensidão de músicas que bem podia ser fotografias do álbum imenso que tem sido a minha vida. Acho que essa talvez seja uma das particularidades mais belas da música – a forma como nos faz viajar, para a frente e para trás, de fora para dentro.

 

Fotografia da Susana Costa