Hoje, nos Sentidos da Música, a Ana Isabel Fernandes esteve à conversa com Primeira Dama, que é como quem diz o Manuel Lourenço.

Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode atrapalhar ou, pelo contrário, ajudar?

Ajuda sempre. A canção vale pelo momento em que é feita, pelo o que as pessoas fazem com ela

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer?

Golden Gal – Animal Colective.

E aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato?

Qualquer canção das Pega Monstro.

Achas que o facto da música ser invisível, não palpável, ajuda-a a ser mais intuitiva e, por conseguinte, ter uma outra relação com a nossa consciência?

Sim, claro!!! É o que faz da música a arte tão única e diferente das outras que é… desperta tudo sem ter forma facilmente descritível!

Já te aconteceu pensares numa imagem, num ambiente específico ou espaços enquanto compões?

Talvez, não consigo dizer. Geralmente, acho que as canções partem de ideias ou memórias “completas”, em que tudo isso se conjuga: sensações, imagens, momentos, ambientes etc. Se há devaneios ou momentos mais estritamente contemplativos é por falta de sobriedade que a idade nem sempre permite ter. Sendo cantautor não gosto deixar fugir o fio à história que estou a contar.

Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?

Não sei, deixo ao critério dos outros porque também só consigo fazer esse exercício em canções que não são minhas. Nas minhas, a memória e o conhecimento da história que está por trás toldam-me esse lado da imaginação. Mas também tenho a sorte de ser o único que viveu a canção na primeira pessoa.

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce?

Ácido, mas de uma forma boa, tipo aquelas gomas ácidas que todos nós enfardamos em putos.

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que ficou na tua memória. Que música lhe associarias?

Someday – The Strokes.

Achas que a música pode ser um bom veículo para fixar e guardar memórias?

Sim, não é o melhor (é o olfato) mas é muito bom. Há dois anos o meu pai, na altura com 44 anos, teve um enfarte do miocárdio massivo (daqueles em que 90% das pessoas morrem). Não só sobreviveu como teve danos cerebrais mínimos (quase inexistentes). Disse o neurologista que muito desse “milagre” se deve ao exercício cognitivo/cerebral que o meu pai teve ao longo da vida por ser músico. Por isso sim, acho que a música faz bem à saúde e, principalmente, à saúde mental!

Entrevista por Ana Isabel Fernandes

Foto de Rita Gaspar