Esta semana, nos Sentidos da Música, a Ana Isabel Fernandes esteve à conversa com de Turquoise ;-)

 

Agora é a vez de entrarmos no mundo sensitivo do vilacondense  André Júlio Teixeira, que lançou em Novembro o seu primeiro ‘EP’ a solo enquanto ‘de Turquoise’ — ‘Camomila’. A intimidade sussurrante dos temas é-nos apresentada, principalmente, através da sua guitarra e voz e, desta forma, nos surge o convite para apreciarmos uma expressão musical muito própria e pessoal.‘Turquoise’ significa turquesa, mas se André Júlio Teixeira pudesse pintar a sua música, diz-nos que seria através de um fractal multi-color. Vamos, então, conhecer ‘Os Sentidos da Música’ do André? Venham daí que só ficam a ganhar.

 Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode atrapalhar ou, pelo contrário, ajudar?

O lado racional tanto atrapalha como ajuda. Por vezes, é a razão que cria as condições para que um sentimento germine e, ao mesmo tempo, é a razão que impede que esse sentimento ou emoção floresça, num estágio mais avançado.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer?

Acho que, hoje em dia, a música electrónica tem esse efeito quase espontâneo quando me apraz. Pelo espectro sonoro contido nela, infinito de possibilidades tímbricas. Há música que consegue carregar o corpo de energia e torná-lo leve, sem peso até, refém dela.

E aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato?

A última resposta também responderia a esta pergunta. No meu caso, eu aprecio bastante a música progressiva, catártica, (chamando-lhe assim). Que não tem pressa de começar nem de acabar, que procura não dar informação racional (identificação) mas sim, precisamente, desligar-te dela, para ir de encontro ao sensorial. A música tradicional chinesa, por exemplo, tem esse efeito imediato no meu estado de espírito.

Achas que o facto da música ser invisível, não palpável, ajuda-a a ser mais intuitiva e, por conseguinte, ter uma outra relação com a nossa consciência?

Sem dúvida, não existe forma de expressão mais abstrata e poderosa do que a música. Talvez, também, por ser uma prova prática de que a realidade física como a conhecemos é conceptual. Sentimo-la, reconhecemo-la, mas na nossa concepção de realidade ela não é palpável. Emocionamo-nos com ela, ela toca-nos directamente, mas não a conseguimos agarrar, medir, nem pesar. Parece-me que a abstração como forma de expressão tem mais espaço para furar os campos do consciente em direção ao sub-consciente. Lá encontra-se tudo o que ser é desde o princípio da existência, logo a música também nos reflete isso.

Já te aconteceu pensares numa imagem, num ambiente específico ou espaços enquanto compões?

Muitas vezes. Uma viagem de comboio e ver a paisagem ficar para trás. Uma casa de madeira e o som de uma lareira a estalar, numa noite fria de inverno. Um barco à deriva seguindo a corrente de um rio.

Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?

Seria um fractal multi-color.

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce?

Agridoce.

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que ficou na tua memória. Que música lhe associarias?

(risos) Uma música muito parva. Squeeze theeze pleeze – Ode to a child. Uma memória recorrente que tenho dos meus 15 anos relativo ao aroma de um perfume que a minha primeira namorada me ofereceu.

Achas que a música pode ser um bom veículo para fixar e guardar memórias?

Sem dúvida. O som e, também, o olfacto são veículos para aceder a memórias bastante longínquas. Como este exemplo anterior. Lembro-me da primeira vez que me apercebi disso, e foi um momento intenso que me ficou guardado para todo o sempre. Encontrei um frasco de perfume guardado numa caixa em casa, muitos anos depois de a ter guardado. No momento em que a aproximei do nariz, instantaneamente fui catapultado para o passado e, momentaneamente, revivi toda a minha vida associada a esse tempo. Também com a música isso me acontece, mas de uma forma mais recorrente e premeditada até.  Por exemplo, escolher ouvir o “Shine On You Crazy Diamond” ,dos Pink Floyd, é para mim voltar para dentro da barriga da minha mãe e voltar a sair.

Acho que o olfato consegue penetrar ainda mais fundo na memória. São dois sentidos inteiramente ligados ao nosso instinto animal de sobrevivência.

 

Entrevista por Ana Isabel Fernandes

Foto de Francisco Lobo