Catarina Munhá, cantautora, é apaixonada pelo mundo musical. Podem facilmente vê-la a cantar acompanhada pelo ukulele, piano, guitarra, sintetizador, violino ou até pela pandeireta. Para além de ser médica, sempre teve o bichinho da música e confessa que sempre lhe foi natural escrever músicas. Talvez já tenham ouvido por ai a Canção-receita, Variável Independente ou até Isto de Ser Mulher. Houve um dia em que essas e outras composições saíram da gaveta para o Youtube e, desde então, a Catarina tem vindo a encantar com projetos e concertos. Virá um disco, em breve!


Numa manhã solarenga, encontramo-nos no jardim zoológico. Passeando pela zona dos restaurantes acabamos por escolher um banco junto ao lago e fonte como cenário para a nossa Pergunta da Sorte. Sentamo-nos, explico as regras do jogo e começamos a jogar. A Catarina lança o dado e avança 1 casa, indo parar ao número 1, onde nada acontece. Volta-se a lançar o dado e, seis casas à frente, vamos parar à casa da Carreira, onde as cartas revelam perguntas sobre a vida profissional da artista. A Catarina vira a carta que revela a primeira pergunta.

Carreira: O que menos gostas de fazer na tua profissão?

Catarina Munhá (C): Isso é difícil, porque neste momento eu tenho umas três profissões. Acho que fiquei a fazer só o que mais gosto em cada uma delas. O ano passado estava a trabalhar como médica a tempo inteiro, como interna de medicina geral e familiar. O que eu menos gostava na minha profissão não tinha a ver com a profissão em si, era a sobrecarga de trabalho. Sempre gostei muito daquilo que faço como médica. Gosto muito de ouvir as pessoas e perceber o que se passa com cada um. O que eu sentia era muita pressão em termos de tempo, e isso era o que eu gostava menos do trabalho como médica. Como música não sei bem, porque só agora é que comecei. Estou numa fase de muito entusiasmo e também tem alguma liberdade. Gosto de tocar em concertos, gosto de estar no estúdio a criar… ainda não descobri qual é a parte que menos gosto.

Andreia Monteiro (A): Então e qual é a terceira profissão?

C: É investigação e aí a parte que menos gosto é que é tudo pro bono (risos). É difícil encontrar trabalhos de investigação remunerados, mas é uma coisa que gosto muito de fazer e que acho que é muito importante colocarmos perguntas e fazer com que a ciência dê mais uns passos. Para termos tempo e recursos para fazer isso é preciso que haja investimento. Neste momento ainda estamos numa fase embrionária da investigação clínica, mas acho que está a melhorar.

Voltamos a lançar o dado e, quatro casas à frente, vamos parar a uma Pergunta da Sorte, em que posso fazer a pergunta que escolher na altura.

Pergunta da Sorte: Fala-me da tua relação especial com Zoos.

C: É uma relação ambivalente. Tenho um fascínio assim meio mórbido por jardins zoológicos. Desde pequenina, sempre adorei ver animais e gosto muito de animais e explorar coisas novas. Ao mesmo tempo, desde pequena que também me lembro de me sentir triste ou culpada por os animais estarem presos (risos). Então, é assim uma ambivalência que ainda não consegui resolver muito bem! Agora o zoo está um bocadinho diferente e tem mais espaço para cada animal, mas mesmo assim preferia que eles estivessem em liberdade, mas mesmo assim preferia que eles estivessem em liberdade. Só que assim também não os podia ver. Dai a relação complicada.

Respondida a pergunta é altura de avançar com o jogo, mas a Catarina parece ter uma dúvida.

C: E tu não respondes a nenhuma pergunta?

A: Não (risos). A não ser que vires o jogo ao contrário… dou-te total liberdade.

C: Ui! Tu não me dês total liberdade (risos).

Por entre risos o dado manda-nos avançar 3 casas, indo parar ao número 14, onde nada acontece. Voltamos a lançar o dado e, 4 casas à frente voltamos a parar no número 18.

C: Olha, nada acontece.

A: Que azar!

C: E se eu inventar uma regra em que sempre que calho num número te faço uma pergunta?

A: Está bem, pode ser (risos).

C: O que é que mais gostas de fazer com o Gerador?

A: As entrevistas da Pergunta da Sorte e as reportagens. Tudo o que meta pessoas e descobrir o que fazem, porque é que fazem e porque é que gostam do que fazem. Cada vez mais, acho que o que torna uma história rica são as pessoas. Aprendo imenso com elas, portanto é o que eu gosto de fazer.

C: Ai, isto assim é giro (risos).

Depois de a Catarina decidir virar o feitiço contra o feiticeiro, avança mais duas casas indo parar ao Sê Criativo, a casa que lança um desafio que o convidado tem de resolver de forma criativa.

Sê Criativo: Faz o trecho de uma música com as 5 palavras que te vou dizer.

Aproveitando o ambiente que nos circundava, uma ou outra coisa que sabia sobre a Catarina e um pedido de incluir, pelo menos, uma palavra difícil pensei em cinco palavras e anotei-as num papel: fonte, verde, animal, inverno e abcissa.

A Catarina pegou nesse papel e começou a fazer algumas anotações. Em menos de cinco minutos tínhamos música! Ouve tudo aqui:

Podes ainda ver o papel onde a Catarina rabiscou a letra desta música aqui:

Letra de música por Catarina Munhá

A: Acho incrível como conseguiste fazer isto em cinco minutos, se tanto! Se alguém me pedir para inventar uma música bloqueio logo.

C: Acho que é uma questão de nos libertarmos.

Voltamos a lançar o dado e, duas casas à frente, vamos parar ao número 22. Parece que vou ter de responder a uma pergunta novamente.

C: Porque é que começaste a tocar piano?

A: Antes tocava guitarra e gostava, principalmente porque era um instrumento que podia transportar facilmente. Mas não achei que fosse o meu instrumento. Sempre tive um fascínio pelo piano, porque acho que é um instrumento muito completo. Consegues fazer tudo com o piano sem precisar de mais nenhum instrumento e isso fascina-me. Então, um dia, decidi que era altura de ir aprender. Quis aprender no 10º ano e já não havia vagas, então voltei lá no 11º. Percebi logo na primeira aula que, sim, era mesmo aquilo!

C: É uma orquestra inteira.

A: Sim. Dá para fazer tanta coisa. Conheces o Júlio Resende?

C: Sim!

A: Eu sou fã e quando comecei a vê-lo tocar percebi que o piano ainda tinha mais potencialidade, desde a precursão… ele faz tudo! De repente, o piano também pode ser uma espécie de arpa quando ele se mete ali a brincar com as cordas. É um mundo!

Querida Pergunta da Sorte, será que podemos voltar à Catarina? Agora, o dado manda-nos avançar 3 casas, indo parar a uma Pergunta da Sorte. Parece que correu bem!

Pergunta da Sorte: Todos os dias acordas diferente e a mudança em ti é variável independente. Sabendo que não tens pressa de descobrir quem és, o que é que já descobriste?

C: Isso é engraçado, porque nem sempre as letras das canções são autobiográficas. Nesse caso é uma coisa que eu sinto. É aquela coisa de ser vários eus ao longo do tempo, de nunca ser a mesmo pessoa. Acho que o difícil, às vezes, é mesmo descobrir essa constante. Custa-me descobrir essa constância, porque gosto de explorar muita coisa diferente. Às vezes, isso baralha-nos em termos de identidade. Se gosto de tanta coisa diferente e vou mudando aquilo que faço, então na realidade o que sou eu de base? Mas  essa mudança também faz parte de mim, e descobrir isso foi bom. Deu-me uma sensação de identidade.

A: Mas já fizeste paz com isto de seres mulher? (risos)

C: Isso é muito bom! (risos) Acho que já fiz relativamente paz com isto de ser mulher. Nessa canção falo um bocadinho de que uma coisa é eu ser isto que sou, outra coisa é ser o que a sociedade acha que deve ser mulher. Com isso talvez não tenha feito muita paz, no sentido em que acho que esses estereótipos não fazem muito sentido. No final da canção faço a mesma coisa para o homem. “Não fiz paz com esta coisa de ser rapaz”, porque acho que isto não é um problema só das mulheres. Temos géneros muito vincados e isso não me faz muito sentido. A canção é uma provocação.

Também em jeito de provocação o dado manda avançar 5 casas, indo parar a mais uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Onde foste buscar esta relação com a música? Começou muito cedo, não foi?

C: Não te sei dizer muito bem. Os meus pais não tiveram educação musical formal, mas o meu pai gosta muito de música. Tocava guitarra e fez uma canção, mas só descobri isto mais tarde. Mas, por acaso, na nossa geração – eu, o meu irmão e as primas da minha idade – mesmo sem termos pais que fossem músicos, todos saímos a tocar algum instrumento. Agora, porque é que isto aconteceu? Não sei (risos). Mas lembro-me de, com cinco anos, começar a chatear os meus pais para tocar piano. Lembro-me de me porem a ouvir o Pedro e o Lobo em pequenina e eu ter medo da parte do Lobo. Lembro-me de ouvir bastante música desde criança. Não sei se foi isso, mas sempre tive muita vontade de tocar e não foi uma coisa imposta de fora.

Neste jogo o dado impõe-se e manda-nos avançar mais 5 casas. Vamos ter à casa da Carreira.

Carreira: Se não precisasses de dinheiro para viver, o que estarias a fazer profissionalmente?

C: Basicamente, aquilo que estou a fazer. A minha decisão, no ano passado, foi um bocadinho isso. Arrisquei um bocadinho mais do ponto de vista económico, mas decidi largar um trabalho a tempo inteiro com salário fixo ao final do mês por uma coisa mais irregular. Dou algumas consultas, mas são esporádicas. Tornei-me freelancer, o que implica mais alguma insegurança do ponto de vista económico. Mas estou muito feliz com esta decisão e faria o que estou a fazer, embora precise de dinheiro para viver.

É altura de avançarmos duas casas e… temos mais um Sê Criativo!

C: Olha, mais uma das tuas maluqueiras!

Sê Criativo: Um amigo teu está triste porque partiu uma unha. Que playlist lhe recomendarias? (Sugere, no mínimo, 5 músicas).

C: Ele partiu uma unha? Diria o Everybody Hurts dos R.E.M., Melhor Do Que Parece, de uma banda que gosto chamada O Terno, uma peça simples de piano para ele tocar, visto que tocar guitarra com uma unha partida é mais difícil, mas não sei bem qual. Podia ensinar-lhe um Minuet de Mozart, daquelas que se aprende no início, sabes?

A: Sim (risos).

C: Faltam-me duas. Não tem nada a ver, mas sugeria-lhe o Mambo No. 5 do Lou Bega, porque acho que é uma música que é difícil uma pessoa continuar triste quando a ouve. Por fim, You’ve got a friend, do James Taylor, porque tens uma unha partida.

A: De certeza que fica mais animado!

Animado está o nosso dado que, 4 casas à frente, nos leva a mais uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Sempre inventaste canções que ias pondo na gaveta. O que te levou a tirá-las de lá?

C: Pessoas, na verdade. Várias pessoas. Não te sei dizer porquê, mas as últimas canções que fiz, comecei a tocá-las mais em casa deles, e houve um bocadinho de motivação quando começaram a cantar as letras e a pedirem-me para pôr as músicas no YouTube. Pensei, porque não? Mas nunca na vida pensei. Depois, houve outra amiga que pegou nos meus vídeos e foi espalhar a sua magia. Quando o Hélio Morais me ligou, que hoje em dia é o meu manager, a dizer-me para gravarmos um disco… não sei. Acho que foi o conjunto desse processo, calhando numa altura em que tinha decidido tirar um ano mais leve. Parece que as coisas se encaixaram. Foram essas circunstâncias que me fizeram tirar as músicas da gaveta. Começou tudo com uma brincadeira.

A: Que é a melhor forma de começar!

Aqui a brincadeira também continua! Voltando a lançar o dado avançamos 6 casas indo parar novamente ao número 47. Ou estou com pouca sorte, ou a Catarina tem queda para me fazer perguntas.

C: Além da música tens mais alguma vertente artística na tua vida?

A: Tenho… demasiadas!

C: Ai! Agora vais ter de dizer!

A: Pintura e desenho, teatro, escrita… acho que gosto de tudo o que seja Arte. São tantas as coisas que às tantas me esqueço, mas tudo o que possas pensar que seja artístico, interessa-me. Não me ajeito minimamente em crochet e essas coisas. Nunca experimentei escultura, mas gostava. De resto, melhor ou pior, fui experimentando.

C: Por isso é que gostas da abcissa (risos).

A: Sim!

Voltando à nossa convidada maravilhosa, esta avança 3 casas e vamos parar a mais uma Pergunta da Sorte! Parece que desta vez o dado foi mais meu amigo.

Pergunta da Sorte: Qual é o teu processo para compor músicas?

C: Acho que depende um bocado da fase da vida. Nos últimos tempos sinto que há qualquer coisa que vai sair. É uma espécie de bola de pelo que está aqui encravada, algures entre o estomago e o esófago. Sinto uma vontade de deixar sair alguma coisa e, normalmente, sai tudo de enfiada – a letra, a melodia e, mesmo que não tenha nada para tocar os acordes, ao menos tenho a sensação da função harmónica que está ali por baixo. Geralmente a maior parte delas é assim, ao mesmo tempo a letra, melodia e harmonia. Ultimamente, por estar a trabalhar com mais músicos à minha volta, tem-me surgido mais a questão do ritmo, que não pensava tanto no meu processo criativo.

O dado também vai compondo o nosso jogo, levando-nos cada vez mais próximo da Casa Gerador. Duas casas à frente vamos parar à casa do Pessoal, onde as cartas fazem perguntas sobre a vida pessoal do artista.

Pessoal: Qual é a primeira coisa que fazes ao acordar? E a última ao deitar?

C: Isto é mesmo difícil de dizer, porque eu não sou muito boa com rotinas. Vario bastante. Mas diria que a primeira coisa que faço é espreguiçar-me. Às vezes faço umas posições de yoga na cama, que eu gosto. Outras vezes não tenho tempo para isso. Ou então é carregar no snooze. A última ao deitar… acho que lavar os dentes é a mais constante (risos). Às vezes leio, ou posso ver alguma coisa numa rede social, ou mandar uma mensagem a alguém, porque às vezes durante o dia não consigo responder às pessoas.

Damos uma última oportunidade ao dado, mas este manda-nos avançar 6 casas. Assim, chegamos à Casa Gerador, a casa final do jogo, onde a entrevistada irá responder a uma pergunta do convidado anterior e deixar uma pergunta para o próximo. Ainda se lembram da pergunta do Rui Neto? “Se pudesses escolher um superpoder qual seria? Se bem que eu preciso de deixar hipóteses, ok? Hipótese 1: voar. Hipótese 2: ser invisível. Hipótese 3: ter o dom da cura. Hipótese 4: seres imortal. E a última hipótese, leres os pensamentos de toda a gente”. Podes rever a pergunta do Rui aqui.

Vê o vídeo em baixo para saberes qual a pergunta que a Catarina deixou para o próximo convidado da Pergunta da Sorte! Vemo-nos em breve! ;-)

 

Entrevista por Andreia Monteiro