João Botelho, realizador, conta com filmes na praça pública desde 1976, com “O Alto Cobre”. Estudou cinema no Conservatório Nacional e Engenharia Mecânica na Faculdade de Engenharia da Universidade de Coimbra. Ultimamente tem-se focado na realização de clássicos da literatura portuguesa como o Filme do Desassossego, Os Mais ou Peregrinação. Hoje podem vê-lo numa vertente um pouco diferente, na festa dos 25 anos do CCB, onde vai ser DJ!


Encontro-me com o João Botelho junto ao quiosque rosa do jardim do Príncipe Real. Depois de uma breve pausa para o café, vamos sentar-nos numa mesa que João diz ser uma daquelas onde os reformados vão jogar às cartas e onde podemos estar mais descansados. Enquanto monto o tabuleiro de jogo uma senhora aborda o João e pede-lhe um cigarro, que este disponibiliza sem pensar duas vezes. Acende agora o seu cigarro enquanto lhe explico as regras da Pergunta da Sorte. Por fim, o João lança o dado e avançamos 4 casas indo parar à casa do Sê Criativo, a casa que lança um desafio que o convidado tem de resolver de forma criativa. Começamos em beleza com o João a virar a carta que revela a primeira pergunta, numa das casas mais desafiantes deste jogo.

Sê Criativo: Faz o trecho de uma música com as 5 palavras que te vou dizer.

João Botelho (JB): Nem pense! Eu não sei fazer música (risos).

Andreia Monteiro (AM): Pode ser só a letra de uma música.

O João lá cedeu e decidiu que ia responder ao desafio. Era, então, hora de escolher cinco palavras. Comecei por escolher a mais óbvia, cinema. Depois queria uma cor, mas não queria que fosse uma qualquer. Por isso, perguntei ao João qual era a sua favorita e assim chegámos à segunda palavra, vermelho. As restantes fluíram mais facilmente: CCB, jardim e jogo. Passei a folha onde apontei as cinco palavras ao João. Ele pensou, pensou, e o resultado foram estes dois versos que podes ouvir em baixo.

AM: Está ótimo! Voltamos a lançar o dado.

O dado volta a ditar que avancemos 4 casas, indo parar a uma Pergunta da Sorte, em que posso fazer a pergunta que escolher na altura.

Pergunta da Sorte: No dia 10 de julho é um dos artistas convidados para a festa dos 25 anos do CCB. Qual é a melhor recordação que tem neste espaço?

JB: Essencialmente a construção arquitetónica. As pessoas, no início, acharam que era demasiado monumental, mas eu acho que os arquitetos foram bons e é um espaço de fruição de várias artes, que é muito engraçado. Algumas vezes, tem coisas comerciais a mais, que são menos interessantes, mas é um belo edifício. Devia de estar uns dez metros mais à direita, por causa dos Jerónimos, mas pronto ficou bem. A última recordação foi uma grande performance de bailado que foi notável. Mas estreei lá dois filmes meus, passei lá bons momentos, quer de música, quer de cinema, quer de bailado, quer de performances. É um bom sítio.

AM: Mas hoje vai fazer de DJ, não é?

JB: Ah, isso é uma pequena maluqueira que me pediram. De vez em quando faço. Gosto de música eletrónica. Não fiquei nos anos 80. Gosto da música contemporânea, eletrónica. Oiço assim muitas coisas. Eu sou do tempo em que havia a discussão entre os Beatles e os Rolling Stones. Eu sou dos Rolling Stones, não dos Beatles. Mais tarde fiz uma pausa em relação à música. Vieram outras coisas, vieram três filhos. Aqui na parte final da minha vida divirto-me muitas vezes, danço e ponho música.

O dado dança pelo tabuleiro fora e manda-nos avançar 6 casas, levando-nos ao número 14 onde nada acontece. O João volta a lançar o dado. 3 casas à frente vamos parar à casa da Carreira, onde as cartas revelam perguntas sobre a vida profissional do artista.

Carreira: Se não precisasses de dinheiro para viver, o que estarias a fazer profissionalmente?

JB: Cinema. O cinema não dá um tostão (risos).

Depois de uma resposta tão decidida volta-se a lançar o dado que nos leva até ao número 22, o que significa que, mais uma vez, temos de voltar a lançar o dado. Agora avançamos 2 casas e voltamos a calhar num Sê Criativo.

Sê Criativo: Tens aqui 8 formas. Podes usá-las e repeti-las da maneira que quiseres e não tens de as usar todas. Em dois minutos cria uma imagem artística.

Passei uma folha branca ao João para servir de tela para a sua composição. De entre oito formas, optou por apenas duas. Vê o resultado da sua composição em baixo.

Composição com duas formas por João Botelho

AM: Há alguma coisa que nos queria dizer sobre esta composição?

JB: Eu gosto dos construtivistas, dos russos dos finais dos anos 10/ 20 do século passado. Acho que quanto mais simples a ocupação do espaço na folha branca… fiz muitas capas de livros e a ocupação do espaço numa folha branca é uma coisa delicada. Isto não é uma vela, mas é a ideia de a estrela vermelha formar o preto.

Avançando com o jogo, o dado não é muito nosso amigo. Vamos parar ao número 28, 4 casas à frente, onde nada acontece. Voltando a tentar a nossa sorte, vamos parar ao número 34. Este dado não está do nosso lado.

AM: Estamos com muito azar!

JB: Estamos com muita sorte!

Vamos ver se desta vez o dado fica do nosso lado. Manda-nos avançar 1 casa e vamos parar a mais uma pergunta sobre a Carreira!

Carreira: O que gostavas de fazer que ainda não tiveste oportunidade de concretizar?

JB: Visitar alguns sítios mágicos. Houve uma altura em que tinha medo de andar de avião. Convidaram-me para vários sítios, sobretudo quando tinha os filhos pequenos, e não ia. Gostava das pirâmides do Egito, ver Constantinopla e talvez as pirâmides mexicanas.

AM: E aproveitar isso para fazer algum filme ou era só para passear?

JB: Era para os olhos!

De olhos postos no dado, este dita que avancemos 2 casas, indo parar a mais um Sê Criativo. Parece que o João tem queda para esta casa.

Sê Criativo: Pensa no teu número da sorte. Sem falar, conta-nos uma história em x passos.

O João optou por nos desenhar uma história em sete passos, uma vez que admitiu não saber fazer mímica. Começou por escrever o número 7. Pensou um pouco e depois, com alguma desenvoltura, escrevinhou o resto do desenho, ao qual acrescentou uma frase, que podes ver em baixo.

História em 7 passos por João Botelho

AM: Como surgiu esta ideia?

JB: Da poligamia! (risos)

Podemos seguir jogo. 4 casas à frente temos direito a mais uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Numa entrevista revelou que era um plano realizar longas-metragens baseadas em clássicos da literatura portuguesa. Já tem ideia de qual será o próximo clássico a ser trabalhado?

JB: Sim, vou continuar. Vou fazer O Ano da Morte de Ricardo Reis, de Saramago.

AM: Já sabe quando vai sair?

JB: Não, ainda estou a escrevê-lo, depois há concursos. Em princípio, para o ano.

AM: É uma obra que admira?

JB: É assim, o cinema em Portugal é precário. Se não houver apoio do Estado, o cinema não existe. Eu acho que tenho uma missão, a partir de certa altura na minha vida, que é devolver ao Estado o apoio que me dá, fazendo serviço público. São textos fundamentais na literatura portuguesa. Há neste momento uma luta contra o esquecimento. As pessoas leem cada vez menos. As pessoas escrevem em frases curtas ou o que lhes vai na cabeça e não há muita paciência para ler romances, mas são obras maravilhosas. São textos literários, mas podia ser Amadeo Souza Cardoso, ou o Zé Relvas, o fotógrafo. Há muita gente. Mas é muito importante. Os livros em que estou a pegar são, normalmente, os integrados no ensino do liceu. Acho que é preciso chamar à atenção para obras. Se calhar, o melhor romance do século XX, que é o Desassossego, o melhor do século XIX que são Os Maias. Fiz a Agustina, que adoro. Fiz o Frei Luís de Sousa. Agora apetece-me pegar num texto muito bem escrito pelo José Saramago. Há livros que são mais importantes que outros. O Memorial do Convento é um grande livro, mas é complicado de filmar. O Ano da Morte de Ricardo Reis é um encontro fantástico entre Saramago e Pessoa e é uma Lisboa terrível. O livro não é só desse encontro, mas sobretudo sobre uma questão terrível do século XX que é o início do Fascismo, a Guerra Civil de Espanha, a ascensão do Hitler. O Saramago fez um trabalho notável, que foi diariamente, um caderninho, em que anotou todos os acontecimentos em Portugal e no Mundo, criando assim um mundo magnífico onde a narrativa funciona.  E depois tem outra coisa que é a história da compensação da morte. Quando nascemos, temos os meses de gestação em que estamos na barriga da mãe, e ele permite que o Pessoa, durante os nove meses, ou devido a um esquecimento total, ande ai a ajustar contas com o Mundo. Isso aí é muito engraçado. Aqueles nove meses do início e os nove meses do fim. É uma ideia magnífica sobre o nascimento e o esquecimento. Normalmente quando as pessoas morrem é uma tristeza para as pessoas que ficam, mas ao fim de nove meses a vida continua e há essa ideia magnífica do esquecimento. Pessoa não foi esquecido, pelo contrário. Só que há uma altura em que ele morre e cai no esquecimento e só renasce a memória dos seus textos. Não é muito importante o que as pessoas fazem na vida, o importante é o que deixam feito. Pessoa é conhecido mundialmente depois do Livro do Desassossego. Só em 1982 a 1984 é que nasceu a primeira versão deste livro. Havia conhecimento do Pessoa um bocadinho na língua francesa, italiana e no Brasil. Mas os anglo-saxónicos, nada. O primeiro livro de uma antologia poética do Pessoa, que saiu em Inglaterra, tem na capa o meu ator. Já foi depois da Conversa Acabada, ou seja, depois de 1980. Só a partir do Desassossego é que o Fernando Pessoa fica o ícone deste país.

AM: Quando se tratam estes clássicos como é que se escolhe quais os episódios que vai retratar num filme?

JB: É a coisa mais difícil que há. O que se deixa ficar e o que se deita fora é uma escolha. O cinema tem uma particularidade que as pessoas ainda não perceberam. O cinema não são narrativas, nem o que se passa, ou quando se passa. É como se filma. O mesmo texto na minha mão e na sua dão dois filmes diferentes. É um ponto de vista, e portanto é o meu ponto de vista sobre aquele texto, a minha escolha, a minha posição de camara, a minha escolha dos textos. Nunca é igual. Pessoas com o mesmo texto podem fazer cem filmes diferentes.

Voltamos a lançar o dado e avançamos 1 casa indo parar à Carreira.

Carreira: O que menos gostas de fazer na tua profissão?

JB: O cinema não é uma profissão, é uma paixão. Mas o que eu menos gosto de fazer no cinema são as refeições durante a rodagem. Acho que é uma perda de tempo (risos).

Sem perder tempo chegamos a mais uma Pergunta da Sorte, 6 casas à frente.

Pergunta da Sorte: Numa entrevista disse que “a felicidade é a capacidade de, sem muito ceder nas convicções, nos adaptarmos às circunstâncias”. Pode falar-me um bocadinho sobre isto e o que o levou até esta conclusão? 

JB: É possível, mesmo em situações adversas, reagirmos bem. Ou seja, termos uma posição justa. O cinema é uma questão moral, mas a vida também o é. Por exemplo, nesta fase da minha vida não me zango com ninguém. Vou-me embora, vou comprar cigarros (risos). A sério. Não são as discussões importantes e pelas quais vale a pena lutar, são as questões de quezílias pequeninas que não valem a pena. É andar. E há ai outra coisa fundamental que é o respeito pelo outro. Somos todos diferentes. Há uma coisa que é genial no ser humano. Eu não sei o que a menina está a pensar, ninguém sabe, ninguém entra no outro. Portanto, é respeitar o outro e ao mesmo tempo, quando o outro não merece o respeito, ir comprar um cigarro (risos). É ir tomar um café e aparecer passado uma semana ou três dias. O tempo é que decide se a coisa é importante ou não. Sobretudo, a vida é tão precária que é um prazer. Se não houvesse morte, a vida não tinha interesse nenhum. Portanto, é gozar a vida com liberdade, mas com um limite que é não incomodar ninguém e ser justo nas situações, ser honesto, não ser cínico, mas ao mesmo tempo não ceder, fazer as coisas em que se acredita. Se eu filmar a minha rua, filmo-a melhor que a sua, porque a conheço melhor. As coisas em que se acredita não se devem prender às condições dos outros. Eu nunca fiz um filme para ninguém. Fiz um filme o melhor que sei. Depois, mostro ao maior número possível. A ideia é que as condições tendem a não ser atiradas e afirmadas. Eu não vou fazer um filme para, vou fazer um filme porque gosto de filmar.

Na reta final do jogo o dado ainda nos dá a oportunidade de virar mais um cartão do Sê Criativo, 3 casas à frente.

Sê Criativo: Um amigo teu está triste porque partiu uma unha. Que playlist lhe recomendarias? (sugere, no mínimo, 5 músicas).  

JB: Sunday Morning dos Velvet Underground. Miss Otis Regrets (She’s Unable to Lunch Today), que é a história de uma senhora que vai bater à porta doutra para convidá-la para almoçar e vem uma criada dizer que ela não pode ir almoçar, porque acabou de matar o marido. É uma canção cantada pela Ella Fitzer, que é notável no modo de cantar. Depois, o número 3 da Fábrica do Michael Mayer, que é notável. A noite transfigurada do Schoenberg, uma música que começa numa cacofonia e acaba numa melodia doutro mundo. E, o Meu Amor Marinheiro cantado pela Carminho.

Na esperança de ainda calhar numa casa para a conversa não acabar já, lançamos o dado mais uma vez. Manda-nos avançar 3 casas, a conta certa para calharmos na Casa Gerador, a casa final do jogo, onde o entrevistado irá responder a uma pergunta da convidada anterior e deixar uma pergunta para o próximo. Ainda se lembram da pergunta da Margarida Vila-Nova? “Se fosse Primeiro-Ministro qual era a primeira decisão que tomava?”. Podes rever a pergunta da Margarida aqui.

Vê o vídeo em baixo para saberes qual a resposta do João e a pergunta que deixou para o próximo convidado da Pergunta da Sorte! Vemo-nos em breve! ;-)

Entrevista por Andreia Monteiro
O Gerador é parceiro da Festa dos 25 anos do CCB