Júlio Resende, compositor e pianista, é natural de Faro e começou a tocar piano aos 4 anos, mas rapidamente percebeu que ser apenas um intérprete de peças musicais em que não possa improvisar não lhe era suficiente. Por isso, aventurou-se pelo Jazz. Hoje estende o seu trabalho a outros géneros musicais, como o Fado. Vê os discos dele aqui.

No edifício principal da Gulbenkian encontramos uma mesa redonda de vidro e uns cadeirões vermelhos. Esse pareceu ser o sítio certo para o primeiro jogo da Pergunta da Sorte. Sentámo-nos, expliquei as regras do jogo e começamos a jogar. O Júlio lança o dado e avança 6 casas. Fomos parar à casa da Pergunta Rápida, onde temos cartas com perguntas de sim ou não que têm de ser respondidas sem pensar muito. O Júlio vira a carta que revela a primeira pergunta.

Pergunta Rápida: Fá ou Dó?

Júlio Resende (J): Fá.

Andreia Monteiro (A): Muito bem, agora podes lançar o dado outra vez. Este é o ritmo do jogo.

Desta vez o dado faz-nos avançar 5 casas e leva-nos à Pergunta da Sorte, em que posso fazer a pergunta que escolher na altura.

A: Ok, então vamos começar por onde? Acho que vou começar por esta.

Pergunta da Sorte: Normalmente quando uma pessoa toca piano cinge-se às teclas brancas e pretas. Mas quando tocas até as cordas usas. Podes revelar o que é que estás a fazer quando tens uma mão nas teclas e a outra nas cordas?

J: Estou a prender as cordas e elas fazem um som mais percutido. Menos pianístico, mais corda. Mas ao mesmo tempo também vive com os harmónicos do piano e da caixa-de-ressonância do piano.  Acho que é um som giro. A mão está lá para tapar as cordas que eu estou a tocar com a outra mão. Com uma das mãos carrego nas teclas e com a outra mão pressiono as cordas em que os martelos estão a bater. Parece complicado, mas não é. É mais uma questão de usar isso de um modo que possa ser musical.

Seguimos para a próxima e avançamos 4 casas. Mais uma Pergunta Rápida!

J: Ah! Eu gosto de perguntas rápidas.

Pergunta Rápida: Primeiro o leite ou os cereais?

J: Leite.

A: Eu também sou das que mete primeiro o leite.

J: Há malta que mete primeiro os cereais.

A: E que leva a mal quem mete primeiro o leite. (risos)

J: Epah, para mim o pior que existe é a malta que come o ovo no final e que come só a parte da gema do ovo. Essa malta para mim são pessoas com quem não se consegue estar em lado nenhum, porque cria uma certa impressão. Mas não vou falar dessas pessoas agora.

Esta resposta, caro/a leitor(a), é para gozar com a entrevistadora que tem práticas pouco comuns na ingestão de um ovo estrelado. Mas isso são outras conversas. Siga jogo! Mais 3 casas e chegamos ao número 18, onde, tal como todas as outras casas com números, nada acontece. Mais um lançamento de dado e avançamos duas casas até ao Sê Criativo, a casa que lança um desafio que o convidado tem de resolver de forma criativa.

A: Ai que bom! Gosto tanto disto. Vira lá o cartão para vermos qual é o desafio.

Sê Criativo: Um amigo teu está triste porque partiu uma unha. Que playlist lhe recomendarias? (sugere, no mínimo, 5 músicas).

J: Bob Marley, Stir it up. Jack Johnson, pode ser o Better Together ou qualquer coisa desse género. Sugeria…huuumm… para alguém que partiu uma unha. Se fosse um álbum era mais fácil. Sílvia Pérez Cruz, Paloma. Faltam-me duas. Jeff Buckley, pode ser o Hallelujah. E por último para ele descontrair podia ser Keith Jarrett, I Got It Bad and That Ain’t Good. Não foi fácil, mas foi giro.

A: Pode ser que ele recupere do grande problema existencial que tinha.

J: Joga lá tu por mim.

Lancei o dado e avançamos 4 casas, indo para… novamente Sê Criativo!

Sê Criativo: Pensa no teu maior defeito. Agora desenha-o e eu adivinho qual é.

J: Ai, que cena brutal!

A: Tens aqui uma folha e canetas e agora é ser criativo.

O júlio pensou, pensou e lá tirou uma caneta de cor avermelhada. Começou a esboçar aquilo que parecia ser uma espiral. Este foi o resultado final:

Desenho do maior defeito, por Júlio Resende

Agora cabia-me tentar adivinhar o dito defeito.

A: Isto é uma espiral. Não sei, pode ser pessimista. (o Júlio acena que não com a cabeça) Pensas demasiado, és negativo. Também não. Complicado? Tens uma mente complicada!

J: Também dava. (risos) Estás a chegar lá. Não era aquilo que eu tinha, mas se calhar até ficou melhor. Mas queres continuar?

A: Como tu fizeste mais escuro no fundo parece uma coisa que não tem fim, mais tenebrosa, abismal.

J: Queres que eu te diga?

A: Sim!

J: Egoísta.

A: A sério? (risos)

J: Sim, mas está próximo dessa coisa que disseste do complicado. Sinto-me alguém egoísta no sentido de ser autocentrado. Uma pessoa que anda muito às voltas no seu próprio mundo, muito dedicado a isso e com pouco espaço para o que não seja isso. Não é um mau desenho, acho até que o vou guardar. Mas acho que ajudaste. Sou egoísta numa certa medida, não no sentido muito grave do termo, mas no sentido do autocentrado. Mas complicado talvez seja mais… giro. O que é que vês mais ai? Estava a gostar do que estavas a ver.

A: Quando começaste pensei logo que era uma espiral, também pensei que podias ir para o caracol e que isso podia ser uma fobia qualquer. Associo sempre isto a uma coisa escura. Depois, é engraçado que escolheste esta cor castanha avermelhada.

J: Ah isso foi por… Ah! A verdade é que eu escolhi, é verdade. Mas nem vi muito bem. Escolhi a menos luminosa, talvez.

A: É curioso, porque estás vestido com essa cor também. Portanto, se calhar é a tua cor favorita…

J: Não é, não é. Mas é giro isso tudo que tu dizes.

A: Eu acho que o vermelho é uma cor forte, uma cor de muitos sentimentos, muita luta. Portanto, de certa forma, acho que faz sentido de acordo com o significado que tu me explicaste.

J: A única coisa boa disso é que felizmente não fechei isto (aponta para a espiral). O processo artístico vai de fora para dentro. Sinto-me muitas vezes no sentido de fora para dentro da espiral e quando estou a tocar é ao contrário, de dentro para fora. Este desenho é muito engraçado, porque tem a dimensão do autocentrado, mas também pode vir nesta direção (de dentro para fora), só que pronto tem estas voltas todas.

A: Eu acho que ele não acaba nem para um lado nem para o outro, apenas se desenvolve para lados opostos. Aqui (de dentro para fora) para um sítio mais livre e aqui (o centro da espiral) não acabaste. Fizeste uma coisa escura como que representando a profundidade, não é? Afundas-te mais num lado e libertas-te mais do outro.

J: Sim.

Assim podemos continuar a jogar. Duas casas à frente e nada acontece. É tempo de respirar de alívio. O dado volta a rodar e leva-nos, cinco casas à frente, até a uma casa nova – Carreira, onde as cartas revelam perguntas sobre a vida profissional do artista.

Carreira: Qual o trabalho que mais gostaste de fazer até hoje?

J: Acho que posso dizer que foram os concertos com o Salvador.

A: Porquê?

J: Porque não é só com ele, é também com outros amigos e, de repente, podemos tocar música que já tocávamos antes para muita gente e com muito interesse por parte das pessoas. Ver as pessoas a absorverem a música com aquele entusiasmo todo foi muito gratificante para qualquer um de nós – eu, o Salvador, o Rosinha ou o Pedroso. E os muitos concertos que fizemos, e havemos de fazer mais, tornaram-nos numa família. Cada um de nós goza muito com cada concerto, há muita liberdade para cada um de nós. Também gosto dos meus concertos, mas às vezes sinto-me mais sozinho.

A: É bom ouvir isso, porque estive em dois desses concertos. O do CCB e do Estoril.

J: Boa! Estiveste em dois concertos especiais. Estiveste no CCB no primeiro ou segundo dia?

A: No segundo.

J: Desse segundo dia vai sair um disco novo ao vivo e vai dar em bons momentos.

Vamos então continuar! 4 casas à frente.

J: É assim?

A: Por acaso acho que nos engamos em qualquer altura a andar nas casas.

J: Pois é, mas o que é que eu fiz?

A: Não faz mal, corrigimos isso mais à frente.

Pergunta da Sorte: Tens uma ligação com o Fado e prova disso é o teu último álbum. O que é que o fado e, em particular a Amália, têm de especial para ti?

J: Muito, muito, muito, muito, muito. O Fado não só é um género musical com o qual eu simpatizo, como faz parte da minha condição enquanto português. Por isso, tem sido gratificante trabalhar para ele, por ele e com ele. E a Amália foi uma grande honra ter tocado com ela neste abraço metafísico e ser a primeira pessoa a poder usar a voz dela e poder ser um pouco dela e estar com ela e repetir isso nos concertos. As entidades de Fado e a Amália são muito importantes para mim. Agora és tu!

Lanço o dado e com 3 casas chegamos a outro Sê Criativo.

J: Mas espera, espera, espera. Antes disso. Há bocado saiu-te aquela coisa, então agora tens aqui uma folha (risos) para desenhares o teu maior defeito, podes escolher qualquer cor daqui e eu vou adivinhar qual é.

A: Ui, está bem. Portanto a entrevistadora agora está a ser entrevistada. Muito bem.

Faço o desenho que se segue:

Desenho do maior defeito, por Andreia Monteiro

J: Este é o teu maior defeito, é isso?

A: É um dos, sim.

J: Pronto, a ver se eu entendo. Isto é um espelho e isto são pedaços de espelho partido. São cortantes. O espelho partido é cortante, é agudo. Não tem de ser necessariamente um defeito. A questão de ser cortante, há muitas coisas que cortam, porque é que tem de ser um espelho? Não gostas de ti?

A: Não é bem isso, mas anda lá perto.

J: Não me digas que não te achas bonita?

A: Não tem a ver com isso.

J: Podia ser o Narciso ao contrário. Não gostas do modo como te vês? Porque é que o espelho se parte? Vês-te ao espelho e alguma coisa o faz partir. Ou é um gesto físico ou é a sensação que o espelho recebe de ti. Se for um gesto físico podia dizer que eras uma pessoa violenta (risos). Gostas de partir espelhos? (risos) Estou a brincar. É alguma coisa que não gostas? Não sei… queres dar-me mais pistas?

A: Estiveste muito próximo. O espelho é um reflexo de ti e, como todas as imagens, é uma perspetiva da realidade que nunca vai ser a realidade. Fiz isto para representar o facto de que a forma como me vejo, normalmente não é igual àquilo que os outros acham de mim. Sou muito perfeccionista. É fraturante porque a minha imagem não liga com o que eu sinto.

J: Pode não ser um defeito.

A: Mas é, porque eu levo-o ao cúmulo de se tornar num.

Mas o Júlio não se escapou deste novo desafio, não senhor. Então bora lá!

Sê Criativo: Muahahah Hora do desafio!!!

A: Esta carta dá-me uma maior liberdade para fazer o que quisermos com os meios Vou fazer um enigma. Temos seis copos, todos iguais, em que os 3 primeiros têm líquido e os últimos 3 não. Tens de fazer com que fiquem alternados – líquido, vazio, líquido, vazio e assim sucessivamente. Para isto só podes pegar num copo e num movimento fazer com que isto aconteça. Como fazes?

J: Huum… Não sei e estou demasiado cansado para conseguir pensar mais.

A: Este enigma é feito não para testar a inteligência, mas sabendo que o nosso cérebro está formatado de uma forma em que ouvimos coisas, ou pomos condicionamentos, em coisas que não foram ditas. O que tens de fazer é pegar no segundo copo, verter o líquido no penúltimo copo e voltar a pousar o copo. Só mexes um copo e é só um movimento.

Enigma dos copos

J: Estava aqui a pensar que podia realmente tirar do sítio e verter, mas que não podia voltar a colocar no sítio. Porque achei que isso seriam dois movimentos, o da ida e o da volta. Mas, sim, podes considerar isso tudo como um movimento. Mas pronto, segue!

Desta vez o dado dita seis casas à frente e temos mais uma…

Pergunta da Sorte: Numa entrevista disseste que a Amália canta com o coração e que qualquer artista o deve fazer. Para ti é o jazz que te permite tocar com o coração?

J: Não. O que me permite tocar com o coração é o coração. Alguma coragem para estar sem a mente a supervisionar todos os teus movimentos e a encarcerar o teu coração em filtros de comportamento ou sabe-se lá o quê. Tocar com o coração implica também tocar com tudo o que tens cá dentro. Eu sou tímido e tocar assim implica libertares-te dessa timidez e ter coragem de assumir – Olha sou isto! Mas não é fácil. Consigo fazer isso a tocar, mas não consigo fazer isso depois noutras coisas. Mas isso são segredos meus. (risos)

De seguida o dado só avançou uma casa.

Sê Criativo: Faz o trecho de uma música com as palavras que te vou dizer.

Olhei à minha volta e pensei em cinco palavras que anotei num papel, algumas delas foram escolhidas a partir dos títulos do jornal que o Júlio tinha: espiral, tudo, piano, sentimentos e sorte.

J: Eu vou cantar, não vou escrever.

O Júlio decidiu trautear Smile, ouve tudo aqui:

J: Foi o que me apeteceu cantar a partir daqui.

Duas casas à frente, pude fazer mais uma pergunta à minha escolha.

Pergunta da Sorte: Fora o piano quem é o Júlio Resende?

J: Jogador da bola, um bocadinho bicho-de-mato, autocentrado, leitor, amante da beleza, um bocadinho solitário, um bocadinho cinéfilo, mas não intelectual. E gosto de comer bem, gosto de coisas bem feitas. Gosto muito de me tratar bem. Continuo a ir à cantina, mas ao mesmo tempo também gosto de me tratar bem e ir comer ao Sheraton.

A: A parte do futebol eu nunca pensaria.

J: É a coisa que mais gosto de fazer depois de tocar. E não sou mau, estive quase para ser jogador da bola.

Lança o dado e sai o número 4.

Sê Criativo: Pensa no teu número da sorte. Sem falar, conta-nos uma história em x passos.

A: Já agora qual é o teu número da sorte?

J: Podemos dizer 10. Não tenho nenhum número da sorte, mas foi o número que me lembrei. Pronta?

Vê a história que o Júlio nos contou em 10 passos neste vídeo:

Quatro casas à frente é altura de virar mais um cartão.

Carreira: Qual foi a maior peripécia que te aconteceu num dia de trabalho?

J: Foi quando a Amália não entrou. Nesse dia toquei aqui, na Gulbenkian, e era um concerto muito importante. Era a primeira vez que tocava na Gulbenkian em meu nome, com sala esgotada. No último tema, no tema com a Amália, ela nunca entrou. Tive de improvisar muito. Mas ficou bem e foi para o disco. Em vez de se chamar Medo chama-se Enfrentar o Medo. Vá joga ai a ver se calhamos no azul.

O azul é a casa do Pessoal, onde as cartas fazem perguntas sobre a vida pessoal do artista. Parece que não foi desta.

Pergunta Rápida: Rir ou sorrir?

J: Rir. Não é uma coisa que faça muito. Acho que sorrio mais, mas rir é melhor ainda.

Mais quatro casas e chegamos a mais uma Pergunta da Sorte.

J: O azulinho era o quê?

A: São perguntas pessoais.

J: Já disse bastantes coisas pessoais, mas a gente já arranja maneira de ir ai (risos).

Pergunta da Sorte: Quais as maiores diferenças entre o Augustus Search e o Júlio?

J: São várias. É um tipo mais cool, que eu não acho que o seja. Mas há uma parte de mim que no verão anda de calções e blusa de alças para todo o lado. Por mim até tocava assim, mas é um bocadinho chato, pelos vistos, ir a concertos assim vestido. Exceto de rock. Ele nasceu na América, que era o sítio onde eu devia ter nascido, porque os meus pais iam para lá trabalhar, mas depois decidiram que não iam. Estive a tocar nesse sítio onde era suposto eles terem ido viver, Provincetown. É um sítio muito português nos Estados Unidos. Mas eu não conheço o Augustus Search ainda tão bem quanto conheço o Júlio Resende. Ele é um rapaz mais novo, ainda se está a descobrir.

O dado diz que devemos avançar 3 casas, mas para a casa do Pessoal só precisávamos de duas… aldrabamos?

Pessoal: Qual é a tua primeira memória dos tempos de criança?

J: Passa muito pelo piano, o teclado. Correr, jogar à bola. O tocar em algum sítio, em casa com um teclado portátil. Não é nada de muito espampanante.

Faltam duas casas para chegarmos ao fim. O dado manda avançar uma. Calha no 52, nada acontece. Volta-se a lançar e sim! Chegamos à casa Gerador. Esta é casa final do jogo e onde o entrevistado deixa uma pergunta para o próximo convidado.

J: Foi muito fixe! Foi a melhor entrevista de sempre! Com grandes desenhos…

A: E ainda temos de deixar uma pergunta para o próximo.

Vê o vídeo em baixo para saberes qual a pergunta que o Júlio deixou para o próximo convidado da Pergunta da Sorte! Vemo-nos em breve! ;-)

Entrevista por Andreia Monteiro