Uma cidade, um bairro, um festival, mas muitos muros até lá chegar. Como assim? Vais a Marvila? De comboio? Acompanhada de uma fotógrafa de câmera ao peito? Estas são as perguntas que imaginamos a mãe da Patrícia fazer-lhe num dia bom. Num dia mau não a deixaria sequer sair de casa. Mas ela foi e o que lá viveu traz apenas uma grande ideia: vão a Marvila que aquilo é o novo spot de Lisboa.

Dos muros que nos unem

Saí de casa à descoberta. O destino era Marvila, que ficava bem mais perto de mim do que aquilo que eu pensava. Sim, são só duas estações de comboio de Entrecampos a Marvila. Lá fui eu, de mãos nos bolsos e a fazer figas. É que aos olhos de muitos, ir àquele bairro podia ser arriscado.

Saí da estação e o mural do artista Zezar Bajamonte não deixava enganar, já tinha chegado ao Festival Muro. Zezar veio de Espanha e pintou um Double Double Bass, duas pessoas a tocar baixo a quatro mãos. Zezar é filho de Espanha, nasceu perto de Sevilha, mas foi em Montevideo, no Uruguai, que se dedicou a pintar murais. E não podia ter representado melhor esta celebração – é que este ano, o Festival Muro integrou-se na celebração de Lisboa como Capital Ibero-Americana da Cultura.

Dei uma primeira volta pelo bairro e foi impossível ficar indiferente ao olhar de Cacique Raoni, no mural do Eduardo Kobra, do Brasil. E mesmo ao lado a oferenda da fauna e da flora ibero-americana da Kruella D’Enfer, uma das artistas portuguesas a participar no Muro. Mais à frente, parei para ver Heart of Gold, o mural da GLeo, artista colombiana.

Subi a rua e a festa já ia mais do que animada, com o grupo de Capoeira Beija Flor. Juntámo-nos ali e foi a primeira vez que o Muro nos uniu. O músico Noiserv chegou e levou-nos, aos do bairro e aos de fora, numa viagem. O sol punha-se por trás do mural do Hazul e sobre o rio Tejo. Não fosse eu sentir os pés no chão e diria que estava num videoclip.

No segundo dia juntei-me à visita guiada. Descobri o índio do artista Steep, do Equador, e a obra do The Caver, artista português, que representou a amizade verdadeira e autêntica com o homem e o seu melhor amigo – o cão. Mais à frente, a obra do Cix Mugre faz referência a Maria ou Madre de Dios, com um elogio à força da mulher nas culturas ibero-americanas. Passámos pelo Kramer, que ainda estava a finalizar aquelas mil e uma caras no mural. Quando lhe dissemos adeus ele gritou lá do alto: “vocês também estão aqui!”

E seguimos caminho para o Bairro da Quinta dos Salgados, onde vimos os murais do MAR e do RAM, que quase se tocam no chão da rua. A mesma rua onde o DJ Riot fechou a tarde, com músicas que incorporavam samples das vozes de Marvila e que nos diziam que “Marvila, para mim, é tudo” e que “só se está bem aqui”. O concerto juntou crianças, jovens e até os mais velhos que, ainda que não dançassem, sorriam às janelas.

No último dia de Muro, decidi pôr as mãos na massa, ou melhor, na tinta. Comecei cedo, num workshop com o Youth One, e, enquanto me perdia entre as latas, passou a Orquestra Original Bandalheira, para darmos um pé de dança.

Duas senhoras passavam por mim enquanto uma dizia à outra: “Anda! Que tens de vir ver os desenhos”. Já os senhores, debruçados sobre o Hall of Fame, comentavam o movimento do fim de semana. Eu perguntei se estavam a gostar e eles contaram: “Ó menina, só espero é que não estraguem estas coisas bonitas que estão aqui a desenhar”. Na mão, tinham fotografias antigas do bairro, onde se viam as barracas e o antigo edifício que existia no local onde é hoje a Biblioteca de Marvila. “As coisas melhoraram muito, menina, já não é como antigamente”.

Cheia de fome, entrei no Pulha, um restaurante do bairro, e foi lá que, enquanto esperava por uma bifana, encontrei a Carmen, de Madrid. A antropóloga, a trabalhar um mês em Lisboa, contou: “Queria fazer uma coisa diferente e acabei aqui. Fiquei muito surpreendida com o que vi”. Na parede do restaurante podia ler-se a frase de Pessoa: O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Bateu tudo certo, ou não fosse a arte urbana tão efémera.

E era difícil ter sido mais intenso, especialmente para os artistas do bairro. Quando viu que iam pintar as paredes do seu bairro, LS pediu logo à organização para participar. Pintou a cara de uma mulher com os padrões e cores da família ibero-americana: “Eu queria que ela tivesse um olhar penetrante e que as pessoas se perdessem a olhar para ela”. Mas não foi o LS o único artista da casa a ter palco no Festival Muro deste ano.

João Carvalho ou “O Baterista”, como é conhecido por aquelas bandas, foi convidado pelos PAUS para tocar, num dos momentos mais altos do festival. No recreio da Escola Básica de Marvila, os PAUS continuaram a festa e a chuva até ameaçou parar o concerto. Mas o Quim Albergaria pediu-nos para chegarmos até eles e para fazermos um “manguito” à chuva. Assim fizemos. Os aplausos foram mais que muitos, especialmente os dirigidos ao João.

Depois do concerto, a chuva chegou em força. Mas nem por isso as pessoas foram embora. Sentámo-nos todos a beber imperiais e a ver a final da Taça de Portugal. Já não éramos os de fora e os de dentro de Marvila, o bairro afinal é de todos. Para a próxima já não venho a fazer figas, pensei eu. É que Marvila, a mais nova galeria de arte urbana de Lisboa, só me trouxe novos amigos e um sítio diferente para passear em Lisboa.

Texto da Patrícia Roque
Fotos da Andreia Mayer