A Claúdia Ferreira Henriques fala-nos da Susana Tavares e da Tomoko Suga na Revista Gerador de Novembro. Agora, publicamos algumas das palavras que trocaram, aqui mesmo ;-)

 O verdadeiro chocolate

Quando uma portuguesa de Viana do Castelo e uma japonesa de Quioto sonham, o mundo pula e avança (como diria o poeta), ou neste caso, o grão de cacau transforma-se em delicioso chocolate. Na Feitoria do Cacao, em Aveiro, Susana Tavares e Tomoko Suga são as protagonistas de uma aventura muito doce.

Quem são a Susana e a Tomoko?

São duas amigas que se conheceram em 2012, num café, da Quinta do Picado (Aveiro) onde morávamos antes. A Tomoko nasceu e cresceu em Quioto. Com 18 anos, mudou-se para Tóquio para tirar um curso de estilismo, depois acabou por tirar outro curso de ilustração também. Por problemas de saúde e com algumas dúvidas, desistiu do mundo da moda e do design. Com 24 anos, começou a aprender cantar, como hobby, e aceitou o convite de um amigo para cantar num clube à noite. Uma noite, depois de cantar, a dona do clube, que era cantora clássica, comentou que a sua voz ficaria bem com o fado. Foi nessa altura que começou a ter interesse pelo fado e por Portugal. Em 2000, veio para Lisboa para aprender fado e gastronomia portuguesa. Como gostou tanto de viver em Portugal, ficou. O amor levou-a para Lamego e em 2007 mudou-se para Aveiro. Os pais da Susana são de Aveiro, mas o casal vivia em Viana do Castelo, onde nasceu e cresceu. Foi para o Porto para tirar o curso de Biologia e Geologia na Faculdade de Ciências do Porto. Depois de terminar o curso, mudou para Aveiro, para onde os pais, entretanto, tinham regressado. Depois de 12 anos a trabalhar numa empresa multinacional, chegou o desemprego e com ele a oportunidade de começar uma nova carreira.

Porquê o nome Feitoria do Cacao?

Nós, uma portuguesa e uma japonesa, que importamos o cacau das diferentes origens, produzimos o chocolate, e exportamos para outros países. Assim o nosso trabalho é literalmente como uma feitoria no mundo actual.

Optámos pela palavra CACAO, não CACAU, porque a espécie é Theobroma cacao e como nos desejávamos posicionar no mercado internacional, cacao era a forma mais universal, nada estranha para os portugueses (latim) e que mais sentido fazia.

Como chegaram a esta ideia?

As diferenças entre o mundo dos consumidores de chocolate e o mundo dos produtores de cacau são enormes. Quando regressámos [de uma visita às roças de Cacau, em Cabo Verde], fizemos alguma pesquisa e descobrimos que tinha surgido a nova geração de chocolate, bean to bar, em que se produz o chocolate desde o grão de cacau até à tablete, de forma artesanal, em pequenos lotes. Tudo nas mesmas instalações.

As pessoas compreendem e valorizam o vosso produto? 

Cada vez mais. A quem visita a nossa loja, explicamos o processo de produção e damos a provar todos os chocolates que temos. Sendo assim, ou só desta forma, a maioria das pessoas compreende e valoriza o nosso produto. A conquista de alguns prémios internacionais também tem ajudado bastante. A reação do público, sobretudo português, mudou. Tivemos várias oportunidades mediáticas, que nos permitiram explicar o que nós fazemos, não só falar sobre a qualidade do chocolate, mas também sobre o conceito e a filosofia do nosso projeto. Agora, as pessoas compreendem melhor o nosso trabalho e valorizam mais o nosso chocolate. Antes dos prémios não era muito fácil.

 O chocolate ainda é o amigo secreto, sempre disponível para todos os momentos?

Claro que sim. É um amigo que encanta, desperta, alivia e conforta… e quando o tentamos escutar, até nos conta o seu próprio segredo. Mas para nós já não é amigo secreto, é o amante oficial (que tanto nos apaixona).

 

Entrevista por Cláudia Ferreira Henriques, a nossa autoridade local no Litoral.

A Autoridade Local é uma rubrica da Revista Gerador onde vamos à procura daquilo que de melhor se faz na cultura portuguesa. Mas quem somos nós para o dizer? Pedimos, por isso, ajuda àqueles que sabem mesmo da região onde vivem.

Ilustração de Marcos Martos.

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