Valute, um espetáculo do ator Rui Neto com interpretação de Margarida Cardeal, vai estar em cena de 14 a 23 de dezembro na Comuna Teatro de Pesquisa. É um lugar imaginário e invisível onde tudo é possível. Talvez seja o lugar da morte, talvez seja Valute.

As luzes baixam escurecendo as cadeiras vermelhas e o palco. O silêncio ocupa a sala de espetáculos. O fumo invade o palco. Uma voz – “To be, or not to be? To die”. O medo, o susto, o desconforto invade o espetador. Uma silhueta que não é a de um homem, de uma mulher ou de um bicho, mas de tudo ao mesmo tempo começa a surgir. Está vestida de preto e com uma saia de tule que enche a cena e revela um braço, depois oito. Há a tristeza pela morte de Hamlet, sem razão de ser, porque não há qualquer proximidade.

Hamlet, a personagem enigmática de Shakespeare, é a mais presente em todo o monólogo de Rui Neto. Esta personagem vive de perguntas sem resposta e de um luto, pelo seu pai, que não consegue resolver acabando por gerar mais mortes.

No café da Comuna, Rui Neto explica que o regresso ao texto Luto, de 2012, surge da vontade de apresentar uma criação sua, ainda este ano. Porém, não se sentia inspirado para apostar numa criação totalmente nova. “De repente pensei, porque não voltar ao meu primeiro texto? Foi o primeiro texto que escrevi, que encenei, e achei que era naquilo em que poderia recuperar outras imagens e estéticas um bocadinho diferentes. Não sei se quem viu o Luto ia achar que estava a ouvir o mesmo texto. Acho mesmo que ganha uma lógica diferente. Não é só a mudança estética, acho que se convoca aqui outras coisas”.

Por saber que queria fazer algo completamente diferente, a primeira coisa que mudou foi o nome do espetáculo. Não poderia continuar a intitular-se de Luto. “Gosto muito da brincadeira do luto de lutar e luto de estar de luto. Percebi que o que quer que eu escolha tem de ter essa propriedade. De repente pensei, luto, luto, luto, vá luto. Vá luto? Não, vá lute. Valute! É um sítio, não é? O título é o sítio do espetáculo, é um território. Foi esta dramaturgia que foi sendo criada”.

“De repente pensei, luto, luto, luto, vá luto. Vá luto? Não, vá lute. Valute! É um sítio, não é? O título é o sítio do espetáculo, é um território”
Rui Neto

Rui Neto revela que foi a morte do seu avô que o levou a começar a escrever este texto. A sua preocupação inicial era de que o espetáculo não se tornasse num confessionário em que precisasse de extravasar as suas emoções do luto. Neste momento, com todas as inovações cénicas que introduziu no espetáculo está a trabalhá-lo sem qualquer ligação a esse evento. “A diferença é essa, libertei um bocadinho o peso do luto”.

Houve outras alterações como a personagem ser interpretada por uma mulher, o que veio trazer um maior distanciamento da proposta original. A personagem encontra-se num Purgatório, não está na vida nem na morte, mas sim no limbo. “O facto de ser uma mulher trás uma outra sensibilidade. Não que o outro intérprete, o Miguel Damião, não o fizesse muito bem, mas trazia outra carga. Trazia uma carga mais física até porque não estava neste tipo de estrutura que condiciona. Então havia um esforço físico, uma tentativa quase de superação do corpo. Aqui é o contrário, o corpo já evoluiu. Já é mutante, já tem outra forma”.

Confessa que o seu universo criativo parte, muitas vezes, do cliché – “eu gosto de partir do cliché e que o resultado depois não o seja”. Inspira-se nos universos dos filmes de ação, dos super-heróis da Marvel ou até no Son Goku. “Pode olhar-se para ali de uma perspetiva teatral, mas para mim também é o mutante da Marvel que ingeriu um líquido e que tem oito braços, vai atacar o mundo e a existência a partir de agora vai ser totalmente diferente. Há um universo do fantástico que eu gosto. Daí também o Valute. Para mim esta experiência do Valute é uma experiência mais fantástica”.

Margarida Cardeal, © Roger Madureira

A atriz escolhida foi Margarida Cardeal. Rui achou que seria a pessoa certa para este desafio por uma questão de energia que não consegue explicar. “O facto de me ter cruzado há pouco tempo com ela num trabalho fez-me pensar que era esta voz, este corpo, esta forma de estar no teatro e na vida que me interessa ter aqui no espetáculo”. Por sua vez, Margarida conta que já achava muito interessante os projetos artísticos que Rui estava a desenvolver e quis experimentar “ir para esta zona”.

A nível cénico não sabia o que iria surgir, foi algo construído em tempo real e que foi levantando algumas questões. “O que é que eu vejo aqui? É uma mulher, como resolvo isto? Quem é ela, de onde vem? Acho que foram as opções que foram sendo tomadas ao longo do processo que contribuíram para a montagem final”. Por isso, aponta algumas complicações logísticas. A certo ponto percebeu que queria mãos a saírem daquela saia, mas não podiam ser mãos mortas. Tinham de ser mãos de atores, tinham de ter sensibilidade. Mas será que os atores não ficariam chateados por apenas serem vistas as suas mãos? Esta foi uma das questões que foram surgindo ao longo do processo.

Margarida Cardeal define a sua personagem como sendo mulher, homem, bicho e mais uma quantidade de coisas que não consegue nomear. “Tenho dificuldade em encará-la como uma personagem, porque a sensação que eu tenho é que isto é uma voz. Não tem propriamente um género, não faz parte exclusivamente de uma espécie. Não é por ser híbrido ou difícil de definir. É porque acho que nos abarca a todos nas várias tonalidades que temos dentro de nós. Por isso é todas as coisas, é essa a ideia”.

“Tenho dificuldade em encará-la como uma personagem, porque a sensação que eu tenho é que isto é uma voz. Não tem propriamente um género, não faz parte exclusivamente de uma espécie”
Margarida Cardeal

Para Rui o luto é uma forma de sobrevivência. Conta que aquando da morte do seu avô houve uma altura em que se sentiu obrigado a se metamorfosear noutra coisa para saber lidar com o que se estava a passar. É necessário fazer um ajuste emocional e físico, pois toda a estrutura enquanto pessoa é abalada. “Questionava muito a minha posição como ator. O que é que eu estava a fazer? Há pessoas que morrem. Vou mascarar-me e ir para o teatro fazer não sei o quê? Para que é que isto serve? Esse questionamento fez-me também escrever este texto. O luto obrigou-me a lutar, dai ter descoberto essa dualidade da palavra”.

Foi assim que pensou que se não estava satisfeito com o que existia, então teria de criar trabalhos e dizer aquilo que pensa. “Ninguém me pode parar, ninguém me pode parar! Que é uma parte do espetáculo. Há esse ímpeto para não me esquecer do que é importante. A  energia é mesmo a de tu te metamorfoseares para estares com mais energia, garra e luta para aquilo que precisas de fazer e continuares. Porque senão é do tipo, ai não vou sair do sofá nunca mais e apagas-te”.

Margarida ainda está à procura do papel do luto neste espetáculo. “Espero nunca encontrar essa resposta, pelo menos enquanto estiver a fazer o espetáculo. Se fosse espetador talvez pudesse ter acesso à resposta. Do lado onde estou não sei qual é o luto. Deixo isso à consideração de quem assistir para que possa levar consigo a leitura que quiser e fazer com este luto o que bem lhe apetecer”.

Mais do que o luto pela morte de um terceiro, Valute fala-nos da nossa morte em vida. “Há um exercício desse pensamento do que é a morte para mim, como é a minha própria morte? Onde é que me encontro na minha própria morte?”.

Margarida Cardeal, © Roger Madureira

Como maiores desafios deste espetáculo Margarida destaca a quantidade de texto que tinha de decorar e o estar sozinha em cena. O processo não está a ser difícil, “creio que as dificuldades se prenderam com questões técnicas – o decorar, dizer tudo certinho, poder interagir com todas as outras mãos que fazem parte do espetáculo. Emocionalmente é qualquer coisa nova para mim, porque nunca tinha feito. Vou descobrindo à medida que vou desbravando este texto e este espetáculo”. Portanto, o que mais tem dado luta é o não deixar que tensões, medos ou o pânico tomem conta de si, para que o prazer de interpretar o monólogo venha ao de cima.

Margarida revela que só no final desta experiência é que vai conseguir perceber o que é que este espetáculo realmente lhe acrescentou. “Há uma série de coisas que me estão a ser entregues através da prática do espetáculo. Claramente me parece que o que eu era antes é completamente impossível continuar a ser depois de passar por uma viagem destas. Certamente está a clarificar uma série de coisas sobre mim nos dois campos, humano e profissional. Está a ser uma oportunidade muito rica de crescimento nestes níveis. Concretamente, acho que só depois da viagem acabar e passar uns dias, uns meses é que me vão chegando as reais consequências de passar por uma coisa destas, os reais acrescentos”.

Rui espera que o espetador saia do espetáculo com uma questão que o teatro, as palavras ou a imagem tenha levantado. “Não só por ser bonito ou fazer rir, mas por ser importante. Enquanto espetador custa-me ver coisas que parece que quem as fez não teve nenhum ponto de vista, ou espetáculos que não têm nem pai, nem mãe e são feitos nem sei porquê. Se são uma questão comercial ou de oportunidade. Não sei. Mas custa um bocado. Mas que encontrem um sentido e achem válido, isso para mim é o mais importante”.

Ressalta ainda sentir que, cada vez mais, não há casa para o teatro. As companhias dissiparam-se, os novos artistas ainda estão à procura do teatro que fazem. “Parece que ainda está assim tudo um bocado desligado, um bocadinho rarefeito e fragmentado. Era fixe as pessoas começarem a criar laços e dizerem: isto foi importante para mim, vou guardar. Aquela pessoa é importante, ou aquela companhia é importante, e ires sublinhando essa importância. Se não for assim acho que o público não se renova, porque não vai ficar captado para ver uma espécie de espetáculo que cada vez mais se distancia das tecnologias”. O teatro obriga-nos a sair de casa. Não pode ser visto no computador, não é confortável. Mas traz algo que as tecnologias não conseguem trazer. Faz-nos pensar, ouvir e relacionar com toda a partilha que está a ser feita. “Era fixe que as pessoas se conseguissem relacionar. Acho que isso era importante. Sem ter de, enquanto criador, falar de coisas que não têm nada a ver com o teatro para chamar público”.

Margarida Cardeal, © Roger Madureira

A atriz espera que consigam ascender à proposta de entregar um lugar mágico todas as noites. Mas revela que há mais. “Acho que isto é teatro, sabes? Numa forma muito pura da aceção do termo do que é teatro, fazer teatro. Não é por acaso que aquela voz está contínua e constantemente a questionar isso. Isto é teatro? Isto agora sou eu? Agora se me pudessem ver, se pudessem ver o quão frágil eu estou. Mas agora vou falar sobre Hamlet. Então agora isto já é outra coisa, já é uma personagem. Não só me parece que isto é teatro, ou uma tentativa de raciocínio sobre esta arte, como creio que a revela ao longo do espetáculo nestas dinâmicas: agora estou a representar, a fazer de conta que tenho uma voz nasalada e que falo assim. Mas a seguir estou a dizer-vos que só consigo sentir uma melancolia estranhíssima. Viaja nestas duas nuances, no faz-de–conta e no profundamente verdadeiro. Acho que é um espetáculo interessante e vale a pena assistir por isso. Porque às tantas, como esta voz também diz, já não sei de quem duvidar, ou seja, já não sei se o teatro também não é verdade”.

Não é um espetáculo para rir ou distrair a cabeça. Assalta o coração, rouba o fôlego e dá um murro seco no estômago. Faz-nos suspirar de esperança, mas também tremer e chorar de dor e ansiedade. Fala-nos da dependência de tantas palavras vãs, de não se dizer o que se pensa, de ninguém ouvir ou entender. Reflete sobre o que alcançamos, como sendo mitos ou hologramas do que já não existe. Porém, é o lugar onde estamos hoje que vai permitir existir o lugar do amanhã. “Viva o erro!” Vamos fugir para recomeçar do zero, mas valerá ainda a pena? Acima de tudo, é um espetáculo que nos faz levantar estas e outras perguntas importantes e repensar a vida que se leva e a luta pela própria sobrevivência. “Isto não é ficção, isto é a vida real”. Vá, lute. Valute.

Texto por Andreia Monteiro