Ter consciência do despreparo humano perante a inevitabilidade de uma profunda crise climática e ambiental, em termos planetários, sugere uma especial reflexão em torno de áreas, até agora pouco atendidas, como será o caso da ecopsicologia. As doenças somaterráticas e psicoterráticas. O luto ecológico. O síndrome de deficit de natureza. A nostalgia, a saudade e a solastalgia ecológica. O síndrome do despertar ecológico. A Ecoansiedade.”

O trecho foi retirado da sinopse do livro Isto não é uma Invenção – Ecoansiedade e o Futuro do Planeta. A obra de Paulo Vieira de Castro será lançada no próximo dia 27 de maio, e é um dos destaques do Festival Mental, que este ano versa a ecoansiedade, somatização e depressão.

Em entrevista ao Gerador, o autor do livro explica a importância de reconhecer um problema que ainda é desvalorizado, e que considera poder vir a agravar-se no futuro. Diz temer “que venhamos a ter uma grande ‘depressão verde’”, e recomenda aos jovens que se refugiem na sua “tribo” para combater as frustrações inerentes à luta pela sustentabilidade. “Precisamos de pensar a comunidade e a comunidade tem de ser mais colaborativa”, sublinha.

Gerador (G.) – Antes de mais queria que começasse por me explicar: o que é a ecoansiedade?

Paulo Vieira de Castro (P.V.C.) - Talvez fôssemos por fases. Em primeiro lugar, falar a propósito da ansiedade. A ansiedade é qualquer coisa que nos é muito útil. Toda a gente tem ansiedade, ela serve para nos dar estrutura. Contudo, quando falamos em ecoansiedade, estamos a falar de uma ansiedade crítica, digamos assim, uma ansiedade que, de facto, para quem a tem, se transforma num grande transtorno, num grande desconforto. Ou seja, ultrapassamos aquilo que podemos considerar um nível de ansiedade normal e estamos já no nível de ansiedade crítica, que nos deixa bastante desconfortáveis. A questão da ecoansiedade tem que ver com aquilo que podemos considerar que é central, quando pensamos em pessoas que sofrem desta ansiedade crónica ou crítica, perante a perda da natureza, ou seja, perante aquilo que nós consideramos um despertar ecológico, e perante aquilo que nós chamamos um síndroma de défice da natureza, a pessoa desperta para esta realidade, desperta para estas questões. De facto, nós vivemos já com défice de natureza há dezenas de anos. Quando as pessoas entendem isto e têm dificuldade de lidar com esta questão, muitas vezes atingem níveis muito elevados de ansiedade daí que se fale de ecoansiedade. Resumindo, a ecoansiedade será um medo crónico de perda da natureza.

(G.) –E quais são os sintomas desta ecoansiedade?

(P.V.C.) - Estamos a falar de ansiedade e eu gostaria de falar numa outra questão. Já lhe falei de um défice de natureza, de um "síndrome de despertar", digamos assim - ou seja, a pessoa "acorda" para este tipo circunstâncias e tem dificuldade em lidar com elas. [Há] outro aspeto que é contemporâneo de tudo isto, que é o luto ecológico. Estamos a falar da falta de resiliência emocional ou de uma circunstância desconfortável ao nível da resiliência emocional – mas, antes de falar do luto ecológico, gostava de chamar a atenção para o facto de que, quem escreve a introdução do livro é o professor Eduardo Carqueja, que é um dos grandes especialistas nacionais da área do luto ou da perda, portanto, é uma pessoa que está à frente de um centro hospitalar, na área da oncologia, e ele lida todos os dias com a morte e com o luto.

De facto, quando falamos do luto ecológico, estamos perante uma circunstância única quando pensamos no luto em si. Este défice de natureza é consequência de aspetos relacionados com todos nós. Todos nós, uns mais e outros menos, contribuímos para esta falta de conexão com a natureza, porém, quando se trata do luto ecológico, ainda existe algum preconceito. Ou seja: se eu lhe disser que morreu a minha mãe, ainda que me tinha conhecido há cinco minutos, está solidária comigo, certo? O que acontece [aqui] é que estamos perante um luto que é provocado por todos, mas as consequências disso mesmo [são enfrentadas no meio] privado, ou seja, neste momento, quem sofre desta perda, e quem vive o luto ecológico, é quase que, em resultado de um preconceito, obrigado a viver [isso] sozinho, porque ninguém lhe reconhece o direito a tê-lo. Portanto, estamos perante consequências resultantes de um esforço que é público, de todos nós, mas este luto é vivido pelas pessoas de forma privada. O que significa que aumentamos mais ainda a tensão em termos de ansiedade. Nós estamos a falar de uma ansiedade elevada, crítica, funcional. Todos nós já sentimos a ansiedade que vem por causa do reconhecimento deste despertar ecológico, mas, do ponto de vista do luto pela perda da natureza, as pessoas sentem-se obrigadas a viver este luto sozinhas. Eu diria que é imoral que não se olhe para estas questões de uma forma mais aberta e mais consciente.

(G.) – Mas isto acaba por ser algo que não afeta todas as pessoas da mesma forma, correto? Ou seja, é algo que também está ligado a uma vertente cultural, de como os países encaram as alterações climáticas e a sustentabilidade?

(P.V.C.) - Eu compreendo quando fala da questão da cultura... Naturalmente que, para nós, que vivemos numa zona em que ainda somos pouco afetados por isso, ou seja, que vivemos numa zona rica do planeta, nós podemos achar que é cultural, mas agora imagine que [você] é um migrante que vem de um país africano, onde, de facto, estas alterações climáticas acabam por lhe retirar o direito de viver. Uma questão muito simples: se pensarmos no Algarve daqui a cinco anos, vamos perceber o que é que vai ser viver no Algarve, por via destas alterações climáticas.

De algum modo, para nós, que vivemos na pólis, afastados destas alterações - mesmo aqui, em Portugal, nós podemos dizer que isso não existe - mas basta começarmos a chegar a África para perceber que, de facto, as alterações [climáticas] lá, também são críticas. Nós vemos mares a desaparecer, rios a desaparecer.... portanto, hoje é entendido como uma questão cultural, mas as pessoas, se pensarem bem, [perceberão que] vai deixar de o ser a breve trecho.

Nós já sentimos, embora de uma forma ténue, essas alterações. Ainda não estamos numa situação crítica, mas, à nossa volta, se olharmos bem... Muitas destas migrações vêm também de países onde já existe essa pressão. Claro que muitas delas não são só derivadas de alterações climáticas tout court, muitas delas são vítimas também da própria industrialização e da poluição resultante daí, mas, de algum modo, vai resultar no mesmo.

(G.) –Como é que avalia a consciência coletiva da população em relação a este assunto? Há muita gente, digamos “imune” à ecoansiedade, na medida em que não tem a preocupação da sustentabilidade?

(P.V.C.) - Aqui há dois aspetos: por um lado, aquilo que poderá ser a narrativa dos media. Por outro lado, aquilo que é a ação que já acontece, a ação pelo clima, iniciada pelos mais jovens.

[No que respeita] à narrativa dos media, eu apelo à elevação quando tratamos destes assuntos. Nós temos, por um lado, uns media mais liberais, digamos assim, que entendem isto como assunto colateral, mas depois temos os media mais populares. Veja: hoje em dia, os media que têm maior atenção – e refiro-me a qualquer suporte, a qualquer plataforma – são aqueles que vendem a desgraça, ou seja, quanto pior estiver o mundo, melhor, porque eles têm mais atenção e acabam por vender melhor os seus anunciantes.

No livro, eu faço este exercício sociológico: sentei-me ao computador, no dia 8 de março, e durante 30/45 minutos fui ver, no mundo, o que é que se dizia sobre estas questões, das alterações climáticas. Fiquei assustado. Se eu tivesse chegado ao mundo naquele 8 de março, naquela hora, e tivesse partido do mundo passado 45 minutos, eu iria absolutamente assustado, iria possivelmente derrotado. Portanto a questão é [colocada de forma a dar a entender] que não há solução, não há futuro. Eu, aqui, apelo à responsabilidade da comunicação social para a elevação daquilo que é o entendimento destas problemáticas. De facto, isto não é uma invenção, é real, temos um problema em mãos, temos de o resolver, mas não podemos fazer disto uma telenovela. Não podemos fazer com que isto entre na esfera do espetáculo.

Capa do livro Isto não é uma invenção - Ecoansiedade e o futuro do planeta, de Paulo Vieira de Castro

Nós já temos um problema com as notícias: é que os meios de comunicação não dão notícias, fazem um espetáculo onde metem informação. Isto confunde as pessoas e desrresponsabiliza as pessoas perante as circunstâncias. Se os media não considerarem estes assuntos como uma forma de lazer, uma forma de espetáculo, eu acho que eles estão a captar o assunto de uma forma elevada e séria. De outro modo, enquanto virmos este assunto entrar ao lado dos jogos da bola - como se vê com muita frequência - a passar como assuntos que têm uma profusão muito pouco estreita, digamos assim, que não dizem respeito a toda a gente... enquanto se entender as questões da ecologia, as questões do ambiente, questões do clima como objeto de lazer ou como objeto de espetáculo, de facto, não estamos a prestar um bom serviço. Isto pelo lado dos media, dizendo eu que a narrativa tem que ser mais séria - não estou a falar do Gerador, nem de ninguém em especial, mas provavelmente sabe a quem me refiro. Os media que têm muita audiência são aqueles que, de facto, vendem o fim do mundo.

Por outro lado, a ação a ação dos jovens. Vamos ver: quem é que, de algum modo, está encabeçar esta luta pela necessidade de transformação e esta atenção que é necessário termos para com o clima e o ambiente? São os jovens. Vimos as greves climáticas, a começar nas escolas, e vemos um elemento muito importante. Nós, hoje em dia, vemos as crianças, os jovens, muito orientados para o ambiente e para as questões climáticas, mas também para o bem-estar animal e opondo-se àquilo que é o especismo, vendo o homem como superior a todas as outras formas de vida. Portanto, temos crianças e jovens extremamente motivadas para a ação climática, e vemos isso por todo o mundo.

Gostava de chamar a atenção ainda para um aspeto, que é a Greta Thunberg. A Greta Thunberg é, segundo aquilo que eu penso, uma ecoansiosa. Estamos a falar de uma pessoa que despertou para as questões ecológicas e que, com base nesta ansiedade que surgiu, sentiu a necessidade de fazer aquilo que qualquer ecoansioso faz.

(G.) – Mas quais são os sinais que lhe permitem dizer que ela é ecoansiosa?

(P.V.C.) - Deixe-me só dizer o seguinte: do ponto de vista daquilo que podemos considerar que é o entendimento da psicologia geral, a ecoansiedade não existe. E não existe porquê? É uma questão muito curiosa: é que só existe o que está no livro - não sei se conhece - um manual que atende às desordens mentais e psiquiátricas. O que não estiver no livro, não existe. A própria psicologia, neste momento, entende que a ecoansiedade resulta de um estado de ansiedade genérico, acentuado, mas esquece, de facto, onde é que está a razão, quais são as causas que atendem.

No caso concreto da Greta Thunberg, nós sabemos que está radicada na questão ecológica. Poderia ser outra questão, podia ser qualquer outra questão, mas é a questão ecológica - aproveito para dizer o seguinte: há doenças ou desordens mentais e psiquiátricas que foram retiradas deste livro, portanto, estamos perante uma "bíblia" que também faz um exercício de ciência. Às vezes também retira considerações que tem sobre certos comportamentos, portanto não é nada fechado, é uma discussão que está aberta perante a própria psicologia.

Mas vamos voltar à questão da causa que provoca esta ansiedade à Greta Thunberg, que é uma causa ecológica. O que acontece é que esta necessidade, esta forma ansiosa com que ela vê todas estas questões, dão claramente a ideia de se tratar de uma pessoa que sofre desta ansiedade, que está numa situação desconfortável que a obriga a avançar.

Naturalmente que, estamos perante uma circunstância que é recente para nós, pois nos Estados Unidos, desde 2017 que se reconhece a ecoansiedade. A revista americana Lancet desde 2015 que alerta para a possibilidade de surgirem enquadramentos a este nível.  É preciso vermos que, também, de algum jeito nas cabeças pensantes, Greta - que tanto tem feito por nós e pelo planeta - de algum jeito seja vista como uma pessoa diferente, porque, de algum modo, existe um estigma relativamente à doença mental.

Quando não se percebe e se tenta adaptar a realidade das pessoas àquilo que é o enquadramento vigente, naturalmente que surgem questões [incompreendidas] como o [síndrome] de Asperger, o autismo, que são coisas que a comunidade em geral desconhece o que é, mas sabem que não é uma coisa com que se conviva muito bem. Há, inclusivamente, currículos [escolares] adaptados para estas crianças. Depois, quando é preciso dizer que ela de facto é uma miúda especial, aparece em fotografias com esgares que todos nós fazemos - quanto mais não seja porque nos doeu um dente. Há aqui um aproveitamento que, no meu entendimento, tem de ser clarificado, e que eu acho absolutamente imoral.

(G.) – Então, quer dizer que não há propriamente uma forma de identificar esta perturbação? Não há um estudo sistematizado, não é possível saber números, estatísticas...

P.V.C. -  O que nós sabemos e o que temos realmente de nos preocupar - se quisermos falar de Portugal especialmente - é que Portugal já é um país ansioso. Aliás, no livro, eu apresento os estudos que nos dão claramente essa ideia. Não será o lado mais simpático do nosso país, mas, do ponto de vista mental, já sofremos bastante com tudo isto. Não me refiro só a questões concretas, mas posso-lhe dizer que, se pensarmos em doença mental, vamos ficar assustados. O problema da doença mental é que as pessoas não morrem, mas, em termos de prevalência na nossa sociedade, eu diria que é a doença que mais podemos encontrar em Portugal.

Como não se morre de doença mental, as pessoas julgam que não é uma doença, que é uma condição, e não é. Estamos a falar de saúde mental e, quando falamos em saúde, acho que todos nós temos de estar mais atentos a estas questões mentais.

(G.) – Até porque, apesar de se tratar de manifestações psicológicas elas acabam por ter consequências no nosso bem-estar físico...

(P.V.C.) - Naturalmente, todos nós sabemos isso. Aliás, a própria medicina parte dessa ideia de que, de facto, nós somos um ser complexo e temos que atender a toda essa complexidade. Eu não posso estar bem fisicamente se mentalmente não estiver, ou vice-versa. Portanto, existe uma condição biofísica à qual eu devo atender e todas as doenças - embora haja quem diga que não há doenças mas sim doentes - todas estas condições gravitam à volta desta complexidade, desta multiplicidade que somos todos nós. Podemos dizer que somos várias pessoas e, com base nisso, nada ficará de fora, quer seja físico, o psicológico ou biológico, e por aí fora.

(G.) - Há pouco referia o envolvimento de jovens em ações de protesto... Esse tipo de atividades e de envolvimento comunitário pode ser uma forma de lidar, também, com a ansiedade?

(P.V.C.) -  Sim, é uma das coisas que eu digo no livro é "busca a tua tribo", porque as pessoas sozinhas, em especial os jovens, começam a passar da ecoansiedade para uma coisa chamada "depressão verde". Porque começam a perceber que existe ali um problema, que é um problema que não é de todos - daí a questão do luto ecológico -, é um problema que, de fato, vêm que muitas pessoas não têm, mas alguns têm. Portanto, para ultrapassar a ecoansiedade é fundamental que se procure a tribo.

O que eu quero dizer é que estamos perante um problema que ninguém pode dizer ser demasiado pequeno para contribuir para a mudança, mas, de facto - e pergunta muito bem - o que acontece é que nós precisamos de pensar a comunidade e a comunidade tem que ser mais colaborativa. Colaborativa a todos os níveis, a começar pela a habitação.

Já existem bons exemplos, que vieram do Norte da Europa (aliás, todas estas ideias vêm do Norte da Europa). Na própria Finlândia nós encontramos uma cátedra, uma universidade, orientada para a ecoansiedade. Imaginando que o homem é apenas um fio, ou mais um fio, desta teia que somos todos... A própria ecologia que fundamenta esta ideia de pensarmos uma comunidade mais colaborativa, também vem do norte da Europa, que é donde vêm as ideias, originalmente, do co-living do co-housing, e, já agora, também, a ideia do housing first, ou seja, pensar a pessoa a partir da sua própria casa, a partir de sua própria comunidade. Quando pensamos nas pessoas que estão na rua, há [projetos de] housing first dedicados exclusivamente às pessoas em situação de sem abrigo.

De facto, nós, aqui em Portugal, temos alguma dificuldade de pensar como é que podemos fazer, mas temos bons exemplos do que é pensar as comunidades de um ponto de vista mais colaborativo. Porque nós temos de mudar completamente o nosso registo de vida e temos de partilhar muito mais do que propriamente cada um ter seu carro, cada um ter a sua bicicleta. Aquilo que fazemos com as trotinetes hoje em dia já, terá de ser feito também com os automóveis e com outras ferramentas que vamos precisando. Levando em consideração o facto que eu convoquei, há pouco, dizendo que ninguém é tão pequeno que não possa colaborar nesta mudança, que é bem necessária, em termos climáticos e ambientais, penso que tudo isto partirá no entendimento do que deverá ser uma sociedade mais cooperativa e as comunidades mais colaborativas.

Hoje em dia nós temos, nas cidades e fora delas, muita gente a viver sozinha. Porque é que as pessoas não hão de viver mais comunitariamente? Resolvia-se muita coisa, desde os novos aos mais velhos. A mesma coisa para resolver o problema da poluição: a partilha. Dava, há pouco, o exemplo das ferramentas, mas pode ser um automóvel, pode ser a bicicleta, o próprio animal de estimação... Porque não? Porque não havemos todos de pensar que é possível, um dia, todas as crianças que nasçam sejam filhas de toda a gente? Veja o quanto se resolvia com base nisto!

No livro dão-se muitas indicações relativamente a isto. Porque é muito importante a questão económica e a questão política, e, hoje em dia, a forma como eu me locomovo, a forma como eu crio energia, a forma como eu me alimento, por exemplo, são, por si só, manifestações políticas mas também económicas, porque a única forma que eu tenho de colaborar na economia é através do consumo. Tem que haver aqui mudanças estruturais e eu penso que os jovens já estão muito mais preparados, porque já perceberam que é preciso mudar de paradigma. É por isso que, no final do livro, eu peço desculpa aos mais jovens. Aquele livro serve também para isso, para pedir desculpa aos mais jovens pelo facto de irmos entregar o mundo em muito piores condições do que aquele mundo que recebemos dos nossos pais.

(G.) – Na sua opinião, com os problemas que derivam das alterações climáticas - que estão a aumentar - também a ecoansiedade terá tendência a aumentar?

(P.V.C.) - Diz muito bem e até por um outro aspeto: é que nós estamos a sair de uma pandemia e vamos entrar noutra, vamos entrar numa outra pandemia que é a de desesperança. Repare: mesmo que acabe o vírus hoje, nós sabemos que temos um problema de saúde mental, que vai fazer com que as pessoas não saiam de casa, com que as pessoas tenham medos, com que as pessoas tenham fobias, com que as pessoas se sintam ansiosas.

Se acrescentarmos a isto, aquilo que eu lhe dizia há pouco -da narrativa dos media, que vai ser cada vez mais catastrofista e as pessoas, elas próprias [vão ficar] viciadas nesta desgraça toda - nós vamos ter aqui um cocktail explosivo, porque são as condições reais. Nós não estamos a sair de uma crise, nós estamos a entrar para outro tipo de crise (para vários tipos de crise, se quisermos). E, se não houver elevação na forma como tratamos do assunto - e, volto a dizer, os psicólogos, a própria medicina já entendeu isso, portanto a saúde mental já passa a estar na ordem do dia - é possível prever exatamente isso. Naturalmente que, se a narrativa dos media for catastrofista, ou, se tomarmos isto como simples lazer, e não como ciência, não como forma de reflexão e de pensamento, de facto, eu temo que venhamos a ter uma grande "depressão verde".

Texto por Sofia Craveiro
Fotografia cedida por Paulo Vieira de Castro

O Gerador é parceiro do Festival Mental

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