Era primavera neste pedaço de mundo.

Os seus limites não se conhecem, só se sabe que neles cabem desde a andorinha, que veio passar o estio, ao gafanhoto, que não vai além do alcance do seu sonoro voo. Cabe também a rã, cujos girinos eclodiram na ribeira, a osga que sai na noite ainda fresca, o sapo que adivinha chuva, e o rato do campo, sempre atarefado. Cabem os mosquitos, as melgas, as formigas e as típulas que o calor despertou. As aranhas e as minhocas, o caracol e a lagarta da Gonepteryx rhamni que em breve a todos presenteará com a etérea borboleta-limão.

Entre estes e tantos outros coabitantes corre a conversa de um bicho papão que a muitos atormenta. Relatos dão conta que um gafanhoto ia entre a amendoeira e o pasto quando foi caçado em pleno voo. Um pisco raptado sem deixar rasto e a noite perdeu o cantar do rouxinol. Um rato que roía a rolha subitamente desaparecido. A osga que a noite despertou, não mais regressou a casa. O grilo deixou de estridular mesmo antes de encontrar parceira. O sapo incumbido de anunciar a chuva nunca mais coaxou. O ninho de melros foi brutalmente atacado, nenhuma cria sobreviveu. Já as crias do chapim não mais viram a progenitora.

Toda esta angústia e inquietação era testemunhada pelos impávidos mosquitos, melgas, formigas, aranhas e minhocas que, habituados a sentir a permanente ameaça dos seus predadores naturais, se regozijam com a tranquilidade e a família a crescer.

Neste pedaço de mundo há também uma casa, em que um recente inquilino todas as noites gosta de fazer uma longa e furtiva caminhada. Tem os seus caminhos habituais que percorre com desvelo, mas não é raro explorar outros recantos sempre que algo lhe desperta a atenção.

Ao alvorecer, o mosquito, satisfeito que nem um abade, vinha a sair da casa quando viu um pintassilgo ensanguentado e decapitado, criteriosamente depositado no tapete à porta de entrada. Curioso, aguardou, tentando inteirar-se do que se passava. Em breve, o dono da casa abriu a porta coçando a meia dúzia de picadelas de mosquito dessa noite e, consternado, mas não surpreendido, rabujou por mais uma vez: "Tareco, só fazes porcarias!".

O gato doméstico, quando satisfaz os seus instintos de animal selvagem, pode ser uma ameaça para o equilíbrio da biodiversidade na sua área de ação.

Temos de atender a que o gato doméstico é uma espécie introduzida, não autóctone, muitas vezes invasora e sem predadores, pelo que sem controlo pode constituir-se como uma ameaça para as outras espécies que povoam os espaços contíguos às nossas habitações.

Se somos responsáveis pelos nossos animais, cuidemos de controlar os nossos felinos.

-Sobre Joana Guerreiro da Silva-

Arquiteta de formação pela Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, fez Estudos Avançados em Reabilitação do Património Edificado pela Faculdade de Engenheira da Universidade do Porto. Interessada pela fotografia, trabalhou em audiovisuais em Viena, Áustria, documentando os dois últimos dois anos da obra do Campus Wirtschaftsuniversität Wien, de onde resultaram várias publicações em diversos suportes. Colaborou em vários ateliers de Arquitetura e atualmente trabalha como Arquiteta da Divisão de Licenciamento e Gestão Territorial da Câmara Municipal de Odemira e frequenta o segundo ano da Licenciatura em Agronomia do Instituto Politécnico de Beja.

Texto de Joana Guerreiro da Silva | ZERO
Fotografia da cortesia de Joana Guerreiro da Silva
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