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A ciência cidadã é a participação pública na investigação científica e qualquer pessoa, através dos seus próprios recursos e ferramentas, pode participar. Digamos que um investigador precisa de saber o número de plantas de determinada espécie, existentes em todo o país, no decorrer de um ano.

Esse é um trabalho difícil de fazer apenas por uma pessoa, mas se esse investigador lançar um pedido para a contribuição da população, poderá ser uma grande ajuda para o seu trabalho. Este é apenas um dos muitos exemplos de dados científicos que os cidadãos podem fornecer aos investigadores ajudando-os a fazer o seu trabalho.

Hoje, mais do que nunca, a ciência tornou-se parte das nossas vidas. A pandemia levantou o pano e deixou-nos espreitar um pouco sobre a forma como a ciência é feita, apesar de ainda permanecerem bastantes dúvidas. Afinal, o que fazem os cientistas? De que forma obtêm os dados com que trabalham? Vão para o terreno todos os dias? Como analisam os dados?

Nesta reportagem, ficaremos a conhecer a história da ciência cidadã (em Portugal e no mundo), alguns dos projetos de ciência cidadã portugueses bem como os testemunhos dos coordenadores e dos cidadãos que neles participam, ou participaram. Os problemas desta prática científica serão apresentados, bem como possíveis soluções encontradas pelas entidades governamentais e instituições públicas e o movimento informal conjunto com o nome de Rede Portuguesa de Ciência Cidadã será também apresentado.

 

Qual é a história da ciência cidadã?

Em 1979, um artigo publicado na revista norte-americana New Scientist, refere o termo citizen scientist – cidadão cientista em inglês – como alguém que participava na ciência.

Em 1989, surgia um outro artigo, desta vez na revista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), acerca de um projeto da National Audubon Society, sociedade que tem como principal objetivo a proteção das aves.

Estava em desenvolvimento um projeto relacionado com chuvas ácidas e pedia aos cidadãos que fizessem recolhas de amostras das chuvas para enviarem para serem analisadas, refere a investigadora Cristina Luís, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que se encontra a estudar a história da ciência cidadã em Portugal.

 

Se querem contribuir para a ciência, então: “Be a citizen scientist!”

– Cristina Luís, Investigadora

Este termo ficou conhecido a partir de 1995, quando o sociólogo inglês Alan Irwin escreveu um livro inteiramente dedicado ao tema. Desta feita, as primeiras definições de ciência cidadã, aplicadas a um contexto do cidadão que participava no processo científico, passava a ter uma perspetiva mais sociológica, em que o cidadão podia ter um papel mais interventivo, de participação democrática.

Os casos mais conhecidos de ciência cidadã, complementa Cristina Luís, são bastante antigos e chegam-nos dos Estados Unidos da América: “Em 1890, o Serviço Meteorológico Americano pede para instalar estações meteorológicas nos quintais privados, com grande aceitação por parte da população. Havia pontos de recolha de informação meteorológica espalhados pelo país inteiro, a fornecer informação para o serviço central. Há também o caso do Christimas Bird Count em que é pedido aos cidadãos para fazerem contagens de aves. Esta é uma recolha sistemática que existe desde 1900.”

Em Portugal, temos o caso emblemático de Frederico Oom: no início do século XX houve um eclipse e Oom, um astrónomo português, “fez um pedido através dos jornais para que as pessoas lhe enviassem informações sobre a forma como tinha corrido o eclipse… E as pessoas enviaram.” A investigadora explica que, apesar da ciência cidadã, como conceito ser recente, a sua essência existe há muito.

 

“No início do século XX, havia mais momentos para as pessoas que se dedicavam à ciência se mostrarem à comunidade e isso talvez tenha desaparecido ao longo deste século. Agora há novamente um interesse em não deixar o conhecimento fechado. Vamos mostrá-lo e perceber quem são as pessoas que estão envolvidas na construção do conhecimento científico. Daí que a ciência cidadã esteja em crescimento, porque usufrui muito deste movimento da ciência ter, de facto, importância para a sociedade. A ciência faz parte da sociedade e os cientistas são parte da sociedade também. Não são uma entidade à parte. Têm uma caixinha, como qualquer profissão tem a sua caixinha. Há a profissão dos juízes, dos economistas, dos jornalistas, esta é mais uma profissão.”

– Cristina Luís, Investigadora

As práticas participativas surgiram normalmente associadas à observação da natureza. Faziam-se apelos à população, quando se desenvolvia um estudo, para que enviasse informação. Isso aconteceu em Portugal, por exemplo, com José Vicente Barbosa du Bocage, no século XIX, que fazia pedidos para lhe enviarem exemplares para as coleções, revela Cristina Luís.

Como a profissionalização da ciência não existiu até ao final do século XIX e em alguns países, início do século XX, o amadorismo tinha um papel preponderante, como menciona a investigadora: “As pessoas que não são cientistas e que fazem ciência de forma dita amadora produzem informação científica absolutamente impressionante.”

A aproximação da ciência à sociedade é uma questão central na ciência cidadã: é uma das suas razões de ser, mas não é o seu objetivo final. Há algumas diferenças entre as iniciativas de educação ambiental e projetos ou iniciativas de ciência cidadã e embora a educação ambiental seja de extrema importância, o objetivo final da ciência cidadã é, além de aumentar a literacia científica, a produção de conhecimento científico. Embora os critérios sobre o que é a ciência cidadã ainda estejam sob debate em entidades como a European Citizen Science Association, importa lembrar que os objetivos que guiam estas duas atividades são diferentes.

 

Portugal tem projetos de Ciência Cidadã!

Clica nas imagens para saberes mais sobre cada projeto.

 

BioDiversity4All

 

 

Memória para Todos

 

 

NUCLIO

 

O BioDiversity4All, como o próprio nome indica, é uma plataforma que agrega projetos relacionados com a biodiversidade. Cientistas, cidadãos e entidades várias podem criar projetos e, com um simples registo, podem começar a fotografar as espécies que encontram e ajudar esses projetos.

Patrícia Tiago, coordenadora do projeto, refere que o BioDiversity4All, desde a sua criação em 2009, sempre teve o objetivo de que “os investigadores utilizassem a plataforma para os seus dados e para as suas informações, ou seja, que cada pessoa que fosse lá buscar informação ou utilizasse a plataforma, o fizesse porque tinha vantagens nisso”.

E que vantagens são essas? Segundo a investigadora da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, os projetos que a plataforma reúne usufruem da sua infraestrutura já montada, o que pode fazer com que consigam alcançar os seus objetivos mais rapidamente, entre outras vantagens.

“Por variadíssimas razões, não dá jeito nenhum ter não sei quantas aplicações no telemóvel. Não é prático e desmotiva um bocadinho. Depois ganha-se porque já se tem uma comunidade criada, qualquer projeto novo que venha já tem ali um agregador de pessoas muito grande que podem contribuir para o projeto delas. No fundo, é só vantagens.”

– Patrícia Tiago

Muitos dos projetos de ciência cidadã referentes à biodiversidade em Portugal, estão registados na plataforma BioDiversity4All, e a investigadora relembra que, quando começou o projeto em 2009, a maior parte dos professores universitários a quem falou da ideia não conseguiam imaginar que os dados provenientes dos cidadãos pudessem ter fins científicos, assumindo sempre fins de divulgação, mais do que de produção científica da plataforma. Decorreram, recorda, mais de dez anos, até que esta ideia começasse a ser reconhecida pelos pares, como é hoje, em que a visão dos colegas é completamente diferente do que era.

Hoje, com alguma dedicação às redes sociais, onde divulgam os projetos que se encontram na plataforma, os cientistas e os cidadãos compreendem os benefícios de pertencer a esta comunidade, mas também vêm um potencial cada vez maior na utilização dos dados provenientes da ciência cidadã.

Os projetos criados no BioDiversity4All, além da investigação científica, podem ter outras finalidades. Maria Emília Martins é professora do Ensino Secundário e utiliza a plataforma como um método auxiliar para as suas aulas de Biologia. Quer seja para os estudantes acompanharem a evolução de espécies, quer para encontrarem cianobactérias num parque. A professora crê que a plataforma tem potencial educativo e permite que os estudantes tenham perceção do processo científico enquanto aprendem a disciplina.

“Há dois anos fizemos na Escola uma exposição sobre a biodiversidade, em que os alunos usavam as fotografias que foram recolhendo e, além de aprenderem sobre a biodiversidade, aprenderam sobre os direitos de autor porque podiam usar fotografias dos colegas, mas tinham que dizer de quem era a foto.”

– Maria Emília Martins

Esta plataforma já foi palco da descoberta de uma espécie nova para a ciência. Francisco Barros, vigilante da natureza e ávido utilizador do BioDiversity4All, descobriu uma nova espécie de grilo, o grilo-de-sela, cujo nome científico ficou registado com o nome do seu descobridor: Neocallicrania barrosi.

A descoberta foi anunciada na plataforma e em grupos das redes sociais, simultaneamente, pelo que vários cientistas tiveram acesso à informação e puderam deslocar-se ao local, confirmando que a espécie ainda não estava registada.

Também acontece encontrarem-se novas localizações de espécies. Patrícia Tiago conta que há “registos de uma planta que já tinha sido encontrada em três localizações em Portugal e agora foi encontrada um quarto núcleo na zona de Paiva, em Arouca. Criaram o projeto GeoPark de Arouca na plataforma, uma professora andava a registar e encontrou essa planta. É uma localização nova para essa planta, que ainda por cima é uma planta muito ameaçada. Essas coisas são muito relevantes para a ciência, e para esta plataforma… São muitos olhos, a olhar para a biodiversidade ao mesmo tempo”.

Para participar nos projetos da plataforma, basta fazer o download da aplicação, registar-se na aplicação ou no website e começar a registar a biodiversidade à sua volta.

O projeto Memória Para Todos é um projeto colaborativo, das ciências sociais e humanidades, dedicado à recolha de memórias que todos temos e todos gostaríamos de guardar.

Este projeto de investigação e ciência cidadã promove o estudo, organização e divulgação do património histórico, cultural e tecnológico de Portugal. É desenvolvido em cooperação com arquivos, autarquias, associações locais e outras instituições. O conteúdo recolhido, como fotografias, testemunhos em áudio e vídeo, com a participação e envolvimento de cidadãos e das instituições, é disponibilizado online e em acesso aberto.

Fernanda Rollo, coordenadora do projeto, descreve que o Memória Para Todos é um projeto que existe desde 2009 e hoje converge numa plataforma em que a política da Ciência Aberta e acesso aberto são um dos pontos mais relevantes. A história oral é recolhida, a par de metodologias como a história do objeto, visto que os cidadãos são convidados a partilhar os seus testemunhos materiais como fotografias ou postais.

Projetos como Portugal 1914 ou As Memórias da Revolução foram alvo de grandes campanhas de divulgação, a nível nacional, com o intuito de obter participação em larga escala. Foram bem-sucedidos e conseguiram testemunhos e memórias únicas que, de outra forma, talvez se tivessem perdido. Para além de um “repositório” de memórias, o Memória Para Todos pretende servir a comunidade científica:

“Hoje em dia, sobre essa enorme diversidade de temas é um recurso que pode ser muito interessante para os investigadores. A Fundação Bial já veio buscar uma das entrevistas que lá está, para o Prémio Maria de Sousa, feita à própria Maria de Sousa, para ilustrar a sua contribuição. A verdade é que tenho, pelo menos, a expectativa de que isto possa ser útil, mas não só aos investigadores como também à sociedade em geral e não só sob o ponto de vista dos conteúdos, mas da própria infraestrutura, que eu acho que tem que estar ao serviço.”

– Fernanda Rollo

A plataforma Memória Para Todos alberga agora projetos de distintas áreas temáticas, funcionando como infraestrutura de recolha e patrimonialização de testemunhos e objetos materiais, fazendo apelos à população para que participe com as suas memórias. Nesse sentido, todos os investigadores e cidadãos interessados podem participar, bastando para isso dirigir-se ao website da plataforma e perceber em que projetos pretende colaborar.

O NUCLIO é uma entidade portuguesa, formada por um conjunto de cientistas, investigadores e professores, dedicados maioritariamente à formação de professores, mas que desenvolve também, em Portugal, um projeto internacional de ciência cidadã: o International Astronomical Search Collaboration. Esse é o projeto de ciência cidadã, que está direcionado para escolas e trata-se de… caçar asteroides!

Ana Costa, atualmente responsável pelo projeto, relembra que, em 2006, aquando do seu envolvimento, quando ainda dava aulas de física e química, fez uma descoberta logo no seu primeiro ano de participação com os seus alunos. Pode exigir alguma concentração por parte dos alunos e ser um pouco monótono, apesar de ser um projeto entusiasmante com o potencial de poder dar nome a um asteroide.

Em Portugal, foram já descobertos dois asteroides, que passaram da fase preliminar à provisória. A primeira descoberta aconteceu em 2012 e foi conjunta, por quatro equipas de alunos de escolas de Braga, Paço d’Arcos, Alcobaça e Valpaços, e deram-lhe o nome Lusitano. A segunda descoberta foi feita em 2017, por uma equipa de estudantes da Escola Secundária Dr. Manuel Gomes de Almeida, em Espinho e o seu nome é Fado.

Embora a melhoria da qualidade das imagens dos telescópios permita identificar mais asteroides de uma só vez em cada imagem, Ana Costa relata que o processo pode demorar bastante tempo, passando por algumas etapas.

Salvador Bruschy foi o primeiro aluno a participar no projeto em Portugal, quando estava no 8.º ano de escolaridade e sempre teve curiosidade pelo espaço. Foi exposto desde muito pequeno a imagens do sistema solar e do céu e considera que isso pode ter despertado o seu interesse. Hoje, Salvador continua ligado à caça dos asteroides, nos seus tempos livres, e seguiu Astrofísica na universidade. A sua motivação para continuar no projeto é ver a ciência como arte.

Apesar de este projeto ser mais vocacionado para escolas, se houver cidadãos com muita vontade de caçar asteroides, podem contactar o NUCLIO, que vos guiará por esta caça.

“A ciência é feita de pequenos acrescentos. Se me perguntarem o que é que estamos à procura? Primeiro, temos de saber onde é que elas estão porque pedras no céu são perigosas. Depois, saber onde é que essas pedras estão, ajuda-nos a andar atrás no tempo e a descobrir melhor como foi a evolução do Sistema Solar. Claro que há sempre pessoas que dizem ‘O que é que isso interessa? Isso já foi há muitos anos. O que é que me interessa saber quantas galáxias há?’ A ciência não é só sobre utilidade, é um bocadinho como a arte. Nós estamos aqui por causa da curiosidade humana e é a curiosidade humana que nos leva a desenvolver coisas que depois nos podem vir a ser úteis.”

– Salvador Bruschy

 

Novos Decisores Ciências

 

INVASORAS.PT

 

CoAstro

Localizado por detrás de um pinhal, ladeado, por um lado, por silos da maior entrada de produtos cerealíferos no país e, por outro, por um posto da NATO, a frente do Bairro do 2.º Torrão, na Trafaria, é apenas água. É um terreno privado, onde imigrantes e descendentes de ex-colónias portuguesas encontraram um espaço para construir as suas casas. O desalojamento está iminente há muito, apesar de estes planos não serem conhecidos pelos habitantes do Bairro.

Este projeto surge de uma ação de João Cão Duarte, investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, juntamente com outros cientistas, e Diana Pereira, facilitadora neste território, com o objetivo de desafiar um grupo de jovens a trabalhar numa dinâmica que permitisse encontrar problemas. Em 2014, quando começou esta ideia, sabia que qualquer que fosse o problema encontrado, desde que tivesse uma dimensão científica, seria utilizado como o início de uma investigação em ciência cidadã.

Depois de alguns meses de conversa com estes jovens, surgiu a questão científica “Será que o Bairro vai ser engolido pelo mar?”, emergindo de uma preocupação dos cidadãos, uma vez que nesse ano houve uma tempestade que causou alguns estragos no bairro. Após esta dinâmica, foram contactados os oceanógrafos, que começaram a trabalhar esta pergunta na perspetiva de novo conhecimento sobre o galgamento costeiro. No entanto, João menciona que apesar de ser um projeto onde a componente de cocriação está presente, pode ser difícil estabelecer diálogos entre estas duas partes. O papel do mediador é, por isso, nos projetos de ciência cidadã, de extrema importância.

“Houve negociação, e isso foi uma das inovações que conseguimos colocar no projeto. Pelo menos a colocação das sondas e a sua recuperação, em vez de ser feita por uma empresa, como é feita normalmente, o que cumpre exatamente os requisitos dos investigadores. Tínhamos um barco, com um pescador local – o Tony – que conhecia bem a região e, na realidade, ajudou na conservação das sondas e na sua identificação. Houve algum conflito entre ele e a equipa de investigação em relação aos timings para colocar as sondas. Os investigadores também ficaram apreensivos no início com esta relação com o pescador. No fim, ficaram muito gratos.”

– João Cão Duarte

Renata Camargo, membro da equipa dos Novos Decisores Ciências, acrescenta que a metodologia do trabalho científico obedece a regras e horários concretos, enquanto o pescador conhece o vento e o mar. Isso pode não significar que se cumpram exatamente as regras científicas, o que pode causar algum choque inicial, que é preciso saber amenizar. Esse é o seu papel.

Atualmente, João e Renata são facilitadores e mediadores, não só dos habitantes do Bairro do 2.º Torrão, como dos cientistas, mas também das instituições. Nesse sentido, consideram ser bastante difícil obter o envolvimento das instituições para o desenvolvimento de um plano, ainda que mostrando os potenciais prejuízos do galgamento costeiro para esta população.

Paulo Faísca, presidente da Associação de Moradores do Bairro do 2.º Torrão, acompanhou todo o processo de colocação de sondas na frente marítima e está envolvido com o projeto Novos Decisores Ciências na tentativa de tornar as entidades mais atentas ao que pode vir a acontecer no Bairro.

“Após várias insistências, o que aconteceu é que conseguimos ter uma reunião com a Proteção Civil, tentámos explicar os métodos que podemos usar, como um alarme, para um possível acontecimento e tentarmos fazer simulacros. Tentámos explicar qual era a melhor forma… Infelizmente, por causa da covid-19, isto ficou em águas de bacalhau. Houve um pequeno abandono e, até agora, acho que ninguém está a dar importância, porque o feedback que nós temos não é nenhum. E isso entristece-me…”

– Paulo Faísca

A proposta da Associação de Moradores, a par das muitas inovações que têm feito no 2º Torrão que promovem a qualidade de vida da população, é a criação de um alarme e consequentes simulacros, para que os habitantes do Bairro saibam reconhecer o som e saibam o que fazer em caso de perigo. As “ondas de arrastão, tipo tsunâmi”, como lhes chama Paulo, já causaram estragos nesta zona em 2018 e, apesar de esperar não precisar, Paulo gostaria de estar preparado para assegurar a segurança de todos.

Podem encontrar mais informação no Facebook do projeto.

Como o próprio nome indica, este projeto dedica-se ao registo de avistamentos de plantas invasoras em Portugal. E o que são plantas invasoras? São espécies introduzidas pelo homem, muitas delas intencionalmente, para diversos fins como a utilização florestal ou ornamental. No caso das acácias, uma espécie invasora foi trazida para Portugal para a fixação de dunas. Estas espécies, depois de introduzidas, escaparam ao controlo humano e começaram a reproduzir-se sozinhas, dominando paisagens que, outrora, pertenciam a espécies nativas.

Elizabete e Hélia Marchante, as coordenadoras do projeto Invasoras.pt, indicam que grande parte das espécies invasoras do nosso território são australianas, sul-africanas, do Mediterrâneo, ou seja, “espécies que estão adaptadas ao fogo”. Ter impactos negativos não é uma condição essencial para uma espécie ser considerada invasora, o que a faz tornar-se invasora é a facilidade com que domina o espaço de outras espécies. Entre as “piores”, encontram-se as acácias, a Fallopia e a Cortaderia (mais conhecida como erva-das-pampas), todas introduzidas intencionalmente.

Que impactos podem ter? Desde impactos alergénicos, no caso das acácias e Cortaderia, até impactos económicos, uma vez que rompem passeios, muros, calçadas e estradas, como a Fallopia. Espalham-se através de fragmentos que propagam com facilidade, ou através de sementes.

“Se olharmos para as plantas todas que estão nos nossos pomares e hortas, a maior parte são espécies exóticas, que vieram de outro canto do mundo. Só que estão ali, não se espalham, não têm essa autonomia. A grande diferença das exóticas que se tornam invasoras e as que não se tornam é que as que se tornam invasoras, conseguem, sem a nossa ajuda, ganhar mundo.”

– Hélia Marchante

As duas investigadoras alertam para o facto de não existirem espécies más, todas as espécies são boas nos seus locais de origem, porque “estão em equilíbrio com todas as outras”.

Acrescentam que muitas das nossas espécies nativas também são invasoras, sendo que têm inimigos naturais que as controlam (como é o caso das giestas e das estevas).

Os cidadãos podem participar no projeto Invasoras.pt, ao registar-se no website e fazer o download da aplicação, para Android e iOS, para começar a registar cada espécie invasora que encontrar. No website encontra muita informação acerca das espécies e sobre as formas de identificação de cada uma. Depois de registar um avistamento (colocar a fotografia online, bem como a localização e a espécie), esse avistamento é validado pela equipa do projeto. Se a espécie não corresponder, ser-lhe-á enviada uma notificação para confirmar, dizendo-lhe para ver melhor determinado aspeto.

Dentro do website, há vários desafios em que os participantes podem participar, como monitorizar o ciclo de vida de uma planta ou fazer comunicação sobre plantas invasoras, desafio em que, segundo as investigadoras, têm surgido dinâmicas bastante divertidas.

De que forma se pode entusiasmar as crianças – e as suas famílias – acerca de qualquer da astronomia? “Através da escola”, refere Ilídio André Costa, autor do projeto CoAstro, um projeto que promete entusiasmar para a ciência, através do ensino da astronomia.

“Não consigo ver uma forma de chegarmos a tanta gente sem ser pela escola. Um artigo de jornal… só quem lê o jornal é que contacta com o que se escreve. Contudo, com ele não se chega a pessoas que não compram o jornal, pessoas que não se interessam nada pela ciência. Essas mesmas pessoas, são influenciadas pela escola: como o filho vai àquele encontro com o astrónomo, eles são arrastados… É curioso que depois das atividades do CoAstro, apareciam pais a dizer “Astronomia é isto? Pensava que era ler cartas, pensava que era fanfarronice.”

– Ilídio André Costa

Ilídio é professor, com formação em astronomia e destacado no Planetário do Porto. Isso deu-lhe a bagagem para compreender, não só os desafios por que passam os professores do Ensino Básico, como os cientistas e investigadores com os quais trabalha no Planetário e onde desenvolveu o seu doutoramento. Os cientistas com quem trabalhou, apesar de reticentes no início do projeto, acabaram por perceber o seu potencial quando lhes mostrou que o projeto poderia resolver problemas para os quais precisariam de recursos humanos e financiamento, com a ajuda dos professores e dos seus alunos, que precisavam (ou queriam) novas formas de abordar os temas da astronomia.

“Nós temos de chegar junto dos astrónomos e perguntar aquilo que eles precisam, o que precisam que os cidadãos-cientistas façam. Com base nessa necessidade, o mediador vai verificar o que é, ou não, possível ser feito. Assim os projetos são abertos, não se trata do que nós queremos dos participantes, mas o que os participantes querem de nós. Talvez assim seja possível convencer os cientistas e os cidadãos de que não será mais uma tarefa a acrescentar às muitas que têm, é uma tarefa que vai facilitar o seu trabalho quotidiano.”

– Ilídio André Costa

Neste caso, Ilídio foi o mediador do projeto, entre professores e astrónomos. Tendo sido um estudo de caso, que culminou na sua tese de doutoramento, não afasta a hipótese de ter um formato facilmente replicável. O CoAstro destinava-se a professores, especialmente de 1.º ciclo, como são Julieta Ferreira e Paulo Pereira. Aderiram ao projeto com motivações distintas, mas têm ambos a mesma sensação, agora que terminou: sabem mais sobre a ciência, no geral, e podem continuar a ligar ao Ilídio.

Julieta costuma fazer formações fora da sua zona de conforto e decidiu arriscar pela astronomia, porque lhe pareceu “extraordinário” e não ficou desiludida. Aprendeu que “é bom fazer perguntas, que é ótimo ter dúvidas”. Menciona que, um dos pontos positivos para que o projeto tivesse sucesso, no seu ponto de vista, foi a abertura da parte dos astrónomos.

“Foi o à-vontade com que nos deixavam para ter dúvidas, para dizer disparates e a simplicidade com que nos corrigiam os erros. […] Eu vou pesquisar, vou pedir ajuda. Deixaram-nos sempre à vontade e qualquer dúvida que nós tenhamos, basta pegar no telefone, porque do outro lado está gente interessada em ter gente bem formada do lado de cá.”

– Julieta Ferreira

Paulo Pereira sempre teve curiosidade sobre astronomia, mas, na altura em que entrou no projeto, o seu filho tinha dúvidas sobre o tema. Explica que, pelo facto de se entusiasmar com a astronomia, sentiu que os seus alunos e os seus pares também se encantaram. Este projeto tornou-o mais atento à ciência e considera que foi um sucesso.

Ambos os docentes mencionaram que Ilídio tornou o projeto um sucesso. “O Ilídio disse-nos que estávamos todos num processo de aprendizagem, e isso foi fantástico para nós porque não estava ali o investigador. Era um colega nosso que estava completamente disponível, esteve sempre disponível – e ainda está – para nós”, explicou Paulo Pereira. “O Ilídio é grande parte deste de impacto positivo. Ele é fabuloso, faz a diferença e qualquer outra pessoa, com menos empatia, não teria causado o mesmo impacto que ele causou em nós, é claro”, explicou Julieta Ferreira.

Podem visitar o website do projeto aqui e saber mais informações.

Uma tipologia diferente, mas igualmente interessante

 

Dentro dos diversos projetos de investigação que decorrem em Portugal, alguns investigadores começam a considerar a ciência cidadã uma forma de obter dados e interagir com a sociedade, durante esse processo.

Esse é o caso dos projetos i9Kiwi e Socientize, que se apresentam em seguida.

i9Kiwi

O i9Kiwi decorreu entre 2018 e 2021 no FLOWer Lab do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra. O seu objetivo foi inovar a produção de kiwi em Portugal, através do estudo da implicação dos insetos nos pomares de kiwi, nomeadamente na sua polinização. A componente da ciência cidadã neste projeto de investigação foi bastante relevante: dela dependiam dados que os cientistas não tinham capacidade de recolher e para os quais contaram com o auxílio de 22 agricultores, proprietários de pomares de kiwi, de Valença até Pombal.

“Os agricultores colocavam armadilhas coloridas durante um dia por mês (idealmente
sempre na mesma semana do mês). Ao fim de 24 horas, os insetos atraídos para essas
armadilhas eram colhidos e armazenados em frascos com álcool e enviados para a nossa
equipa. Em laboratório, identificámos os insetos e categorizámo-los em grupos
funcionais, isto é, polinizadores, herbívoros, pragas ou outros. Mas quem fez todo o
trabalho de terreno foram os próprios agricultores.”

– João Loureiro

Estes agricultores, relacionados com a produção do kiwi, são relativamente jovens e bem organizados entre si. São, segundo João Loureiro, muito sensíveis às questões da sustentabilidade do pomar e do ambiente, tentando alguns adotar práticas benéficas para os insetos polinizadores.

O projeto teve uma taxa de sucesso de 68%: “infelizmente apenas quatro produtores desenvolveram o estudo todos os meses” menciona o investigador. No entanto, destacam-se bastantes pontos positivos, como o facto de se ter concluído que práticas mais amigas dos insetos acabam por beneficiar todos os grupos funcionais importantes, não beneficiando as pragas. “Adicionalmente, relacionámos os dados obtidos dos insetos com impactos na produção e verificámos que a produção se mantinha independentemente das práticas, ou seja, é possível ter pomares mais sustentáveis e amigos do ambiente e que promovam os insetos sem perdas ao nível de produção”.

A Associação Portuguesa de Kiwicultores (APK) representa cerca de 80 % dos produtores de kiwi a nível nacional, e Patrícia Duarte, presidente da Associação à data da entrevista, referiu que ser parceira deste projeto foi muito importante e espera que haja mais investigações em conjunto. Refere que os agricultores se mostraram bastante motivados e interessados pelo projeto, e isso é um papel que a APK também pretende estimular, para que as pessoas se questionem sobre as suas práticas.

Patrícia Duarte considera que os resultados do projeto podem beneficiar a produção do kiwi, uma vez que a polinização tem um papel fulcral na vida do pomar.

“É importante perceber até que ponto é importante, ou não, num determinado ano
fazer polinização, porque a polinização é um custo, para além da aquisição do fator de
produção, são as horas que é preciso para fazer a aplicação do pólen.”

– Patrícia Duarte

Conta ainda que este projeto teve um impacto positivo na sua relação com a ciência, que acredita ser agora mais necessária que nunca, e aproveita para explicar que o setor da agricultura não é um setor repleto de pessoas desprovidas de inteligência: “Qualquer agricultor, por mais simples que nos possa parecer, está habituado no seu dia a dia a pensar numa multiplicidade imensa de fatores e pensar com base em mil e uma variáveis, para poder pura e simplesmente abrir espaço para plantar uma semente. Isto não tem nada de básico.”

Socientize

Financiado por fundos comunitários, o projeto Socientize tinha o objetivo de produzir o Livro Branco da Ciência Cidadã e desenvolveu alguns projetos de ciência cidadã. Um deles chamava-se CellSpotting: um cientista tinha “centenas de milhares de imagens de células cancerígenas” que, atacadas por substâncias químicas, eram destruídas. “A ideia era saber quantas células estavam destruídas em cada imagem e essas imagens não eram fáceis de interpretar para um sistema automatizado que também não existia.” Quem o explica é Paulo Gama Mota, investigador na Universidade de Coimbra e coordenador do projeto Socientize em Portugal. A ideia do Cell-Spotting foi que as pessoas observassem estas imagens, com o rigor que um projeto científico requer.

Para isso, a imagem era analisada por dez pessoas. Até o ser, continuava a circular. Dessa forma, garantiu-se a qualidade das observações. Os observadores foram encontrados através de escolas, o que garantiu uma adesão e processamento destas imagens em cerca de sete meses, o que é muito pouco para a elevada quantidade de informação.

Outro projeto estava relacionado com fotografias do sol do Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra, feitas todos os dias desde 1928. O objetivo do Sun4All era analisar as manchas solares e, decidiu-se, em conjunto com o cientista, que a análise seria superficial para que fosse mais simples para os cidadãos.

O terceiro projeto era um mapa de palavras, em que se pedia aos cidadãos que fizessem associações entre palavras, da Universidade de Saragoça, assim como o Cell-Spotting. Em relação ao motivo pelo qual não existe particular interesse na ciência cidadã em Portugal, Paulo Gama Mota explica que, na sua perspetiva, isso deve-se a um equívoco.

“Há na sociedade portuguesa um equívoco em que as pessoas acham que certas coisas
podem fazer-se de graça. É quando você tem um decisor político que acha que um
engenheiro pode trabalhar de graça, ou que um arquiteto pode fazer um trabalho para
uma câmara, de graça, mas as pessoas que vão construir já têm de ser pagas. Portanto,
acham que há certas coisas que se podem fazer só com a boa vontade e que não têm de
ser financiadas. Não é que não reconheçam, que não achem que é importante, mas acham
que é uma coisa que provavelmente não tem assim tantos custos e que se pode fazer com a
prata da casa, sem gastar mais dinheiro.”

– Paulo Gama Mota

Tanto no Cell-Spoting, como no Sun4All, participou Valentim Gomes, aluno da Universidade Sénior de Esmoriz. Muito ativo e com a agenda preenchida, Valentim considerou que ajudar a ciência podia ser uma boa opção para ocupar mais um pouco o seu dia e sente que todos ficam a ganhar.

“A partir do anonimato, poder ajudar os cientistas a fazer ciência. Se nós pudermos
ajudar a fazer alguma coisa… é útil.”

– Valentim Gomes

A observação de imagens fez com que os seus “neurónios tivessem de trabalhar”, e isso ajudou a passar o tempo com algum critério. Valentim, além do gosto pela ciência e por ser útil aos cientistas, teve uma razão pessoal para participar, particularmente no projeto Cell-Spotting.

“Em 1998, fiz uma laringectomia parcial e, portanto, isso desperta sempre a vontade de
trabalhar para ajudar os outros.”

– Valentim Gomes

 

Que problemas e benefícios tem a ciência cidadã em Portugal?

 

O facto de a ciência cidadã ser uma prática científica pouco conhecida e reconhecida, quer entre a população, quer entre entidades e instituições, traduz-se muitas vezes, na sua falta de financiamento, o que ameaça grandemente a sua sustentabilidade. Esta sustentabilidade prende-se com recursos humanos designados para fazer a comunicação do projeto (redes sociais e email, uma vez que o envolvimento dos cidadãos é bastante importante para o sucesso destes projetos a longo prazo), a dinamização e promoção das iniciativas do projeto, a manutenção do website com informação atualizada, e, claro, algum tempo para confirmar os dados.

Embora alguns investigadores comecem a elaborar iniciativas de ciência cidadã nos próprios projetos de investigação, financiados pela Fundação Para a Ciência e Tecnologia, como forma de obter dados científicos, como é o exemplo do i9Kiwi, a maioria dos projetos surge da curiosidade dos investigadores sobre outros tópicos que podem não estar diretamente relacionados com as suas áreas de investigação.

No caso das Invasoras.pt, a equipa a trabalhar no projeto dedica-se a plantas invasoras no seu dia a dia profissional e o projeto é um complemento, mas não faz parte, diretamente, do seu trabalho. Foi financiado pela Ciência Viva, em determinada altura, mas quando esse financiamento terminou, a equipa persistiu, sem financiamento. Para que o projeto não morra, a equipa retira tempo aos tempos livres (noites e fins de semana) e dedica-se a validar registos e a fazer ações de consciencialização das várias espécies invasoras nesses tempos.

Esse é também o caso do BioDiversity4All que, logo quando foi criado, surgiu como uma Associação Sem Fins Lucrativos. Patrícia Tiago refere que “uma coisa que se mantém dez anos sem praticamente dinheiro nenhum, dificilmente acaba. Isto é tudo carolice das pessoas que estão envolvidas”.

Claro que, no caso dos investigadores que trabalham posteriormente com os dados provenientes dos projetos, há sempre algo a ganhar com os projetos. Mas apontam todos a falta de tempo, a falta de sustentabilidade dos projetos pela falta de apoio financeiro e, no fundo, uma falta de reconhecimento das instituições sobre a importância da ciência cidadã como prática científica.

Esse desconhecimento, apesar de alastrado a uma grande parte da sociedade, pode ser também visto dentro da própria comunidade científica. Até recentemente, esta prática não era considerada uma prática científica séria ou cujos resultados fossem fidedignos. No entanto, no olhar dos entrevistados, essa noção tem-se vindo dissipar e os investigadores estão cada vez mais conscientes do potencial destes projetos e iniciativas que prometem aproximar a ciência da sociedade.

No caso do i9Kiwi, o projeto científico foi todo pensado em redor da componente de ciência cidadã. No caso do Socientize, as iniciativas em que os cidadãos participaram permitiram aos cientistas uma celeridade na análise de dados que, de outra forma, não seria possível. São dois casos que provam que é possível quer a integração da ciência cidadã nos projetos de investigação, quer a utilização dos dados para fins científicos. Mas os problemas estão longe de estar resolvidos.

 

Existe alguma solução?

Manuel Heitor, ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, considera que na formulação das agendas científicas assenta a força e a utilidade da ciência cidadã.

“A ciência cidadã tem esta característica muito interessante que consiste na participação das pessoas na formulação das perguntas de investigação e/ou de agendas científicas, em diálogo com os cientistas. Adicionalmente, nalguns casos, sobretudo de âmbito social ou nas ciências naturais, é ainda benéfico que as pessoas participem no processo científico, por exemplo, na obtenção de dados e recolha de informação; não na resolução dos problemas científicos, que é para ser feita por cientistas.”

– Manuel Heitor

Em relação ao financiamento a estes projetos, o vice-presidente da Fundação Para a Ciência e Tecnologia (FCT), José Paulo Esperança explica que a Fundação segue um modelo tradicional de financiamento onde apenas o investigador é financiado. No que diz respeito à ciência cidadã, em que os cidadãos participam de forma voluntária, refere que poderia haver aspetos que se poderiam financiar.

Aponta, nesse sentido, as autarquias e o poder local que podem desempenhar um papel fundamental no auxílio financeiro a projetos de ciência cidadã que apresentem benefícios a nível local, como já é o caso em algumas autarquias, interessadas na conservação da biodiversidade.

O financiamento a este tipo de projeto deve acontecer, segundo Manuel Heitor, integrado em projetos de investigação desenvolvidos por cientistas, de forma a assegurar a sua robustez científica. Reitera que todos os projetos financiados pela FCT têm uma parte do seu budget dedicado especialmente a atividades de divulgação e comunicação de ciência, onde se podem inserir e desenvolver estes projetos.

Apesar de não haver linhas de financiamento especificamente para a prática da ciência cidadã, a par com outros países da Europa, a comunidade científica portuguesa é bastante participativa na sua relação com a sociedade, segundo Rosalia Vargas, presidente da Ciência Viva, a Agência Nacional Para a Cultura Científica e Tecnológica.

Apesar de poder ser desmotivador para os cientistas, a comunidade científica portuguesa é bastante participativa, segundo Rosalia Vargas, presidente da Ciência Viva, a Agência Nacional Para a Cultura Científica e Tecnológica, que celebrou 25 anos em Novembro de 2021. Nas suas muitas ações realizadas, a aproximação entre a ciência e a sociedade tornou-se uma realidade, através, por exemplo, da rede de Centros Ciência Viva, onde a Agência permite um contacto com a ciência que, focado nas crianças, se estende a toda a família.

Rosalia Vargas refere a importância da escola nesta aproximação, no sentido em que «A escola é o sítio onde, muitas vezes, os estudantes têm o único contacto com a ciência». O papel central da escola e a consequente consciencialização do restante núcleo familiar, para que exista uma perceção da importância da ciência ao longo da vida, são muito relevantes, também no que toca à ciência cidadã.

A Ciência Viva está presente também na criação da Rede Portuguesa de Ciência Cidadã, uma iniciativa que Rosalia apoia e sobre a qual o ministro Manuel Heitor refere: «Todos os movimentos de participação, dos cientistas com a sociedade, são bem-vindos, desde que sejam efetivamente para valorizar a ciência, para valorizar as carreiras científicas e para aproximar as pessoas da ciência.»

 

O que é a Rede Portuguesa de Ciência Cidadã?

É uma Rede constituída voluntariamente por cientistas, cidadãos, Organizações Não Governamentais, autarquias, entre outras entidades. É uma Rede informal, mas “onde todos podem participar”, refere Cristina Luís. Está presente em todas as redes sociais, e o seu objetivo é promover o conhecimento e crescimento da ciência cidadã, contribuindo para aumentar o envolvimento da sociedade nos processos científicos.

Quer ser uma Rede aberta e inclusiva, e divide-se em vários grupos de trabalho que operam sobre diferentes áreas e aos quais qualquer pessoa é livre de se juntar, querendo contribuir para o crescimento desta prática em Portugal.

Um destes grupos de trabalho está dedicado ao mapeamento das iniciativas de ciência cidadã e, segundo Cristina Luís, um dos objetivos da Rede é conseguir contabilizar projetos e iniciativas de ciência cidadã a nível nacional. Estima-se que estejam ativos atualmente cerca de 180 projetos de ciência cidadã em Portugal, que estão ainda a ser mapeados.

A Rede Portuguesa de Ciência Cidadã já realizou três encontros nacionais (em 2017, 2019 e 2021), o último em modo presencial e online, no último mês de novembro. Envolveu oito bibliotecas – públicas e universitárias. Nos dois dias em que decorreu o Encontro, que contou com cerca de 290 inscrições, com o mote “Construir pontes para uma ciência mais participada”, esteve presente Rosa Arias, coordenadora do projeto D-NOSES, um projeto financiado a nível europeu e, neste Encontro, foi convidada para falar da sua experiência.

 

“Os projetos europeus, em geral, oferecem uma grande oportunidade de abrir as portas. Permitem testar e validar coisas novas como novas metodologias da ciência cidadã, no meu caso, de monitorizar a poluição por odores. Conseguimos envolver comunidades reais, com problemas reais, e envolvê-las na solução dos problemas, juntamente com as Câmaras Municipais e as Autoridades Ambientais, com as indústrias que emitem os odores e fazê-los sentar, numa mesa, para que pelo menos comecem a discutir a situação.”

– Rosa Arias

Também esteve presente Pablo Camacho, em representação da Fundación Española para la Ciencia y la Tecnología (FECYT). A sua intervenção, por ser uma realidade distinta da portuguesa, surpreendeu o público. A FECYT tem uma linha de financiamento específica para projetos de ciência cidadã e Pablo explicou que a Fundação tem uma preocupação crescente com os movimentos de relação entre a ciência e a sociedade. Essa linha de financiamento da Fundação Espanhola destina cerca de quatro milhões a projetos que consigam estabelecer essa relação, em particular projetos de ciência cidadã.

 

“É verdade que na FECYT o nosso foco está mais na parte da comunicação, com a qual incentivamos e promovemos este tipo de atividade. Quanto à ciência cidadã, isso vem a calhar, pois é na ciência cidadã que as relações ciência-sociedade se tornam uma realidade, também com os decisores políticos. A partir da FECYT, podemos ter uma visão geral do que está a ser feito e, até ao momento, está a ser bem feito. Embora, por outro lado, tenhamos uma responsabilidade na hora de financiar determinados projetos, pois serão eles que marcarão o trajeto da ciência cidadã.”

– Pablo Camacho

No caso de Rosa, o seu projeto recebeu apoio financeiro da FECYT por três anos. Este apoio permite ter uma pessoa a tempo inteiro dedicada ao projeto, o que é uma grande ajuda para projetos que estão a começar.

“É um financiamento pequeno, mas é muito bom porque permite começar. É muito importante e dá a possibilidade de concorrer novamente no ano seguinte. Considero ser uma oportunidade boa também para os investigadores lançarem este tipo de projeto, serem ousados e fazerem alguma ciência cidadã porque senão é muito difícil de começar, mesmo quando se tem uma ideia.”

– Rosa Arias

 

Concluindo…

A ciência cidadã é um dos eixos para uma ciência cada vez mais aberta, mais inclusiva e mais responsável. As iniciativas ou projetos de ciência cidadã promovem o envolvimento de cientistas e investigadores que precisam de dados científicos ou têm interesse por determinado tema, cidadãos que têm interesse nesse tema e, por vezes, outras entidades que podem estar envolvidas, de alguma forma, neste processo de colaboração.

Existem alguns projetos de ciência cidadã em Portugal que tentam estabelecer esta relação entre a ciência, a sociedade e outros agentes. O mais usual é surgirem a partir da comunidade científica, ou seja, a partir da necessidade dos próprios cientistas de recolherem dados científicos e daí saem estes projetos ou “pedidos de colaboração”, onde cada cidadão pode participar e ajudar a ciência.

Apesar de esta prática científica ser bastante interessante, não pode ser generalizada a todos os projetos científicos, uma vez que nem todos têm a necessidade do mesmo tipo de dados. A criação deste género de projetos desnecessariamente pode ser prejudicial para a própria ciência cidadã, uma vez que pode pôr em risco os projetos que necessitam verdadeiramente da ajuda dos cidadãos para obter informação.

Nesse sentido, o financiamento de projetos de ciência cidadã poderá fazer sentido se inserido nos projetos de investigação que a FCT financia anualmente, como referiu o ministro Manuel Heitor. Contudo, há outros aspetos da ciência cidadã que podem ser financiados, e que a distinguem da educação para a ciência, como o foco na produção de conhecimento científico.

 

Esta reportagem, criada no âmbito da Bolsa Gerador Ciência Viva para jovens jornalistas, foi inicialmente publicada na Revista Gerador 37.

Dá continuidade à leitura da reportagem na Revista Gerador ouvindo mais conteúdo aqui.

 

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