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Crónica sobre o Filho-da-Puta

©Jenniffer Lima Pais

"(...) O filho da puta não consente na despreocupação e, assim que vê alguém satisfeito e despreocupado, logo se mete a levar a preceito a sua preocupação, e se intromete de forma a acionar aquele sistema global que para si é o único que vale, intervém a fim de restabelecer a ordem devida (para ele a ordem de vida), interfere a fim de reavivar a consciência da preocupação e do sacrifício que a vida é e deve ser.”

Alberto Pimenta, Discurso Sobre o Filho-da-Puta, 1977


Desta vez não deu para fugir. Esta crónica é mesmo sobre o Filho-da-Puta, essa figura abstrata e arquetípica que Alberto Pimenta tão bem utilizou para satirizar lugares de poder, cargos de soberania, instituições e, no fundo, Portugal.

A mais recente polémica em torno do encerramento de serviços de urgência de ginecologia e/ou obstetrícia pelo país, é uma narrativa perfeita da atuação do Filho-da-Puta. Uma evidência empírica da Filha-da-Putice que abunda no nosso parlamento, país e bastidores, e que, por isso, importa dissecar.

Já todos sabemos que há falta de médicos no SNS. Sabemos que o subfinanciamento é crónico (independentemente do que venha dizer Fernando Medina). Sabemos que os problemas são graves e estruturais. É uma grande verdade. Nós sabemos disso. António Costa sabe disso. Marta Temido sabe disso. Os deputados sabem disso. Os partidos também sabem disso. Assim como os profissionais de saúde e administradores hospitalares das unidades onde tudo isto se tem vindo a passar e que propositadamente deixaram a bolha rebentar. Toda a gente sabe disto.

Não desvalorizo a gravidade das notícias sobre grávidas forçadas a deslocações absurdas, partos em ambulâncias e até perdas de bebés que têm vindo a ser associadas à falta de profissionais que possam dar assistência. É mau, muito mau. Inadmissível. Todos nós sabemos disso.

A questão é que este mal não é de agora, daí que dê ares de Filha-da-Putice quererem convencer-nos que seja.

O aproveitamento político – ou Filha-da-Putice, como queiram chamar - que se faz de uma situação de emergência para ganhos políticos é, à falta de melhor palavra, parvo.

No passado dia 17 de junho, a ministra da Saúde foi ao parlamento ouvir enxovalhos sobre a indesculpável culpa dela, do Governo, de António Costa e de todos os que tenham lugar cativo naquela bancada onde se nota mesmo que só lá vão quando são obrigados “por regimento a dar explicações”. Era suposto ser um debate (mas que sabemos nós disso?).

Falar de Filha-da-Putice não é propriamente falar de realidades inéditas, mas isso não me impede de destacar o lamentável circo em que se torna a (suposta) discussão de soluções para minimizar as fraquezas do nosso SNS. Foram horas de acusações inúteis - vindas da direita, da esquerda, do meio, do extremo - e promessas vãs, que pouco fazem para dar resposta ao problema. Filha-da-Putice, em resumo.

A tristeza maior, é que esta Filha-da-Putice constante é o que faz com que Filhos-da-Puta profissionais tomem a razão que nunca terão. Winston Churchill já tinha dito – ou dizem que disse, vá – que “a democracia é a pior forma de governo à excepção de todas as outras”. Neste tipo de situações, dá para ver que não falava de cor.

Num cenário de emergência, em que nos vemos confrontados com a necessidade imperiosa de atuação concreta, vemos todos os nossos representantes ceder à demagogia. Não admira, portanto, que depois venham a público as constatações de que “Portugal sofreu retrocessos na democracia” (Relatório Global sobre o Estado da Democracia, 2021), que sejamos considerados uma “democracia com falhas” (ranking da Economist, 2022), e que a nossa abstenção seja sempre quem ganha as eleições. Na hora de votar, os cidadãos preferem antes dar aos políticos indicações de regresso às origens.


-Sobre Sofia Craveiro-

Espírito esquizofrénico e indeciso que já deu a volta ao mundo sem sair do quarto. Estudou Ciências da Comunicação nesse lugar longínquo é a Beira Interior, e fez o mestrado em Branding e Design Moda, no IADE/UBI, entre Lisboa e a Covilhã. Viveu tempos convicta a trabalhar na área da Moda até perceber que não tinha jeito nenhum. Apaixonou-se pelo jornalismo ao integrar um jornal local teimoso e insistente que a fez perceber o quanto a informação fidedigna é importante para a vida democrática. Desde essa altura descobriu também que aprecia ser In.so.len.te e que gosta de fazer perguntas para as quais não tem resposta. Encontrou o seu caminho nesta casa chamada Gerador, onde se compromete a suar a alma em cada linha escrita.

A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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