Na última terça-feira, 1 de junho, assinalou-se mais um Dia Mundial da Criança. Às 09h40, recebia uma chamada da minha mãe, que me ligou para, alegremente, me desejar um “Feliz Dia da Criança!”, porque o somos e seremos, sempre, para os nossos pais. E ainda bem que assim o é, ainda bem que ligou, ainda bem que nada fazia prever que houvesse motivos para que não fosse um dia feliz… Mas esta é a minha realidade, que já nem criança sou. Na verdade, no mundo, naquele dia, e em todos os outros, há crianças que morrem à fome, a viver em zonas de conflitos armado, em locais onde não sei o que significa ser “feliz”. Nem ser criança.

Não terá acontecido exatamente nestes moldes em tempos de pandemia, mas num ano “normal”, esperar-se-ia que escolas e municípios, em Portugal e grande parte do mundo, organizassem celebrações e iniciativas, que incluiriam balões, palhaços, jogos lúdicos e pedagógicos e até, quem sabe, atividades culturais. Não interessa. Seria o dia das crianças, em que as quereríamos ver – como, de resto, sempre – com um sorriso de orelha a orelha. Felizes.

Nas escolas, lembrar-se-ia que o Dia Mundial da Criança foi estabelecido oficialmente em 1950, com o objetivo de sensibilizar para os direitos das crianças e para a necessidade de promover uma melhoria das condições de vida, tendo em vista o seu pleno desenvolvimento.

No fundo, isto aconteceria na generalidade dos países desenvolvidos. Mas há mais mundo, e muitas crianças que, certamente, tiveram um dia diferente. Talvez estivessem a passar o mediterrâneo, talvez procurassem água, talvez fugissem com os pais de um ataque armado, talvez fugissem sozinhas, talvez tenham visto os seus pais morrer… À escola, seguramente, muitas não foram. São hipóteses tão dramáticas, quanto realistas. Porque a guerra não pára para que estas crianças tenham “o seu dia”, em paz, sem fome e sem medo.

Em 2019, cerca de 420 milhões de crianças viviam em zonas afetadas por conflitos armados, apontou um relatório da organização não-governamental Save the Children, que dava ainda conta de que, entre 2013 e 2017, mais de meio milhão de crianças teriam morrido por consequências indiretas da guerra, como desnutrição, doenças e falta de cuidados de saúde.

Segundo a ONU, quase 50 milhões de crianças com menos de cinco anos de idade sofrem de desnutrição aguda e 149 milhões têm o desenvolvimento e crescimento atrofiados, devido à desnutrição.

Na Síria – onde se estima que perto de 12 mil crianças tenham morrido ou ficado feridas, na última década – quase 90% delas necessitam de assistência humanitária [1].

Em Moçambique, duas mil das 364 mil crianças que se encontram entre os deslocados dos conflitos em Cabo Delgado passaram este Dia Mundial da Criança sem as suas famílias [1].

Um último número. Pelo menos, 2300 crianças perderam a vida no Mediterrâneo, entre 2014 e 2020, tendo-se perdido o rasto a outras 18 mil, entre 2018 e 2020 – muitas das quais são desviadas por redes de tráfico de seres humanos e destinadas à exploração laboral e sexual.

Podíamos continuar com outros exemplos, outros países, e mais e mais crianças.

Este dia é de todas as crianças, do hemisfério norte e sul do planeta, mas, para mim, é principalmente daquelas que não têm acesso a condições básicas de vida, das que passam fome, das que fogem da guerra, das que vivem em campos de refugiados, das que, seja por que motivo for, não podem frequentar a escola.

Este dia é de todas as crianças, mas principalmente daquelas que cedo deixam de saber o que isso é. Porque poder ser criança também é um privilégio de muitas.

[1] Fonte: Unicef
[2] Fonte: Estudo realizado pelo jornal britânico The Guardian e o Consórcio Jornalístico Lost in Europe

-Sobre Flávia Brito-

É portuguesa, afrodescendente, mulher, jornalista, dos subúrbios, e muito mais. Licenciou-se em Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social (ESCS). Trabalhou em revistas, departamentos de comunicação autárquicos, foi repórter do programa “Bem-Vindos da RTP África” e também já deu um pulinho ao marketing, onde trabalhou em criação de conteúdos. A dada altura, o caminho parecia mesmo passar por aí e apostou numa pós-graduação em Branding e Content Marketing na também na ESCS, para depois descobrir que a precariedade e a falta de oportunidades lhe estavam a enviesar o percurso. Encontrou no Gerador um lugar onde reabraçou o jornalismo, e por aqui anda a tentar das o seu contributo para uma sociedade mais esclarecida, justa e tolerante.

Texto de Flávia Brito
Fotografia de David Barata