O trajeto do autoconhecimento é uma batalha constante, que força o indivíduo a encarar de frente as suas fragilidades, que toca o recanto mais íntimo do ser. Exteriorizar os medos, expor tudo o que nos desconforta e inquieta, é um verdadeiro desafio. Mas a beleza do trajeto está no poder de transformar essas inseguranças em arte, de passar do medo ao sonho. É uma metamorfose interior, um processo de criação artística inteiramente honesto e real.

Serotonina”, o álbum de estreia do rapper E.se, é um registo de sombra, com melodias de luz. Nascido em 1991 e oriundo de Almada, E.se é o nome artístico do rapper Carlos Alves. Médico de profissão, encontrou nos versos e nas batidas o seu universo predileto para solucionar os cenários hipotéticos que não consegue desbloquear. É por isso que se serve da ansiedade e negatividade para impulsionar os seus sonhos, como um “combustível diário” que dá asas a este projeto musical.

E.se é o nome artístico de Carlos Alves, rapper da margem sul do Tejo e autor do álbum "Serotonina"

A escrita é a prioridade de E.se, uma lírica transparente, livre e versátil, que pretende desconstruir uma “dor incompreendida” e aproximar-se dela com amizade. Um jogo de palavras, com histórias que elevam as fases piores da vida a um patamar de aceitação e realização.

Em 2020, lançou “Casulo”, o primeiro avanço do álbum de estreia “Serotonina”, que eclodiu agora em 14 faixas escritas pelo próprio, com produção, masterização e mistura de Johnny Virtus, rapper e produtor da cidade do Porto. Na faixa “Estocolmo” conta ainda com a participação do rapper João Tamura e produção de Wake Up Sleep.

Inspirados pela jornada que alimenta este projeto, o Gerador falou com E.se, a propósito do lançamento do primeiro álbum “Serotonina”, que descreve a forma como “recorre às fraquezas na tempestade” e usa os “e ses” como escudo para as enfrentar.

Gerador (G.) - Qual foi o primeiro “e se” da tua vida? E já que falamos nisto, conta-nos a origem do “E.se”.
E.se (E.) - É difícil, para mim, mencionar especificamente qual o primeiro ou quando começaram. Provavelmente, desde sempre. Revendo-me num indivíduo ansioso, é difícil nos momentos de maior insegurança não ser invadido por pensamentos negativos e que me fazem questionar as minhas virtudes. Posso dizer que, quando me apercebi do impacto que estes pensamentos tinham na minha vivência, na forma como infligiam brechas naquilo que pensava ser uma estrutura sólida, já eu tinha percorrido uma estrada com demasiados pensamentos negativos. Um dos que mais me afetou foi se seria sempre vencido pela perspetiva da longevidade de uma vida ensombrada por esses pensamentos negativos e ansiedade, e se isso me tiraria a capacidade de viver uma vida plena e com sonhos.

Com o tempo, aceitei que sou feito disso tudo e que o caminho mais honesto para me aceitar é reconhecer que sou fruto desse balanço de sonho e de momentos de maior negatividade, de êxtase e ansiedade, e que “se há uma sombra, há uma luz que a projeta”. É essa a origem do E.se.

Capa do álbum "Serotonina", de E.se

(G.) - Essa viagem imprevisível da medicina para o rap, como aconteceu?
(E.) -Quando era mais novo, a música tinha já um papel importante na minha vida, mas só quando entrei na faculdade mergulhei verdadeiramente no universo das batidas. Sempre fui um pouco procrastinador e ia adiando o estudo até à altura em que me focava e estudava cerca de 14 horas por dia durante várias semanas. Nessas alturas, a música era uma companhia insubstituível, e animava-me saber que teria as tais 14 horas por dia para descobrir álbuns/mixtapes e expandir o meu conhecimento por géneros musicais diferentes, do hip-hop ao blues, de bandas sonoras ao jazz.

Comecei também a perceber que quando ouvia beat tapes, não intencionalmente, começava a fazer freestyles, o que rapidamente transportei para os meus convívios com amigos, tornando-se um hobbie pela noite fora. A viagem provavelmente aconteceu assim, a Faculdade de Medicina proporcionou-me horas e horas de imersão musical em que ia conhecendo cada vez mais artistas de rap e me polarizava cada vez mais nesse espetro musical.

(G.) - Fala-nos sobre estes dois universos, como é que os relacionas nos teus trabalhos?
(E.) -O meu trabalho enquanto médico é um trabalho realista e cru, expõe-me diariamente à inevitabilidade da nossa condição, à fragilidade e ao sofrimento, à aceitação da doença, às pazes com a morte. É bastante exigente no que é esperado de mim, não só pelos doentes e pelos colegas, mas especialmente na exigência que ponho para mim mesmo em não falhar nas metas que estabeleço para mim, cientificamente e humanitariamente.

Ao final de dois anos a trabalhar, apercebi-me de que uma das facetas mais importantes para a minha plenitude, a de imaginar e criar, se tinha perdido lentamente ao tentar resolver diariamente problemas práticos e mais reais. Foi então que comecei, no meu tempo livre, a dedicar-me cada vez mais consistentemente a escrever e a recultivar essa relação com a minha imaginação, através da música e do rap. Na música, trabalho sentimentos e emoções, exteriorizo medos e inseguranças que, no meu dia -a -dia, virtude da pressão e do que o meu trabalho me exige, tenho dificuldade em exprimir.

"Prólogo" é a faixa de introdução do "Serotonina", que fala sobre a jornada de perceção das ansiedades e fragilidades

(G.) - Ao percorrer as várias faixas encontramos uma versatilidade de melodias e versos. Em que influências musicais te exprimes/enquadras melhor?
(E.) - Fico feliz por esse balanço de melodias e versos ser sentido por quem me ouve. Quando ouço um tema espontaneamente estou a pensar em abordá-lo em diferentes registos, uns mais cantados, outros mais cadenciados por rimas.

Provavelmente, essa maneira de abordar as minhas músicas vem muito de onde bebo e me influencio. Desde liricistas como o Kendrick Lamar, Sam the Kid, o Johnny Virtus ou o Black Thought, a artistas que infundem essas melodias e esse funk nas suas músicas, como o Mac Miller, o Anderson Paak, os Outkast, o SP Deville e o Isaiah Rashad.

(G.) - Sobre a criação/produção do “Serotonina”, como caracterizas o teu processo criativo neste álbum de estreia? Como organizaste as ideias na “massa cinzenta”?
(E.) - Sendo o meu álbum de estreia, pretendia que fosse o mais honesto e íntimo com as minhas motivações para escrever e para com a origem do E.se. Que contasse essa história e narrasse essa jornada. A “Prólogo” pretende transmitir isso mesmo, o início de uma viagem por um subconsciente gasto por medos e ansiedade e como, com a escrita, tento libertar esses “e ses” e usá-los como combustível —“faço estas linhas e o resultado, ganho balanço neste mar quebrado”. A composição, a escrita e sua transformação final em músicas têm esse papel libertador, ajudam-me a desconstruir pensamentos, a moderar a minha ansiedade, a ridicularizar os meus medos. Libertam-me serotonina, esse neurotransmissor cerebral que escasseia quando toda a negatividade surge.

O álbum é um espelho do crescimento e da evolução das resoluções de E.se

G.) - Foi um processo uniforme ou sentes que foste evoluindo nas tuas resoluções, nesses desbloqueios de cenários hipotéticos?
(E.) - O processo de composição do álbum pretendeu espelhar esse crescimento, partindo dos negativos para revelar uma imagem mais completa e nítida. As primeiras quatro faixas do álbum: “Prólogo”, “Serotonina”, “Melancolia Vespertina” e “Casulo”, focam-se mais nesse aspeto de aceitação e nessa jornada. A partir daí, constroem-se as fundações nas quais me ergo, para abordar temas como a importância da imaginação num mundo cada vez mais imediato e realista em “Ode”; a importância da perspetiva na crença da “Meritocracia”; homenageio o Mac Miller, um dos meus ídolos, em “Nadar em Círculos” e falo da dependência da rotina, que nos esconde de nós próprios em “Estocolmo”, tema em que colaboro com o João Tamura e com o Wake Up Sleep.

(G.) - És um rapper de Almada, és fruto da “outra margem do Tejo”. Que “Flavour de Almada” é esse, que transportas para as tuas músicas?
(E.) - Ser da Margem Sul é como o José Mariño disse recentemente, “ser do Bronx português”, no que diz respeito ao ser o berço do rap em Portugal. É um orgulho, para mim, ser desta margem do Tejo e fazer com que as pessoas que sentem a margem da mesma maneira que eu, se sintam orgulhosas e representadas. Esse Flavour de Almada, essa mentalidade que nos caracteriza resulta de uma diversidade cultural em que desde sempre estamos habituados a abraçar a diferença e a mistura como algo enriquecedor.

(G.) - Como chegaste ao “F de força na insegurança” no teu trabalho? Foi, ce­rtamente, um caminho atribulado, encontrar essas fragilidades e a seguir expô-las em versos.
(E.) - A F de força na insegurança fala de como, muitas vezes, nos representamos nas relações amorosas, em que, ao pensarmos que a verdadeira força advém de parecermos flawless, criamos uma imagem perfeita, estudada, em que escondemos as falhas e inseguranças para parecermos “mais”. Esse processo acaba não só por ser desgastante, mas uma prisão. Nessa música falo da verdadeira força, essa que reside em sermos transparentes numa relação, em como isso nos torna mais leves, livres e concretizados.

A faixa "Estocolmo", com a participação de João Tamura, retrata a relação de dependência entre nós e a rotina, a vítima e agressor

(G.) - Não estiveste sozinho no processo. Temos uma presença vincada do Johnny Virtus, Wake Up Sleep e ainda a participação do João Tamura. Fala-nos sobre essa partilha de experiências e vivências entre vocês, ao longo da criação do álbum.
(E.) - A minha vontade e a capacidade de acreditar neste projeto foi muito alimentada pelas pessoas com quem tive a oportunidade de trabalhar. O Johnny Virtus sempre me inspirou, é para mim um dos artistas mais completos em Portugal e ter tido a possibilidade de trabalhar com ele e vê-lo a acreditar no meu potencial, inspirou-me muito. Foram também as sessões de estúdio com ele no Porto, e com o Sahid em Almada, que mudaram drasticamente a maneira como abordava as gravações, de forma mais profissional, deram-me esse know how.

Mesmo sendo um primeiro projeto, tinha a ambição de que soasse cuidado e num determinado patamar. Na vertente de produção, os instrumentais do Virtus e do Wake Up Sleep permitiram-me chegar a essa estética sonora e atingir essa identidade que ambicionava muito para o meu álbum. Além disso, colaborar ainda com o João Tamura, um dos rappers com o pen game mais afiado em Portugal, na faixa Estocolmo”, foi um privilégio.

(G.) - Saíste do “Casulo” com este álbum de estreia. Qual é a sensação de o ver concretizado?
(E.) - Pela atual situação a nível nacional, o processo de finalização do álbum acabou por se arrastar um pouco mais do que era esperado. Em novembro eu já tinha talvez 90% do álbum fechado, e, por isso, o lançamento foi quase uma libertação de algo que eu, mentalmente, já sentia, para mim mesmo, como concretizado. Claro que, quando disponibilizamos para os outros algo tão íntimo e fundo sobre nós próprios, é toda uma nova sensação, há medos e inseguranças e toda uma face minha que passa a estar ali exposta. Mas há também uma liberdade nessa exposição, e se puder ajudar outras pessoas a aceitarem melhor as suas falhas, a não se castigarem tanto, a não fazerem dos pensamentos mais do que eles são, será, sem dúvida, uma das maiores conquistas com a minha música.

Nas várias faixas do álbum "Serotonina", o MC de Almada demonstra versatilidade de versos e melodias

(G.) - O “Epílogo” encerra um círculo e abre outro. É um presságio de que o teu trajeto musical está só no início?
(E.) - O “Epílogo” é um resumo da travessia no “Serotonina” em que “pus a escrita em dia (...), pus nessa obra o meu mundo e aquilo que eu queria”. As últimas palavras neste disco são essas mesmas, “círculo fechado, círculo aberto...”. Confirmam o encerramento de um círculo, deixando imediatamente outro aberto numa promessa que espero ver cumprida mais cedo do que tarde.

Texto de Ana Mendes
Fotografias da cortesia de E.se

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