Com Rodrigo Saraiva 

Qual é a tua memória mais antiga?

A minha memória mais antiga é, inegociavelmente, o tempo livre que os meus pais foram tendo para mim enquanto cresci. Em todos os segundos vivi a noção que tinha um ímpar par de pais, e isso reflecte-se na forma como olho para o meu filho. Contrariando os lugares comuns que vamos herdando nesta cultura de fado e sorridente conformismo, eu tive uma infância muito feliz.

Qual foi a última vez que testemunhaste algo de transcendente?

O nascimento do meu filho. Um ode à comoção. O mais irreplicável dos momentos e a chance certa de fazer tudo bem feitinho. É, também, a altura em que descobri que algumas palavras tropeçam na forma e no conteúdo. Não é possível ser justo e falar disto na medida certa, ficará para sempre aquém do que preciso.

Qual é o teu lugar predilecto?

Tenho lugares vários que sinto serem sinónimos de conforto. Mas a locais somo rituais e mini actividades que garantem o meu pavloviano regresso. E, à medida que envelheço, tornam-se substancialmente mais simples. A saber? A minha casa, um edredon grosso e um chá ao fim do dia faz-me sorrir durante largas horas.

E conta-me uma história, por favor. Algo que tenhas vivido e em que penses, uma história tua.

Lembro-me de um velho, que fui acompanhando de perto porque não sei esconder algum voyeurismo comportamental, que levava a sua mulher, deficiente profunda, a ver o tejo diariamente. Silenciosamente, pintava-lhe as unhas do alto da sua minúcia e ali ficavam. Em plena quietude. Uma vez, não segurando os limites da curiosidade, perguntei-lhe quem eram. Contou-me que a mulher teve um acidente grave e que vivem com interacções muitíssimo limitadas há 32 anos. Ainda assim, nas palavras dele, “trazê-la ver o Tejo e fazê-la sentir-se bonita” é a missão que tenho. Há anos que não os vejo. Há anos que sinto que estamos distraídos e deixar estes velhos e estes gestos a passarem-nos entre os dedos

Entrevista por Gil Sousa

Foto por Rui Costa Mateus