A Escola Artística de Dança do Conservatório Nacional está a preparar doze alunos para duas competições internacionais de dança. No total, são onze alunos que concorrem ao Tanzolymp, em Berlim, enquanto um dos participantes vai representar Portugal no Prix de Lausanne, na Suíça.

Todos os anos centenas de jovens entre os 10 e os 21 anos têm a oportunidade de participar no Tanzolymp, em Berlim. Sob o lema dance as global language, este festival de dança promove oficinas, aulas e competições. Além de contribuir para a expansão da dança, este evento apoia a diversidade estética de estilos artísticos. Os premiados podem receber bolsas de estudo para as principais escolas de ballet internacionais, assim como oportunidades de trabalho, contratos, apoio monetário ou maior visibilidade para a construção da sua carreia.

Este ano, além das participações a solo, a escola apresenta uma participação coletiva com danças tradicionais: o fandango e os sargaceiros da apúlia. O processo de candidatura foi realizado sob proposta do seu diretor artístico, José Luis Vieira:  “Nunca antes se levaram danças tradicionais portuguesas a um concurso internacional. Há falta de variedade de estilos e nós temos danças vistosas, virtuosas e técnicas, que mostram algo diferente.” Em anos anteriores já se realizaram vários espetáculos de final de ano com a escola a apresentar danças tradicionais. Um gesto muito significativo na promoção e reinvenção da nossa génese cultural. O diretor da Escola Artística de Dança do Conservatório Nacional, Paulo Ferreira, acrescenta que “estas danças, interpretadas de forma estilizada, pretendem ser uma demonstração daquilo que é a dança tradicional num contexto artístico e profissional”.

Desde setembro, os jovens candidatos têm sido ensaiados e acompanhados pelos seus professores. Esta realidade também se aplica ao aluno Pedro Silveira, que vai estar uma semana no Prix de Lausanne. Neste caso, uma competição de dança internacional que está destinada a jovens entre os 15 e os 18 anos. Este concurso está associado às mais prestigiadas escolas de dança e procura promover e apoiar jovens talentos através de bolsas para o desenvolvimento das suas aptidões e carreira.


Fotografia oficial de Pedro Silveria para o Prix de Lausanne 2020


Nesta competição procura-se a figura perfeita e, por isso, Paulo Ferreira relembra que “temos de ter a certeza absoluta que não estamos a colocar demasiada pressão nos alunos e que esta atividade não prejudica o seu percurso académico”. O próprio diretor artístico, José Luis Vieira, refere que “
Lausanne é um concurso tão exigente que, muitas vezes, temos alunos com excelente capacidade técnica mas não têm o físico exigido”. Além de se avaliarem os bailarinos em palco, “o júri tem acesso às aulas diárias dos alunos durante uma semana, sendo que as variações que foram ensaiadas pelos seus professores passam a ser ensaiadas pelas estrelas que lá estão e que fazem o seu próprio coaching das variações”. A dança clássica ainda habita num imaginário de perfeição articulada entre as componentes física e técnica. Desde o pormenor ao plano geral: a proporção do corpo, a expressão, o modo como o corpo flutua no ar e aterra no palco.

Durante a visita do Gerador à Escola Artística do Conservatório Nacional, tivemos a oportunidade de assistir a alguns ensaios e até de conversar com um dos alunos que vai ao Tanzolymp. Gaspar Ribeiro está na escola há cerca de seis anos. Começou motivado com a ideia de dançar, mas no caminho ganhou objetivos maiores. É um dos participantes a solo do concurso realizado em Berlim e, por isso, partilha a sensação comum à maioria dos alunos que se preparam para estes eventos: “Provavelmente o mais complicado é o medo de desiludir os outros. Pode correr-me bem durante os ensaios, mas pode não correr bem no espetáculo. Acho que todos temos medo de desapontar, mas cada pessoa é diferente e gere essa situação da sua forma. Eu, por exemplo, irrito-me comigo mesmo, mas tenho fases.”

Os alunos que se apresentam a solo, tanto em Berlim como na Suíça, vão interpretar variações, de clássico e de contemporâneo, que integram o repertório canónico de dança. Segundo José Luis Vieira, “a escola é conhecida pela dualidade de tanto apresentar bons alunos no clássico como no contemporâneo. Eles não tendem necessariamente para um dos lados, pois têm desenvolvido em paralelo os dois estilos de dança”. De facto, esta versatilidade e capacidade de adaptação tornam-se vantajosas para a possível integração numa grande companhia de bailado com repertórios clássicos e contemporâneos.

Muitas vezes, esquecemo-nos que estes adolescentes estão a desempenhar papéis adultos de bailados intemporais. Além da técnica exigida, também há um trabalho da expressão dramática que é preciso ser desenvolvido. Paulo Ferreira relembra que “uma das coisas mais importantes na dança é a expressão do rosto. Desde o início, os alunos são preparados para isso, mas é algo muito difícil para eles, porque estão numa idade em que a expressão do rosto não deveria revelar o que estão a pensar. O grande problema é introduzir a expressão”. Há, no fundo, uma aceleração de várias componentes do seu crescimento individual. Paulo Ferreira sabe que “quanto mais exigente for o papel pior é, porque eles já sabem: são mais horas, dias, semanas, meses, com sucessivos está mal, faz outra vez, está mal, repete. Há sempre aquela ambivalência: vou optar por algo que quero fazer, mas vai sair-me da pele”.

Neste momento, a dança clássica atingiu um grau de virtuosismo que é difícil de acompanhar, enquanto a dança contemporânea continua a levar o corpo ao seu extremo. A exigência e o rigor que são frequentemente pedidos obrigam a grandes superações pessoais, que só são possíveis quando existe verdadeira vontade, vocação e apoio. É por esse motivo que, com o avançar dos anos, há alunos que vão abandonando os estudos e encontrando outros caminhos. É frequente reparar como a competição feminina é, de certo modo, mais intensa. Historicamente, estimulou-se a dança sobretudo entre mulheres, fazendo com que atualmente o número de bailarinas seja superior ao de bailarinos. Por esse motivo, a competição é feita entre um maior universo de pessoas e de forma mais implacável: “Os rapazes gostam quando o desafio está na dificuldade. As raparigas já não gostam tanto, porque muitas vezes a dificuldade das raparigas é superior. Talvez não procurem tanto isso.”

Os concursos exigem o esforço voluntário dos seus participantes, obrigando à articulação de uma carga horária exigente e à gestão de expetativas sobre o seu trabalho. José Luis Vieira lembra que “os professores também dedicam o seu tempo e a sua atenção, mas os alunos é que têm de ter força interior para conseguirem fazer esta preparação que é voluntária”.

Naturalmente, nada seria possível sem o apoio das próprias famílias. Felizmente, há uma vibração bastante familiar nesta escola. A comunidade de alunos, professores e pais relaciona-se de forma próxima, o que permite fortalecer a qualidade deste espaço de aprendizagem. Há muita cooperação e entreajuda, como nos pôde relatar João Moita. Enquanto osteopata da escola, segue e procura encontrar soluções para as queixas, as lesões e os problemas físicos de cada aluno. Contudo, a sua preocupação não se restringe apenas ao físico: “A dança produz imensas lesões e a forma mais fácil de não produzir lesões é deixar de dançar, mas isso não faz sentido. Eles têm de parar quando é preciso parar, mas o desafio aqui é mantermos a dançar de forma saudável. Muitas vezes temos miúdos incríveis tecnicamente, mas a cabeça é o que os vai trair ou não deixar utilizar aquele potencial todo.”

Na verdade, a maior parte dos atletas de alta competição, como podem ser equiparados estes bailarinos, têm sintomas de depressão na fase pré-competitiva. A pressão imposta, o perfecionismo, assim como o medo de falhar e de desiludir os outros são gatilhos que despontam picos de ansiedade, muitas vezes concretizados em bulímias nervosas e outros transtornos psíquicos repercutidos no corpo. Tornou-se, por isso, obrigatória a existência de um gabinete de psicologia que, neste momento, funciona regularmente com Fátima Banha. João Moita, por conversar regularmente com os alunos, por vezes, serve de ponte para o gabinete de psicologia. “A competição é surda, não se ouve, é entre eles. Eles não competem com o colega do lado flagrantemente, mas competem e tudo isso cria uma constelação de acontecimentos que é preciso saber gerir na cabeça de uma adolescente.

Enquanto investigador de lesões na área da dança, João Moita recorda que os picos com mais bailarinos magoados, pertencentes ao ensino secundário, estão intimamente ligados aos seus períodos mais ativos (início do ano letivo, oficinas coreográficas, espetáculos finais). “Eles não dançam mais horas, mas a intensidade de esforço é muito maior. A ansiedade dispara, instaura a fadiga, que consome energia.”

A Escola Artística de Dança do Conservatório Nacional é a única instituição pública do país que integra o currículo oficial académico, comum a qulquer escola pública, e ainda o currículo artístico com várias disciplinas de dança. Este último é desenvolvido por um corpo docente preparado e experiente, através de aulas com um piano ecoado ao vivo. Especialmente a partir do 9.º ano de ensino, é verdadeiramente necessário existir um gosto genuíno por dançar. João Moita acrescenta: “Estes miúdos são especiais. Um miúdo que passa por aqui, que faz os oito anos de formação, tem um caráter diferente. Não temos um bailarino de sucesso sem ele ter uma relação familiar de sucesso ou uma capacidade de resiliência fantástica. Quando um miúdo decide entrar para a dança, vem a família toda.”

O apoio prestado pelos pais pode ser reconhecido em inúmeras atividades, tal como é exemplo a Associação de Pais do Conservatório de Dança. É importante referir que nem todos os alunos têm o suporte financeiro necessário para participarem nestes concursos. Contudo, em parceria com a escola de dança, reuniram-se esforços para a organização de eventos que permitiram a participação de todos os alunos, independentemente de outros constrangimentos. Um esforço conjunto que é importante valorizar.

O Prix de Lausanne realiza-se entre os dias 2 e 9 de fevereiro e é possível seguir cada uma das etapas através das redes sociais. Os restantes alunos marcam presença no Tanzolymp no dia 17 de fevereiro. Fiquem atentos a estes bailarinos em potência.

 


Texto de Mafalda Lalanda
Fotografia de Mafalda Lalanda