Um dia pensei: quando for grande vou ter muitos filhos e quando estiver grávida nunca vou estar triste, porque bastar-me-á pensar que tenho um bebé na barriga para me sentir eternamente feliz. Esse dia desdobrou-se em vários, que se distribuíram em meses e anos pela minha adolescência fora.

A idade adulta ameaçava algum realismo ao meu preconceito justamente na altura em que soube que, por diferentes razões de saúde, engravidar um dia poderia ser difícil, ou até mesmo impossível. O receio de não poder engravidar fez-me colocar a gravidez numa campânula de vidro incorruptível, no cimo de um altar que eu ia observando ao longe, com alguma tristeza.

Quis o destino que afinal os meus medos não se concretizassem e eis-me de esperanças, em todo o meu esplendor, repetindo para mim mesma constantemente: não foi isto que me venderam.

Eu amo estar grávida em termos conceptuais; já em termos práticos, não sei bem qual é a minha opinião. Para começar, não estava preparada para passar quase três meses numa ressaca contínua de vinho carrascão. Só vomitei uma vez, mas isso não quer dizer nada porque a vontade esteve sempre lá. Enquanto o meu estômago se entretinha a pensar se me punha de joelhos abraçada à sanita, o meu intestino nunca a quis mais longe: mês e meio de gravidez e mais parecia que levava quatro. Antes sequer de ter um médico que me pudesse aconselhar, precisei de intervir urgentemente nesta inacção intestinal e fui a uma farmácia comprar um laxante que já conhecia.

- Este laxante é adequado para grávidas?

- Não podemos dizer, tem de perguntar ao seu médico.

- Tem algum laxante adequado para grávidas?

- Não, tem mesmo de falar com o seu médico.

Noutra farmácia, e noutra altura, lembrei-me de comprar um gel para as pernas cansadas. Outra vez a mesma história.

- É adequado para grávidas?

- Não.

E não havia na porra da farmácia nenhum gel para pernas de grávida, que são as mais cansadas que existem à face da Terra e que, como o intestino, parecem estar sempre em risco de explosão.

É só até aos três meses, já passa, aguenta mais um bocadinho, diziam-me, e eu estava desertinha de transpor essa linha. Felizmente transpus, sinto-me privilegiada por isso, mas apenas uma semana depois tivemos de ir até ao hospital descobrir que o sangue que perdi se deveu a um descolamento da placenta e que tinha de estar em repouso absoluto até à próxima consulta que tivesse, para não perder o bebé.

Ficar deitada o dia inteiro por tempo indeterminado, quão mau pode ser? Depende da perspectiva. Não é certamente das minhas coisas preferidas em estar grávida. No outro dia acordei com o meu nariz a fazer de torneira de sangue, também não foi simpático. São as hormonas, ao que parece. As mesmas que me fazem chorar por isto e aquilo, as mesmas que paralisaram o meu intestino e que insuflaram as minhas pernas.

Um dia vou ter o meu bebé nos braços e, assim como agora, vou conseguir rir-me de episódios inesperados que este estado de graça me trouxe. Não podia estar mais agradecida por ter a honra de estar a criar uma vida dentro de mim, a sério que não. Mas não consigo parar de pensar que, vá lá, é só aguentar mais cinco meses, porque não foi mesmo nada disto que me venderam.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Catarina Maia-

Catarina Maia estudou Comunicação. Em 2017, descobriu que as dores menstruais que sempre tinha sentido se deviam a uma doença crónica chamada endometriose, que afecta 1 em cada 10 pessoas que nascem com vulva. Criou O Meu Útero e desenvolve desde então um trabalho de activismo e feminismo nas redes sociais para prestar apoio a quem, como ela, sofre de sintomas da doença. “Dores menstruais não são normais” é o seu mote e continua a consciencializar a população portuguesa para este problema de saúde pública.

Texto de Catarina Maia
Fotografia de Pedro Lopes
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