Apesar do seu enfoque mediático, a semana passada não foi apenas marcada por alguma turbulência na comunidade artística nacional, com João Ribas a demitir-se de Serralves, mas foi também lugar para a produção cultural desenfreada, em Lisboa. Foi o Bairro das Artes, que para mim significou: flutes de vinho branco e a tentativa de alimentar o meu intelecto.

A arte, manifestada nas suas diferentes vertentes, espalhou-se por algumas das galerias (e museus) que preenchem a Sétima Colina de Lisboa, na passada quinta-feira, dia 20. Desde meandros do Príncipe Real, ao Bairro Alto e Chiado, das 18h às 22h. O evento, que vai ao encontro da sua 9º edição, como Bairro das Artes, partiu de uma iniciativa da Associação Isto Não É Um Cachimbo, e conta com a parceria da Câmara Municipal de Lisboa, e das Juntas de Freguesia da Misericórdia e Santo António.

Um evento que conta com uma frequência anual, surgiu em 2010, e visa promover a arte contemporânea na Sétima Colina, em Lisboa, nesta altura de rentrée cultural. A cada edição esta variedade de mostras visa a congregação de galerias, espaços museológicos e institucionais, livrarias e bibliotecas, espaços de rua, entre outros lugares, que podem ser tão inovadores como uma roulotte.

À conversa com a Ana, Maria e Joana na Galeria das Salgadeiras sobre um Bairro com História

Os mentores? Ana Matos e Cláudio Garrudo. A produção? Joana Heitor, Maria Tsukamoto e Tiago Mendes. A associação organizadora? Isto Não É Um Cachimbo. Pode afirmar-se que a arte e a cultura se fundamentam como pilares base para uma sociedade evoluída. São uma espécie de portal para o exercício da imaginação, para a prática da emoção e para o conhecimento. O Bairro das Artes, que acontece pela 9ª vez, nasce desta ideia histórica: “a Sétima Colina, é das zonas que mais espaços de arte tem, então a ideia cresceu a partir daí, juntando estes espaços”, tratando-se sobretudo de um “evento urbano onde se cria uma rede entre os espaços”, diz-nos Joana Heitor.

A ideia, conta-nos Ana Matos, surge em 2010 “aquando da altura em me encontrava a fazer o Mapa das Artes das galerias que estavam aqui pela zona do Bairro Alto. Apercebi-me que mais de metade das galerias em Lisboa estava concentrada nessa zona, e é aí precisamente que surge a ideia de fazer o Bairro das Artes. Para além do facto de que, historicamente, sempre foi uma zona boémia, criativa…”. Numa 1ª edição que contava com 14 espaços, para uma edição actual com cerca de 40, percebe-se uma Lisboa a crescer artisticamente. “Desde que os espaços confinados a este perímetro da Sétima Colina apresentem uma programação regular, faz sentido integrar esses mesmos no evento”.

Um dos guias para o Bairro das Artes

Por um lado, não há interferência da Organização na programação, e por outro, há sempre a hipótese de “intervenções específicas, como o caso das Produções Cul.pa, que se auto-propõem a fazer parte do evento”, diz-nos Ana Matos. Assim como “vários arquitectos que se encontram a colaborar connosco, os quais convidamos a participar”, continua.

Claramente focado em arte contemporânea, é “a primeira vez que o Museu do Chiado, inaugura no Bairro das Artes, assim como temos presente a primeira exposição desde a morte de Júlio Pomar, na Galeria Ratton”, sublinha a produção.

Partindo desta série de inaugurações simultâneas, com data normalmente marcada para a 3ª quinta-feira do mês de Setembro, “isto proporciona o alinhar das inaugurações, sendo este mês o mais forte para as galerias”, admite Joana. Eventos que vivem muito da sua regularidade e persistência (conta com cerca de 40 espaços) e onde, pela primeira vez, se assiste à Roulotte Produções Artísticas, que surge como algo ambulante (à primeira vista), mas que encontra o seu lugar no jardim do Príncipe Real como “um espaço de arte com um projecto expositivo”.

“Um evento muito urbano” é uma das características por detrás desta iniciativa que “dinamiza a cidade, principalmente, porque as pessoas não estão habituadas a fazer este percurso todo na mesma altura, ao mesmo tempo, sendo também, uma forma de voltar a trazer as pessoas para o bairro”, admite Joana.

Helena Almeida

Fenómenos como a Turistificação e Gentrificação, fazem sentir os seus efeitos nas zonas mais históricas de Lisboa, pelo que eventos como este ajudam a preservar uma história e a recuperar uma memória, resultando num evento de rua que alia cafés, restaurantes, espaços verdes e vistas privilegiadas do Miradouro São Pedro de Alcântara.

Um serão das artes que atravessa a Sétima Colina

“Um momento de inspiração e fruição da arte contemporânea, na cidade de Lisboa” é a maneira como Ana Matos e Cláudio Garrudo concluem uma das primeiras páginas do roteiro do Bairro das Artes. Um serão que, coincidindo com o evento da Noite Branca, não foi motivo para descurar a celebração e exibição da arte contemporânea.

Fernando Pessoa de Costa Pinheiro

No trajecto com começo (aconselhado) no início da Sétima Colina, para cima do Rato, na Praça das Amoreiras, vamos dispersando e descendo caminho. Com tanta oferta visual, há um conceito que se destaca na grande maioria da programação, embora não tenha sido algo programado previamente, mas que eu fiz o favor de ler nas entrelinhas – a memória.

Na Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva

Assiste-se à passagem desse conceito em exposições como O que pode a arte? 50 anos depois do Maio de 68, no Atelier-Museu Júlio Pomar. Uma invocação dessa memória, dessa instauração de uma nova ordem social, e acima de tudo uma questão que se coloca: o que pode a arte perante os bastões e os escudos da política? De 68′, e ao mesmo tempo tão actual.

Voltamos a encontrar a memória na revisitação de uma Lisboa antiga, na Biblioteca Camões, com a exposição Roque Gameiro Lisboa Antiga – Lisboa vista pelos Urban Sketcheres, 100 anos depois, e a relevância do desenho urbano, a testemunha da mudança nos traços do agora.

“Alguns lugares estão tal e qual estavam há 90 anos! Outros estão completamente diferentes, e outros já não existem”, pode ler-se no catálogo do evento. A memória de um lugar, do extinto e do remanescente.

A ideia do artista como coleccionador é o mote com que Ana Romãozinho, assina a autoria da exposição Colecção 23, no Espaço Cultural Mercês. No roteiro que acompanha e orienta a minha visita, lê-se: “A obra é um todo, é uma colecção. Um tipo especial de memória, no qual nos reconhecemos.” Aqui, surge o conceito de memória como algo conceptual, ou seja, o artista visto como o criador de uma memória.

Os espaços, as lojas, o comércio, a memória deste retrato que habita as ruas de Lisboa. Ao mesmo tempo que pela via da fotografia, assistimos às caras desses espaços, e à perda constante desse património, esse esvaziamento de lugares, ou por outras palavras, o desaparecimento das pessoas e dos espaços com história. Há quanto tempo trabalha aqui?, de Luísa Ferreira no Espaço Santa Catarina, mostra assim uma série de fotografias que, de certa forma, impõem a questão – o quão importante é a preservação de uma memória?

Entre canapés e flutes de vinho branco e tinto e uma elite artística que se encontra no rés-do-chão da Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, trata-se da invocação da memória, de uma colecção privada, aberta agora à comunidade. Vieira da Silva, Júlio Pomar, Paula Rego, Helena Almeida, Jorge Molder, as cores e formas que gritam ao mesmo tempo que assistimos a uma justaposição do retrato urbano em pintura. Arcadas, paredes limpas, uma iluminação que preenche as salas e que destaca as várias pinturas. A evocação de uma memória, nesta ideia de coleccionador, de António Pinto da Fonseca, mantida e actualizada pela via geracional.

Inaugurações que vão desde a pintura à fotografia; desde a joalharia ao tecido; desde a gravura às peças de zinco; desde o livro de autor à impressão tipográfica, não deixam de parte também, o mobiliário. Em  Quebrando barreiras – mobiliário pós-modernista para uma discoteca em Santo Tirso, 1981, de Fernando Pinto Coelho, na Galeria Bessa Pereira, somos quase que transportados para os anos 1980. Pela música, pelo público, pelas linhas azuis, amarelas, cor-de-rosa que percorrem as paredes brancas da exposição, pelas fotografias com contrastes vibrantes que denotam a existência desse mobiliário, dessas peças agora expostas.

O lema “less is a bore” percorre toda uma linguagem a que assistimos, e novamente, parece querer recordar essa memória de outros tempos, de outros anos, daquela “idade de ouro” de que os nossos pais falam.

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Em Memória e Fantasias de Ilídio Candja assiste-se a explosões de cor, que nos levam à tradição do Expressionismo Abstracto e que nos envolve num misto entre sonho e fantasia. Uma exposição onde o activar de uma memória ancestral é a forma que encontrou para se encontrar a si mesmo.

Vimos a arte a ser assinada de forma anónima, como acontece na Galeria Zaratan, com a exposição Gentrifornication, precisamente pelo Colectivo Anónima.

Neste espaço somos imediatamente levados a salas que se completam, onde a linha preta impera na parede, e onde a genitália masculina se mistura numa mescla de simbologia. Ao mesmo tempo somos musicalmente invadidos pela “Blue Monday”, de New Order, que preenche o jardim escuro, onde  luzes néon se reflectem no verde das plantas. Uma pequena sala de publicações, duas pessoas a debater a arte e o papel do artista, mealheiros de lata amassados, em conjunto com outros objectos, onde o anonimato toma conta de todo o processo curatorial deste espaço.

Na Zaratan

Fugindo por alguns instantes ao conceito de memória, e dispersando por espaços como o Mute, Otoco, Trema Arte Contemporânea e Gabinete, a que podemos assistir? Respectivamente, numa sala inteiramente branca, as pinturas que aludem ao poro, à pele, cobertas por uma superfície de vidro, são manchas de tinta, que nos lembra um tecido visto ao microscópio, estas dão luz ao espectador, iluminando-o. Em ruas quase paralelas, na Ottoco, em “Outro Corpo”, sobressai uma camada uníssona de tecido (que resulta da junção de vários quadrados com diferentes gradações de cor-de-pele), como algo que indica a questão das migrações, pela autoria de Fabio Baldo. Afastado de teor político, assistimos no espaço Trema a fotografias a preto e branco que parecem ganhar vida e movimento com a direcção da luz. Em seguida, no espaço Gabinete, que interpela o público (subtilmente, como uma sugestão), a calçar as luvas e desfolhar um acervo de moleskins com desenhos de autoria, organizados numa mesa rectangular, central da galeria.

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Voltando ao conceito transversal que atravessa uma parte das inaugurações, a memória, importa ainda ressaltar dois espaços. Primeiro, uma das mais recentes aquisições da Rua de São Bento, a Luís Geraldes Artes, onde Águas Fortes se traduz como um espólio de obras assinadas por uma variedade de autores como Paula Rego, José Guimarães, Manuel Cargaleiro e onde a gravura é o medium artístico que prevalece.

A propósito da importância de eventos como o Bairro das Artes, e o que podem trazer eles de novo à cidade de Lisboa, Aurora Santos, galerista da Luís Geraldes Artes, diz-nos que “é indispensável, não só para aproveitar as sinergias, como o resultado é sempre melhor quando trabalhamos em conjunto, e este tipo de eventos vem precisamente aproximar públicos, galerias…”

Luís Geraldes Artes, visto de fora

Voltando a uma das exposições, que se assinala como um dos pontos obrigatórios de passagem, já abordada em cima, Memória e Liberdade, na Galeria Ratton, conta com trabalhos de Júlio Pomar e Sofia Areal, onde ambos os conceitos se interligam e se enaltecem mutuamente.

Neste percurso artístico as galerias não se revelam como os únicos espaços a explorar, contando também com a presença de Museus, incluindo o Museu Nacional de Arte Contemporânea Museu do Chiado (MNAC), com a exibição do filme “Extinção” de Salomé Lamas, de 21 de Setembro a 25 de Novembro; Museu Geológico; Museu Nacional de História Natural e da Ciência. Assim como, espaços desde a INCM – Imprensa Nacional – Casa da Moeda, à Galeria Tapeçarias de Portalegre, com uma passagem pela Casa da Imprensa, e na Galeria das Belas Artes, onde vemos expostos os trabalhos de artistas emergentes, finalistas do Mestrado em Artes e Multimédia pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.

Pensando numa arte acessível para todos, Aurora Santos é da opinião que “uma sociedade que não educa as pessoas para a arte, para a cultura, é uma sociedade morta e, neste sentido, ainda temos muito caminho para fazer, em Portugal, aliás a educação pela via da arte deveria começar na escola”, remata.

A memória, no seu sentido mais histórico, mais tradicional, visto igualmente de um ângulo contemporâneo. Onde? Na mostra de artistas emergentes, na revitalização de uma cidade neste tempo e espaço do agora, na abertura à comunidade e partilha de referências visuais com os mais distintos públicos, neste persistir da história de alguns espaços e na mostra de novos  neste grito pela educação, pela via da sensibilidade. A memória está assim espalhada por todo o lado, nesta Lisboa nossa e do mundo, num apelo desmesurado à sua preservação.

 

A programação dos vários espaços, pode ser encontrada no site: http://www.bairrodasartes.com.

Texto de Joana Sequeira
Fotografias de Rui Oliveira
O Gerador é parceiro da Associação Isto Não É Um Cachimbo

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