A areia quente, tenho-a empunhada, largo cada grão em consciência. Largar a areia sobre a areia. Penetro a pele litoral outra vez. Colho o que a mão pode segurar. Faço uma ramerrão que produz montinhos em torno. Remexo um pouco cada montinho.

Atarraxo um grão e depois outro com o dedo polegar. Parecem umas cabecinhas de alfinete. Agora que reparo bem, são umas cabecinhas. Grãos de areia, cabecinhas, tudo coisas para carregar por cima. Atarraxar. 

Aborrecido, agarrar punhados de areia, apertar, apertadinho e largar. Aborrecido e divertido. Agarrar, apertar, largar. Claro que quando largo estão um pouco moídos. Moídos já estavam. Mas ficam mais. Por vezes triturados.

A razão de tudo isto é que há momentos em que a areia me vai para os sapatos, entre a palmilha e a meia. Incomoda. Ou mesmo nos calções. Dá comichão.

É muito estranho, daqui, do alto do alto, com a vista larga e ninguém por cima (só Deus, claro, desde que seja ortodoxo), poder sentir comichão. Desses grãos de areia. Cabecinhas.

Por maioria de razão evito os desertos e as praias. Areia a mais. E quando o vento se levanta? Ui.

Há mais quem tenha tido incómodos com grãos de areia. Cabeças no ar, como lhe chama o meu amigo Alex. Ahahah! Aqui há poucos dias um cabeça no ar estava mesmo no ar. E como diz o Alex,”tudo o que sobe, desce”. Ai desce desce. O Alex quando quer consegue fazer declarações bombásticas. E pimba, o cabeça no ar , que andava a voar como um passarinho, desceu e agora voa baixinho. Atarrachado. Grãos de areia. Metem-se até nas unhas. Um nojo.

Eu evito sempre que posso os lugares com muita areia. Ou mando limpar antes de chegar. Por causa das tosses.

A areia até a garganta arranha. Claro que se se fizer uns montinhos e depois os atarraxar bem atarrachadinhos, os grãos nem se mexem.

Atarraxar. Bonita palavra. Eu atarraxo, tu atarraxas, nós atarraxamos. Soa mesmo bem.

Não há pior que uma duna, ou um monte de areia de origem humana levado pelo vento – inspirações e expirações. Respirações - cuidado com as respirações.

São uma espécie de amontoados, foco de infeções, os endereços humanos de cabecinhas no ar. Areias. Esterco sem cheiro.

Tanta areia junta que não cabe numa caminheta. Sempre que estas protuberâncias me impedem de olhar livremente o horizonte, é simples: mando a retroescavadora. Às vezes até rebentam, quando o cilindro lhes passa por cima. Ahahaa! Alex, tu é que me compreendes.

Ouvi dizer que há sítios onde deixam a areia tomar conta de tudo. Não consigo sequer imaginar o que é um lugar coberto de areia. Repleto de pequenas cabecinhas não atarraxadas. Se não se atarraxa, às vezes até saltam! E se são uma data delas a saltar, não consigo tomar conta de todas, parece uma caixa de fusíveis em curto circuito. Sou adepto dos choques elétricos, mas não dos curto circuitos.

E agora que penso no caso, tenho um dilema que urge resolver: o que fazer com esta areia toda, a que se acumula pelos cantos, a outra varrida para baixo do tapete e outra ainda nas mãozinhas queridas da Sophia?

Como diria o Steven (saudades que tenho dele e do Don), sobre onde guardar as areias atarraxadas: put in or put on?

Vá-se lá saber. Na dúvida, limpeza. É o que é.

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier