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É hoje incontestável que a década de 90 foi determinante para o desenvolvimento cultural em Portugal. O novo quadro geopolítico em que o país recentemente se inseria, suscitou a eclosão de novas referências e novas lógicas competitivas. Volvidos 15 anos de um esforço árduo para alcançar alguns fundamentais indicadores de bem-estar social, o investimento no imaterial converteu-se numa preocupação crescente dos poderes públicos, revelado no progressivo aparecimento de novos espaços culturais, em primeira instância nas grandes cidades, generalizando-se depois pelo restante território.

Paralelamente ao esforço interno de acessibilidade e democratização cultural, uma das tarefas mais importantes, foi sem dúvida a afirmação de uma nova democracia no espaço europeu. A cultura foi um dos veículos fundamentais desse discurso legitimador, gatilho de memória e em simultâneo anunciador do futuro de um país, percecionado com grande curiosidade e até algum exotismo (“Portugal le pays où le noir est couleur”), após meio século de solidão.

Em França, nesses tempos, referencial e reverencial, Mitterand havia há pouco iniciado o seu segundo mandato e Paris transformara-se, pelo afã dos “Grands Travaux” num enorme e promissor estaleiro para a arquitetura contemporânea.

Em Portugal iniciar-se-ia muito em breve um inédito envolvimento do estado numa série de eventos de dimensão internacional, como país convidado ou anfitrião, descrevendo um arco temporal de precisamente 10 anos de 1991 a 2001, ou seja, do Festival Europália 91 a Porto 2001 Capital Cultural da Europa.

A Europália 91, como ficou conhecida, e sobre a qual se celebrarão em 2021 30 anos, constituiu um enorme desafio e uma enorme responsabilidade por duas razoes essenciais: a primeira por tratar-se da primeira grande exibição da cultura portuguesa no espaço europeu com notável extensão e pormenor – do património à criação contemporânea, por outro, por se realizar em Bruxelas a cidade capital e epicentro desse espaço a um tempo novo, idealizado e desejado.

Razões sobejamente justificáveis para que o nível de expetativa fosse claramente elevado e proporcionalmente se atribuíssem ao projeto os recursos mais adequados: desde uma personalidade jurídica própria: o Comissariado para a Europália 91, até à equipa diretiva e de gestão chefiada por Rui Vilar, onde pontuavam nomes inquestionáveis como Eduardo Prado Coelho,  José Ribeiro da Fonte, Simonetta Luz Afonso ou Miguel Lobo Antunes. A realização de um calendário tão vasto de atividades em Bruxelas entre setembro e dezembro de 1991, exigiu, portanto, um notável esforço da Administração Portuguesa e a criação, a muitos títulos pioneira, de novos instrumentos e métodos de trabalho.

Neste contexto recaía sobre a Área de Animação e Juventude, chefiada precisamente por Miguel Lobo Antunes a responsabilidade de conceber um evento de lançamento do Festival com o impacto mobilizador necessário e que permitisse, portanto, uma primeira focagem num programa ambicioso integrando exposições, literatura, artes do espetáculo, cinema, música erudita e popular.

A partir do conceito da romaria portuguesa foi apresentado na Grand Place de Bruxelas, “Festa de Rua”, um evento que implicou o envolvimento de 250 participantes, entre eles 5 grupos folclóricos, e a criação de infraestruturas de produção e comunicação inéditas. A conceção foi entregue a Filipe La Feria, experimentado encenador português, e a produção a uma jovem empresa independente, Arte e Empresa, liderada por Guillaume Baschet-Sueur e Miguel Honrado.

No momento em que reconstruímos o nosso quotidiano, considerei oportuno evocar aqui a sua memória, pelo sentido de coletivo, comunhão e pioneirismo que ainda hoje transporta. Como testemunho um registo em VHS traduzindo os parcos – quase rudes na sua simplicidade – recursos da época.

-Sobre Miguel Honrado-

Licenciado em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e pós-graduado em Curadoria e Organização de Exposições pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa/ Fundação Calouste Gulbenkian, exerce, desde 1989, a sua atividade nos domínios da produção e gestão cultural. O seu percurso profissional passou, nomeadamente, pela direção artística do Teatro Viriato (2003-2006), por ser membro do Conselho Consultivo do Programa Gulbenkian Educação para a Cultura e Ciência – Descobrir (2012), pela presidência do Conselho de Administração da EGEAC (2007-2014), ou a presidência do Conselho de Administração do Teatro Nacional D. Maria II (2014-2016). De 2016 a 2018 foi Secretário de Estado da Cultura. Posteriormente, foi nomeado vogal do Conselho de Administração do Centro Cultural de Belém. Hoje, é o diretor executivo da Associação Música, Educação e Cultura (AMEC), que tutela a Orquestra Metropolitana de Lisboa e três escolas de música.

Texto de Miguel Honrado
Fotografia de Estelle Valente
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