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Psiquiatria Lenta: 88 milhões do PRR na saúde mental sem uma reformulação de todo o sistema poderá ser um desperdício

Na crónica Psiquiatria Lenta deste mês, João G. Pereira diz-nos que, para usufruir em pleno os 88 milhões de euros do PRR na saúde mental, é imperioso que se façam mudanças.

Texto de Redação

Fotografia da cortesia de João G. Pereira

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De uma forma simplista e sumária poderia dizer-se que, enquanto a psiquiatria é a área da medicina que se ocupa da saúde e da doença, dos sinais, sintomas, etiologia, diagnóstico e tratamento, a psicologia ocupa-se de todos os aspectos ligados ao comportamento e aos processos mentais, bem como ao seu estudo sistemático. Por outro lado, a psicoterapia, pelo menos as vertentes mais humanistas e dinâmicas, ocupa-se da relação terapêutica e das relações no geral, incluindo aspectos ligados à fantasia e à construção de significados. Naturalmente que estas áreas não são estanques e que, nas suas melhores versões, se entrecruzam e se relacionam, mas, se tentarmos dissecar o foco de cada uma, talvez esta separação não esteja muito longe da verdade.

Perceber que a saúde mental vai ter um investimento inédito, neste caso 88 milhões de euros do Plano de Recuperação e Resiliência, é sempre uma excelente notícia. Contudo, se não se investir paralelamente em recursos humanos e em formação relacional vai perder-se uma oportunidade de ouro. A grande maioria dos profissionais de saúde mental em Portugal, por tradição e por ensino, regem-se pelas duas primeiras áreas que referi em cima, a da psiquiatria e a da psicologia ou, dito de outro modo, pelo estudo da saúde e da doença ou pelo estudo do comportamento. Só uma pequena minoria tem formação posterior em psicoterapia e, dos que a têm, apenas uma minoria ainda mais diminuta tem formação, experiência e aceitação de sistemas de trabalho não hierárquicos, pós-modernistas, dialógicos, com base na teoria da complexidade, sistemas autopoiéticos, no caos, incerteza e construcionismo social, não esquecendo o reconhecimento da neurociência afectiva, mentalização e intersubjetividade. 

Na Lapónia Finlandesa dos anos 80, local e época onde teve origem o sistema psiquiátrico conhecido hoje como Open Dialogue, todos os profissionais de saúde mental da região, cerca de 100 na altura, independentemente da profissão de base (psiquiatria, enfermagem, serviço social, psicologia, etc), enveredaram, com investimento do Estado, numa formação pós-graduada de 3 anos em terapia familiar sistémica de base dialógica e relacional. Tornaram-se, nessa fase, no corpo de saúde mental mais bem educado e qualificado do Mundo Ocidental, não sendo surpresa os resultados surpreendentes que foram mostrando desde então na recuperação de pessoas em situação de perturbação mental, muitas delas com diagnósticos compatíveis com o que se apelida em psiquiatra de “psicose”.

Claro que não foi apenas a formação a ter este impacto, foi feita uma mudança radical em todo o sistema de cuidados, passando de um sistema biomédico, fechado, rigidamente determinista e compartimentado em redor de números e evidências, para um sistema relacional e aberto, que trabalha horizontalmente e em rede, sem hierarquias entre staff e “pacientes” (pessoas no centro das preocupações), nem entre o próprio staff, passando a ser um sistema com tolerância à incerteza, com decisões lentas e trabalhadas em conjunto, em polifonia.

Em 2020, em conjunto com outros colegas e impulsionado por um financiamento da DGS, importei para Portugal as formações em Diálogo Aberto, agora na sua 3ª versão, formações que têm mudado a forma de trabalhar de muitos dos participantes. Estas formações estão hoje implementadas na maioria dos países Europeus e também na América do Norte e do Sul, Austrália e alguns países asiáticos.

Uma outra vertente na qual estou envolvido desde 2015 são os workshops “Living Learning Experience” (LLE), iniciados no Reino Unido em 1995 e que têm tido muita expressão neste país e também em Itália, India e Austrália. Em 2016 demos início a estas experiências em Portugal e, neste momento, estamos a trabalhar com a região da Colúmbia Britânica no Canadá para reformar todo o sistema de cuidados. Há planos e interesse também nos Estados Unidos (região de Utah) e, mais recentemente, na Alemanha e Japão. Estes Workshops têm a duração de algumas horas a alguns dias e podem ser usados para apoiar o staff na construção de ambientes terapêuticos e saudáveis, aprender experiencialmente sobre processos sociais e de grupo e também, muito importante, para aproveitar para relaxar e divertir-se, uma vez que muitos são realizados em formato residencial, incluindo dormidas e refeições.

Tanto o sistema Open Dialogue como os ambientes psicologicamente informados que sustentam os Workshops “Living Learning Experience - LLE” são hoje recomendados pela Organização Mundial de Saúde como melhores práticas na saúde mental e como serviços baseados nos direitos humanos. Ambos se sustentam na evidência científica com estudos de metodologia variada, incluindo Ensaios Clínicos Randomizados (RCT). Tão ou mais relevante é a satisfação dos profissionais, utentes e famílias que, com base no que já foi implementado em Portugal, anda na ordem dos 9,5 numa escala entre 0 e 10.

No fundo, tanto um sistema como outro têm como foco a recuperação do sentido e significado de “relação”, sempre multifactorial e sempre incerta, e da “comunidade como médico” como referiu Rapoport nos anos 60. 

Não existem dúvidas sobre a necessidade imperativa da criação de equipas comunitárias como, e muito bem, está a ser feito em Portugal pela nova Coordenação Nacional das Políticas de Saúde Mental. Quarenta e quatro novas equipas, multidisciplinares e em proximidade com a população, são uma mais valia preciosa. No entanto, se não se mudar a forma de trabalhar, a centralidade actual na doença e no comportamento individual, a hierarquia presente dentro das equipas, com forte dependência da figura do psiquiatra e, mais importante, a divisão entre staff e utentes, que no sistema biomédico culmina invariavelmente numa relação do tipo perito (activo)/doente (passivo), a dinâmica de cuidados individualista vai manter-se, comprometendo fortemente as possibilidades de mudança nos sistemas sociais, que desta forma irão ganhar pouco ou nada. Seria um desperdício.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

- Sobre João G. Pereira -

João G. Pereira é psicólogo, doutorado em Psicoterapia pela Middlesex University e psicoterapeuta registado no United Kingdom Council for Psychotherapy. Iniciou a sua vida profissional em Lisboa e Barcelona tendo-se fixado, posteriormente, no Reino Unido, onde viveu e trabalhou durante 10 anos, maioritariamente em departamentos de psiquiatria do sistema nacional de saúde (NHS). A sua desilusão com o sistema psiquiátrico tradicional levou-o a estudar sistemas mais relacionais e humanistas, tendo acabado por juntar-se à Fundação Romão de Sousa e ao seu projecto “Casa de Alba”, que dirige desde 2013. Desenvolveu o sistema de Comunidades Terapêuticas Democráticas em Portugal e esteve na origem do movimento “Open Dialogue” português, inspirado pelas suas visitas à Lapónia Finlandesa, Norte da Noruega e Nova Iorque. Também em Portugal foi Professor Auxiliar Convidado na Universidade de Évora e colaborou em estudos Pos-Doc de Filosofia Psiquiátrica na Universidade Nova. Tem interesse particular no desenvolvimento da relação terapêutica e na intersecção entre a psicanálise relacional, a filosofia e as neurociências afectivas, em particular na área da mentalização, que levou à sua acreditação no British Psychoanalytic Council. É actualmente Presidente da International Network of Democratic Therapeutic Communities, supervisor e professor de psicoterapia no Metanoia Institute em Londres. É autor de vários artigos em jornais científicos, tendo co-autorado e editado os livros “Schizophrenia and Common Sense” da Springer-Nature e “The Neurobiology-Psychotherapy-Pharmacology Intervention Triangle” da Vernon Press.

Texto de João G. Pereira
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