No sábado passado, dia 4 de abril, o Gerador continuou a partilhar a investigação que tem vindo a fazer sobre o impacto da pandemia covid-19 na cultura. A reflexão mais recente reside no problema do acesso grátis à cultura através de conteúdos disponibilizados online. Desde o momento em que os espaços culturais foram sendo encerrados e os eventos cancelados, artistas e instituições começaram a procurar responder a este contexto, com concertos e festivais em streaming, disponibilização de peças online, acesso livre a filmes, visitas virtuais a museus, workshops e aulas de dança, por exemplo. Contudo, a maioria destas iniciativas tem sido gratuita. 

Quais os custos desta gratuitidade? Qual o seu limite? O que a motivou? Que possíveis consequências? As perguntas dilataram-se em diversos ângulos. Caterina Foà, Nelson Pinheiro Gomes e Patrícia Ascensão, cujos percursos têm passado pela investigação junto da gestão das Artes e de projetos culturais, partilham uma abordagem académica. Joana Linda testemunha a partir da fotografia.  Luís Severo e DarkSunn contam-nos o que tem sido a sua experiência na música durante este tempo. A comédia faz-se presente com Rúben Branco. Fátima São Simão, Diogo Morais Oliveira e Rute Correia, cujo podcast White Market, um projeto em que se promove e pensa a cultura gratuita, procuram esclarecer-nos acerca das licenças Creative Communs. Terminamos o artigo com a indicação de algumas plataformas que visam responder a algumas fragilidades destes profissionais, a nível financeiro, tais como  At Your Home, Patreon, TwitchBandcamp, Buy me a Coffee, Society 6, Etsy, Podia, Memberful e Liberapay.

Numa perspetiva de análise mais sociológica, os docentes e investigadores Caterina Foà, Nelson Pinheiro Gomes e Patrícia Ascensão olham para este movimento de criação de conteúdos online, como uma forma encontrada, tanto por artistas como por instituições, de preservarem a sua imagem e presença. Uma “necessidade de se manterem visíveis, presentes no quotidiano das pessoas”, explica Caterina Foà, docente convidada do ISCTE-IUL e investigadora do Observatório Português das Atividades Culturais (OPAC) e Observatório da Comunicação (OberCom). Por sua vez, Patrícia Ascensão, professora e investigadora no setor da Comunicação, das Artes, da Cultura e das Indústrias Criativas, vai mais longe e analisa esta “reação à situação atual”, como “um ato de resistência, o dizer “estamos aqui!””.

Se por um lado, esta conjuntura veio demonstrar uma maior elasticidade por parte dos criadores de se aproximarem do público e de poderem continuar a promover o seu trabalho, por outro ressaltou fragilidades antigas. Para Nelson Pinheiro Gomes, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, “a situação atual convoca a questão da sustentabilidade destes setores que poderá envolver um equilíbrio entre o financiamento público e a receita dos públicos”. “Isto obriga ao uso das plataformas digitais como espaços que permitam não só disseminar conteúdos e práticas artísticas, mas também receber a devida receita”, realça.

Quanto à sustentabilidade do acesso gratuito aos conteúdos – opção que se tem verificado na grande maioria da agenda cultural online que agora se impôs -, Nelson Pinheiro Gomes sublinha que se trata de uma “ação positiva e um importante estímulo ao consumo da cultura e ao apoio dos públicos no início deste difícil contexto”. Contudo, e embora reconheça que se possam tirar importantes lições desta experiência como a reação dos públicos, as suas motivações e as formas de interação , a opção pela gratuitidade “não será sustentável a médio ou longo prazo”.

Patrícia Ascensão corrobora a perspetiva, de que a “questão da gratuitidade tem implicações económicas e não poderá perdurar durante muito tempo”. Porém, olhando para o fenómeno como um “palco que os artistas e criadores não podem desperdiçar”, considera que isso também pode dar lugar a novas formas de contribuir para o trabalho destes mesmos artistas. “Através da aquisição de CDs e outros materiais possíveis de serem vendidos, pelas plataformas de crowdfunding que financiam a criação artística, promoção de eventos gratuitos, mas que seja incentivada a prática do donativo, e pelas plataformas de espetáculos online mediante o pagamento de uma subscrição”, entre outras.

De momento, Caterina Foà considera que as diferentes plataformas digitais “vão aumentar o leque de serviços disponíveis, abrindo oportunidades diretas e indiretas de rentabilização de conteúdos, formas de envolvimento, incentivo e remuneração para seguidores, caminhos de captação e reencaminhamento de audiências para outros lugares”.

Em conversa com a fotógrafa e realizadora Joana Linda, o comediante Rúben Branco e o músico Luís Severo procurámos perceber de que forma estes artistas se têm vindo a relacionar com a questão do acesso gratuito à cultura no meio digital e como o pensam para o futuro. 

Luís, que tem vindo a fazer vários concertos online, demonstra vontade em assumir uma missão e responsabilidade de dar companhia às pessoas nesta altura delicada e assume que existem pontos positivos nesta experiência, a que se vê a dar continuidade, como por exemplo, a possibilidade de os seus concertos chegarem a mais pessoas. No entanto, esta prática não vem substituir a experiência de dar e receber um concerto ao vivo. Destaca ainda a importância de não nos esquecermos das equipas técnicas, pois para “além de todas as pessoas que vemos em cima de um palco, é importante que se pense que, para que essas pessoas estejam lá, há muitas outras que não se veem e que estão também em situações que não são fáceis.”

Rúben Branco apresentou uma opinião dividida face a esta questão. “Por um lado, é a prova de que a arte e o entretenimento são mais do que necessários para o bem-estar da saúde mental da grande maioria das pessoas. Por outro, cria aqui um precedente muito errado, que é a possibilidade de desvalorização da arte e da criação em si.” Deixa ainda o alerta para a índole do trabalho na área da comédia, em que um conteúdo, uma vez partilhado online, já não pode ser usado em palco, por se retirar o fator surpresa dos textos preparados. 

Joana Linda vê neste período uma oportunidade para entidades mais conservadoras passarem a incluir nos seus planos futuros uma maior integração no  meio digital. Refere ainda que outra forma possível de olhar para a quarentena é, mais do que nela inscrever um ímpeto de criação e apresentação de conteúdos no imediato, reconhecer a oportunidade de recuperar o arquivo proveniente de longos séculos de cultura já produzida e, para muitos, por conhecer. “Não é uma tragédia se a criação parar, parar para se reorganizar, para encontrar o chão. Temos séculos e séculos de cultura para consumir, não precisamos de lives todos os dias para entreter as pessoas, temos anos de história da arte e história da música e do teatro e da dança e da literatura para conhecer.”

Num ponto os pareceres dos três artistas convergem: para que se avance no sentido de haver uma remuneração por parte do público em relação a conteúdos online, é necessário apostar numa maior qualidade, inclusive técnica, dos eventos em direto, mas também das gravações apresentadas, pois a entrada em lógicas de financiamento pressupõe sempre uma troca em que o público paga, mas o artista também dá algo de novo e com uma qualidade adaptada ao formato digital. 

Numa altura em que a partilha de conteúdos online é uma constante, torna-se fundamental saber a importância de dizer onde e como queremos que esses conteúdos sejam partilhados. A Creative Commons, uma organização sem fins lucrativos dedicada “à criação de um domínio público globalmente acessível, de conhecimento e cultura”, relembra que com as suas licenças os criadores ganham empoderamento e quem recebe as obras consegue perceber o que pode fazer com elas. 

É neste registo que Darksunn e o coletivo que fundou e ainda hoje integra, Monster Jinx, partilha as suas músicas. O principal objetivo é dar um “acesso democrático” à música – um ponto destacado por Rute Correia, radialista e autora do podcast White Market, que relembra que “assumir que toda a gente pode pagar pela cultura como bem essencial é uma visão muito privilegiada, sobretudo num país onde quase 20% das pessoas ganham o salário mínimo”.

Para obras com acesso aberto ou simplesmente para quem quer partilhar o seu conteúdo nesta altura e está aberto a receber donativos, reunimos numa lista plataformas que dão possíveis soluções. Do clássico Patreon ao já usado por gammers Twitch, são múltiplas as possibilidades de receberes dinheiro com o conteúdo que partilhas e de criares uma comunidade com os que te seguem. 

A solução não é clara e, para muitos, pode ser inexistente. Há ainda os “invisíveis” da cultura, que não têm condições de readaptar o seu trabalho a partir de casa e de forma autónoma, não tendo sequer a possibilidade de donativos. Porém, a imprevisibilidade desta lógica impede uma estabilidade, o que significa precariedade. Contudo, as Creative Commons podem ser um auxílio muito útil no que diz respeito às políticas de partilha.

Podes ficar a saber mais com a leitura na íntegra da reportagem “O acesso gratuito da cultura online: um problema de sustentabilidade”, aqui

Texto de Andreia Monteiro, Carolina Franco, Raquel Botelho e Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de Sergey Zolkin, disponível via Unsplash
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