O Teatro Nacional D. Maria II (TNDM), em Lisboa, fechou a programação para a próxima temporada, “mas com uma enorme incerteza” quanto aos espetáculos internacionais, porque é uma incógnita se as fronteiras vão abrir, e quanto ao orçamento.

A programação para a temporada 2020/2021 está completa e integra todos os espetáculos cancelados na temporada anterior devido à covid-19, mas a presidente do conselho de administração do teatro, Cláudia Belchior, confessou à Lusa que “ainda há muitas incertezas” relativamente às apresentações internacionais e às digressões.

Foram mais de 20 os espetáculos que estavam agendados para a temporada anterior e que não puderam ser apresentados devido à pandemia de covid-19 e que agora foram reagendados para a nova temporada. Nas palavras do diretor artístico do TNDM, Tiago Rodrigues, “ninguém ficou fora do barco”.

Segundo Cláudia Belchior, “houve um enorme trabalho que foi ver o que havia agendado para final de março, abril, maio, junho e julho, que era uma programação intensa, de pagar a todos os artistas e todas as companhias que estavam previstas até ao fim, fazer o reagendamento e a calendarização”.

“Agora estamos a lançar a nova temporada como um ato de coragem e de fé, de que as coisas vão entrar numa nova normalidade, embora estejamos sempre conscientes de que temos restrições de público”, afirmou.

Por um lado, há ainda uma “enorme insegurança” com as fronteiras europeias e mundiais, porque o teatro está a “prever receber espetáculos internacionais” e fazer digressão, “e essa insegurança das fronteiras tem de ser avaliada dia a dia”.

“Há incerteza quanto às digressões. Tivemos uma carta de conforto dos nossos coprodutores internacionais, no sentido de que estão a honrar os compromissos com os valores de coprodução. Mas quanto aos valores depois da digressão, da apresentação local, nós desenhámos o orçamento com alguma cautela porque não sabemos se as fronteiras vão abrir ou não”.

Por outro lado, o contrato-programa termina em dezembro deste ano e o TNDM está já a desenhar o que será o próximo triénio, de 2021, 2022 e 2023.

“Sabemos que para o ano vai ser complicado em termos de Orçamento do Estado, mas há ainda um silêncio, porque não sabemos o que vai acontecer e esperamos que pelo menos se mantenha igual a este ano. É com essa meta que estamos, e esperamos conseguir cumprir”, afirmou.

Cláudia Belchior admite que “é sempre um jogo e uma negociação aturada, complicada, diária com as tutelas da cultura e, sobretudo, financeira”.

Sobre a reabertura do teatro, depois de três meses fechado devido à pandemia, conta que foram feitos “investimentos volumosos” para adquirir 50 dispensadores de álcool gel, equipar todos os postos de atendimento ao público com acrílicos, dar formação interna sobre cuidados de saúde e distanciamento.

Foram também feitos alguns ensaios para criar circuitos de circulação dentro do teatro, que foram testados nos dias 21 e 22, com a apresentação do espetáculo “By Heart”, de Tiago Rodrigues, que reabriu o TNDM e que, com apenas 50% da sala disponível, esgotou nos dois dias.

Para o diretor artístico, trabalhar e repensar a temporada, depois de um encerramento por tempo indeterminado, foi como preparar a programação com os obstáculos normais de todos os anos, mas “em equilíbrio instável, como se estivesse numa jangada em mar alto, durante uma tempestade, e a escrever a lápis”.

“Foi uma temporada que teve de ser escrita a lápis muitas vezes até podermos passá-la a tinta e mesmo essa tinta com que está escrita é a tinta possível hoje, face à incerteza do futuro que atravessa, não só a sociedade portuguesa, mas que atravessamos todos no mundo com esta pandemia”.

Texto de Lusa
Fotografia de Américo Aperta via Flickr

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