Em abril, a Culturgest, em parceria com o Teatro GRIOT, recorda e faz uma reflexão sobre o colonialismo português em São Tomé e Príncipe com um programa de teatro, uma conferência e uma conversa.

Refletir sobre o colonialismo português em São Tomé e Príncipe é a proposta da Culturgest que, de 20 a 23 de abril, pelas 19h, abre as portas do seu auditório para estrear a peça do Teatro GRIOT, "O Riso dos Necrófagos". O espetáculo é acompanhado por mais dois momentos, a conferência "Utupia Machim - Resistência no Lugar dos Tempos" e, "Que Ritual entre a Vida e a Morte?", uma conversa online com a atriz, encenadora e diretora do Teatro GRIOT, Zia Soares, e a artista e investigadora, Raquel Lima.

A peça "O Riso dos Necrófagos", começa nos vestígios da Guerra da Trindade encontrados na ilha de São Tomé, por Zia Soares e pelo músico Xullaji, que os encontram nas bocas dos que a viveram, dos que a ouviram contar e nos relatos de memórias desfocadas pela passagem do tempo. Nesta guerra, os mortos foram amontoados em valas comuns ou no fundo do mar pelo invasor que acredita que, ao despojar os mortos dos seus nomes, os condena ao esquecimentos. Contudo, para os nativos, esses corpos são uma presença simbólica na ilha e, para celebrá-los, cumprem anualmente, no dia 3 de fevereiro (Dia dos Mártires, feriado nacional no arquipélago) um itinerário ritualístico, onde desfilam ao longo de várias horas numa marcha amplificadora de falas, cantos, risos e sons que saem de corpos convulsos.

Essa celebração é prolongada no "Riso dos Necrófagos", onde os atuantes manipulam tempos e imagens, desossam e riem do delírio, reconfigurando os vestígios e os fragmentos do morticínio, a partir da ideia de celebração - a festa, a liturgia, os aspetos ritualísticos do quotidiano. A peça junta, em palco, Benvindo Fonseca, Binete Undonque, Daniel Martinho, Lucília Raimundo, Mick Trovoada, Neusa Trovoada, Vera Cruz, Xullaji - autor da banda sonora do espetáculo - e Zia Soares, encenadora e coautora do texto, juntamente com Alda Espírito Santo e Conceição Lima.

No dia 27 de abril, às 18:30, o Pequeno Auditório da Culturgest, também em parceria com o Teatro GRIOT, abre as portas à conferência "Utopia Machim - Resistência no Lugar dos Tempos", um diálogo focado na história esquecida da relação colonial entre Portugal e São Tomé e Príncipe, a partir dos vestígios da Guerra da Trindade - ou Massacre de Batepá. O diálogo conta com a participação de António Pinto Ribeiro (curador e investigador MEMOIRS, Universidade de Coimbra), Inocência Mata (Centro de Estudos Comparatistas, FLUL), Miguel de Barros (CES Amílcar Cabral e Conselho de Pesquisa para as Ciências Sociais em África) e moderação de Beatriz Gomes Dias, cofundadora da Djass - Associação de Afrodescendentes e deputada.

A conversa entre Zia Soares e Raquel Lima, já se encontra disponível no FacebookIGTV e YouTube da Culturgest. "Que ritual entre a vida e a morte?" é uma conversa que tem como ponto de partida perguntas que a peça "O Riso dos Necrófagos" faz emergir - De que forma os corpos se exprimem num elenco tão diverso como o deste espectáculo? Qual o papel do Teatro GRIOT na emersão de uma nova dramaturgia, cocriada e não refém de um texto? Como é que o percurso da companhia reconfigura a lente de artistas e público para que abracem estas tensões?​ Serão o caos e o transe dos desfiles do tchiloli ou as cerimónias espirituais de matriz africana, o lugar de equilíbrio entre a denúncia e a celebração?

Os bilhetes para a peça "O Riso dos Necrófagos" custam entre 5€ e 14€ (com descontos) e estão à venda nas bilheteiras da Culturgest e na rede Ticketline. A conferência, "Utopia Machim - Resistência no Lugar dos Tempos" tem entrada gratuitam contudo o levantamento dos bilhetes deve ser feito 30 minutos antes da sessão e estão sujeitos à lotação da sala.

Local: Culturgest;
Horário: "O Riso dos Necrófagos" disponível de 20 a 23 de abril e Utopia Machim - Resistência no Lugar dos Tempos no dia 27 de abril;
Preço: Entre 5€ e 14€
Fotografia de Sofia Berberan
O Riso dos Necrófagos